FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – QUANDO A INCOMPETÊNCIA OU A MALDADE SÃO CONSIDERADAS QUALIDADES E, COMO TAL, PREMIADAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

Quando a incompetência ou a maldade são consideradas qualidades e como tal, premiadas – IIª Parte – H

Ainda a propósito das recentes promoções de Vítor Gaspar, Álvaro Santos Pereira e José Luís Arnaut

(CONTINUAÇÃO)

Enquanto aqui, em Portugal, se faz tudo isto, nos Estados Unidos procura-se atingir os principais responsáveis pelo assalto planetário conduzido pelos grandes bancos, com multas de milhares de milhões e ouve-se o seu Presidente da República dizer:

“Agora, os progressistas devem estar abertos para reformas que realmente fortaleçam esses programas e os tornem mais operacionais para uma economia do século XXI. Por exemplo, devemos estar dispostos a olhar para novas ideias quanto á possibilidade de renovar os programas de desemprego e de reinserção dos deficientes para proporcionar taxas de re-emprego mais rápidas e mais altas e, sem cortes nos subsídios. Nós não devemos enfraquecer as protecções fundamentais construídas ao longo de gerações, porque a constante rotatividade na economia de hoje e as deficiências com que muitos dos nossos amigos e vizinhos vivem estão em constante movimento. Portanto, elas são agora mais necessárias do que nunca”

Aqui os organismos da União Europeia defendem a existência dos multiplicadores menores que um, a justificarem as duras políticas de austeridade, enquanto que nos Estados Unidos as autoridades defendem o contrário e tomam como objectivo o crescimento económico, mesmo que condicionados pelos homens do Tea Party, um bando de rufias que têm como horizonte intelectual, como visão do mundo, como perspectiva de futuro, os mesmos ideias que campeam por Bruxelas, Franfkurt e Berlim.

Dir-me-ão que exagero nas críticas feitas. Mas dê-se a palavra a Lazslo Andor, Comissário europeu da actual Comissão e vejamos o que ele nos diz sobre o que se tem feito.

Depois de numa passagem ser frontal quanto à actual arquitectura da zona euro, em que afirma:

“As crescentes divergências a nível macroeconómico sobre o emprego e sobre os equilíbrios sociais ameaçam os objectivos fundamentais da União Europeia consagrados nos Tratados, em especial, o de beneficiar todos os seus membros, o de promover a convergência económica e o de melhorar a vida dos cidadãos de todos os Estados-Membros. A revisão mais recente mostra como as sementes da actual divergência tinham já sido semeadas nos primeiros anos do euro, como o crescimento desequilibrado em alguns dos Estados-Membros, baseado no acumular de dívida alimentada a juros baixos e na existência de fortes fluxos de capital, o que estava frequentemente associado à evolução dos níveis de produtividade e às decepcionantes questões quanto à evolução da competitividade.

Na ausência de opção de desvalorização da moeda, os países da zona euro tentaram melhorar a sua competitividade-custo utilizando a via da desvalorização interna como um instrumento de política económica alternativo (a contenção salarial e dos preços). Esta política, no entanto, tem as suas limitações e desvantagens, não apenas em termos de aumento do desemprego e de mal-estar social, a sua eficácia depende de muitos factores, tais como o grau de abertura da economia ao exterior, o peso da procura externa e a presença de políticas e investimentos que visem o aumento da competitividade extra-custo”

O comissário europeu Lazslo Andor faz uma análise dos efeitos das políticas seguidas e se tomarmos como referência apenas ao seu texto somos levados a perguntarmo-nos como é que é possível que os homens que levaram à prática e defenderam estas políticas sejam agora nomeados para cargos da maior importância internacional? Pelo seu mérito!

Com efeito diz-nos o referido Comissário:

“Depois de 2008, a dívida pública aumentou para níveis insustentáveis em muitos países, não por causa da prodigalidade orçamental, mas porque o sector público teve de utilizar pacotes de estímulos orçamentais a fim de evitar que a recessão se transformasse em depressão, para preservar o emprego e para resgatar os seus bancos, de forma a evitar que estes entrassem em situação de colapso. Em simultâneo, o crescimento económico entrou em grande parte numa situação de impasse, o que teve consequências orçamentais inevitáveis.

