COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 1 – por José Brandão

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Capítulo I

 Sidónio Pais e o 5 de Outubro de 1910

«Conservemo-nos, por enquanto, absolutamente portugueses, rigidamente republicanos, intransigentemente inimigos do republicanismo actual. Brevemente começará a raiar nas nossas almas a intuição política do nosso futuro. E, quando a hora chegar, virá, não tenhamos dúvida, o homem de força que a imporá.»

Fernando Pessoa, 1912    

«Os homens são para as ocasiões»

Em 1910 a República vem encontrar Sidónio Pais quase no anonimato da vida revolucionária.

O então capitão Dr. Sidónio Pais não era exactamente um homem da Revolução.

É certo que tinha sido um dos poucos que, em 1891, assinara o Manifesto Académico redigido por João Meneses e que muitos lhe atribuem o professamento dos ideais republicanos desde muito novo. Ele próprio haveria de apresentar-se, em 14 de Janeiro de 1918, como um republicano desde os 15 anos.

Contudo, é só depois da implantação da República em 5 de Outubro de 1910 que Sidónio aparece publicamente ao lado dos revolucionários republicanos.

Natural de Caminha, onde nasceu no dia 1.º de Maio de 1872, Sidónio cedo se encantou pelas casernas. Aos 16 anos já marcava passo no Regimento de Infantaria 23, onde se alistara como voluntário, não tardando a ver-se promovido a sargento-cadete de artilharia para prestar serviço no Regimento n.º 1 da mesma arma.

Filho de um escrivão, que o deixara órfão muito cedo, a ele e aos seus dois irmãos, a família parecia marcada pelo signo de uma tragédia que já tinha levado à loucura e à morte vários familiares seus. Um tio, que se ordenou padre em Braga, morreu no Brasil, atacado de demência. A uma irmã de Sidónio veio a suceder a mesma tragédia e, mais tarde, quando Sidónio era presidente, um outro irmão, Aureliano, morre no Hospital do Conde de Ferreira, atacado de loucura incurável.

Em Dezembro de 1892 completa o Curso da Escola do Exército e, pouco depois, é Coimbra que o vê chegar, ali se preparando o Magistério. Antes, fora vogal da Comissão de Balística presidida pelo general Fernandes da Costa, a quem o jovem tenente Sidónio Pais ficaria a dever grandes favores na conciliação das suas funções militares e de estudioso doutorado.

Após ter andado pelas escolas industriais e, mais tarde, na Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra, Sidónio Pais acaba por ingressar, em Janeiro de 1899, no corpo docente daquela Faculdade onde será nomeado professor catedrático para reger a 3.ª cadeira de Cálculo Diferencial e Integral.

Teve sorte. Entrou como lente para a Universidade porque, na altura, havia grande oposição a um outro candidato, Santos Lucas de quem, por sinal, Sidónio Pais se considerava amigo íntimo.

Sem relutância, aceitou o lugar, «apesar das íntimas relações que o uniam ao condiscípulo e de conhecer a tramóia universitária». (1)

Nas bancadas da primeira Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 28 de Maio de 1911, Sidónio Pais arranja assento como deputado pelo círculo de Aveiro e, em 4 de Setembro do mesmo ano, é já ministro no Governo republicano, chefiado por João Chagas. Nas manifestações do primeiro aniversário da implantação da República é, até, o representante oficial do Governo na cidade do Porto, tendo assinado o auto do lançamento da primeira pedra para o monumento comemorativo da Revolução Republicana.

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Casa da família de Sidónio Pais em Coimbra

Como deputado, Sidónio Pais fizera ouvir a sua voz em 13 sessões da Assembleia, particularmente durante a discussão, na especialidade, do projecto da Constituição Política da República, mas é como ministro do Fomento, no Governo de João Chagas, que o seu nome começa a ser badalado com maior frequência.

A primeira incursão monárquica de Paiva Couceiro levara Sidónio Pais e outro ministro a terem de se deslocar ao Porto, a fim de acompanharem de perto a evolução da situação e o desenrolar das operações. Era ministro da Guerra o general Pimenta de Castro, a quem cabia a responsabilidade de fazer frente a incursão de Paiva Couceiro.

Sidónio e Duarte Leite, o outro ministro, logo entenderam não estar Pimenta de Castro a desenvolver as diligências necessárias para enfrentar tão delicada situação e daí ao velho general ser afastado do Governo foi um ápice.

Regressados apressadamente à capital, os dois ministros pedem de imediato, uma reunião do Conselho e, sob proposta de Sidónio e de Duarte Leite, Pimenta de Castro é afastado da pasta da Guerra

Na carta em que João Chagas comunica a Pimenta de Castro o seu despedimento do Governo, encontra-se o seguinte fundamento:

«Ex.mo Sr. Ministro da Guerra:

Os Ministros da Justiça, das Finanças, da Marinha, do Fomento e das Colónias, hoje reunidos comigo, reconhecendo que entre nós e V. Ex.ª existem divergências profundas quanto ao modo como tem sido organizada e dirigida por V. Ex.ª defesa da fronteira contra os Realistas Portugueses, resolvem expor a situação ao Sr. Presidente da República, deixando ao seu alto critério a resolução deste desacordo.

Sou de V. Ex.ª com a mais alta consideração,

João Chagas

Lisboa, 7 de Outubro de 1911.»

A esta missiva do chefe do Governo, o velho general Pimenta de Castro haveria de responder nos seguintes termos:

«Ex.mo Sr. Presidente do Conselho:

Pelo Ex.mo Sr. Barreto, secretário particular de V. Ex.ª, foi-me entregue em minha casa, ontem pelas 10 horas da noite, uma preventiva carta de V. Ex.ª, pela qual fiquei surpresamente inteirado do procedimento (que me abstenho de qualificar) havido para comigo por parte de cinco colegas meus no Ministério, e de que V. Exa., com a sua presidencial supremacia, é um desses cinco conluiados.

Saúde e Fraternidade

O Ministro da Guerra,

Joaquim Pereira Pimenta de Castro

Lisboa, 8 de Outubro de 1911.»

Para Sidónio, estava dado o primeiro passo de um caminho que iria conduzi-lo a uma vida política afastada de amigos, de camaradagem e de lealdade.

Pouco depois da demissão de Pimenta de Castro, o Governo de João Chagas finda a sua existência e no que se lhe segue encontrar-se-á uma vez mais Sidónio Pais, agora na pasta das Finanças.

É neste cargo que Sidónio Pais vê o seu nome lançado para o grande plano da vida nacional, ao apresentar aquilo que era considerado como o primeiro orçamento da República.

Era um orçamento em que, para Sidónio, o défice ficava por 1966 contos, enquanto para o deputado António Granjo a coisa não ficava por menos de 6946 contos.

Sidónio é, nesta altura, o «irmão Carlyle» da loja maçónica Estrela D’Alva, situada na Rua Sá da Bandeira, em Coimbra. Em 20 de Fevereiro de 1911 fizera o seu «testamento de iniciado» nessa associação secreta sem, no entanto, ter grande participação na mesma.

Tudo indica que Sidónio Pais procurara esta instituição unicamente por razões de carácter pessoal. A própria escolha do nome simbólico é bem o exemplo do afastamento quase total em relação às teses maçónicas.

Carlyle, filósofo, historiador e escritor escocês, que é tido como o percursor de algumas das mais obscuras concepções totalitárias, não era um modelo dignificante para qualquer homem, mesmo em 1911. Para Carlyle, antigo estudante de teologia e preceptor de famílias ricas, só aos «heróis» cabe o direito de dirigir as sociedades. Eles são personagens providenciais e as sociedades devem reconhecê-los como seres superiores, deixando-se guiar por eles e obedecer-lhes cegamente.

Era este arquétipo que Sidónio Pais escolhera como patrono do seu baptismo maçónico. Em 1911 talvez fosse estranha a opção de Sidónio Pais. Carlyle viria a personificar algo que se entenderia melhor no Sidónio de 1918.

Nesta altura, já a mãe do presidente Sidónio Pais podia dizer alegremente ao seu filho que «os homens são para as ocasiões». (2)

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NOTAS

1 António de Albuquerque, Sidónio na Lenda, Lisboa, 1922, p. 15.

2 Jesus Pabón, A Revolução Portuguesa, Lisboa, 1951, p. 310

(continua) 

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Notas:

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