A crise financeira transformou-se em seguida numa crise da dívida soberana da zona do euro com um ciclo de efeitos de repercussão negativos sobre os bancos, sobre o sistema financeiro, sobre a produção das economias fragilizadas. Os esforços de austeridade tiveram que ser intensificados em várias ocasiões até porque a ausência da consolidação teria tido consequências piores. No entanto, alguns observadores expressaram dúvidas sobre a adequação da dimensão e dos ritmos dos programas de austeridade, como se duvidou igualmente da sua eficácia (num período de fraco crescimento e as taxas de juros zero).

Como resultado dos esforços de austeridade e da redução no acesso ao subsídio de desemprego, a contribuição dos estabilizadores automáticos nacionais foi enfraquecido em muitos Estados-Membros. Em suma de tudo isto, o rendimento disponível bruto real das famílias caiu, o que se traduziu, por seu lado, num enfraquecimento do consumo privado. Em Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia, as variações na sua balança comercial, que se deverem principalmente ao colapso das importações, contribuiu de forma significativa para o crescimento, mas não foi o suficiente para parar a queda abrupta do PIB. Enquanto a convergência das balanças correntes na zona euro a 12 foi em grande parte devida a um declínio generalizado da procura interna, os recentes sinais de uma melhoria das exportações tem sido visível nos Estados-membros, especialmente na Espanha e em Portugal.

A compressão salarial e o enfraquecimento dos estabilizadores económicos nos Estados-Membros espalhou-se por outros países sob a forma de uma procura externa mais fraca, dada a interdependência entre Estados-Membros da zona euro. Para além do efeito negativo sobre o crescimento devido a uma pressão sobre os salários, foram lentos os resultados da chamada política de ” desvalorização interna ” nos Estados em dificuldade devido ao limitado impacto limitado sobre os factores de competitividade extra-preço e pelo seu custo social.

A degradação da situação económica levou a altas e crescentes taxas de desemprego, do desemprego de longa duração e dos NEET, (não estão empregados, não estudam, não estão em formação) com uma forte divergência de resultados entre os Estados-Membros do Norte e do Sul da zona euro, que se espalhou para outros Estados Membros. Esta situação incluiu perdas permanentes de capital humano, associados, nomeadamente com o crescimento do desemprego de longa duração, devido às sequelas criadas. De modo mais geral o aumento do desemprego tem levado directamente à perda de rendimento, o que têm deprimido a procura agregada, em parte por causa da fragilidade dos estabilizadores automáticos, devida à sua cobertura inadequada.

Os efeitos da degradação da situação económica e do emprego também são visíveis no aumento das desigualdades e na pobreza crescente na área do euro, com um forte padrão de divergência entre os Estados-Membros do Sul, que foram mais afectados, em comparação com os do Norte. Os níveis elevados e crescentes de desigualdade de rendimento só serviram para reduzir o crescimento sustentável através da sua pressão sobre a procura agregada e encorajaram os empréstimos insustentáveis, o que criou um forte ressentimento social e enfraqueceu a legitimidade dos processos e das instituições políticas.”

E para que não tenhamos dúvidas continua o Comissário:

“A recente recuperação económica na Europa é ainda muito frágil, enquanto o mercado de trabalho e as condições sociais permanecem extremamente problemáticas. Assegurar  uma saída sustentável desta longa crise económica, assegurando em simultâneo uma recuperação rica em trabalho e um regresso à trajectória e às metas da estratégia Europa 2020, exigirá politicas económicas e sociais, condições bem projectadas para responder aos problemas de emprego e aos desafios sociais. Investir em postos de trabalho e nas pessoas; melhorar o funcionamento do mercado de trabalho; aumentar a eficácia e a eficiência dos sistemas fiscais e da segurança social; apoiar as transições de situações de desemprego de longa duração e da pobreza; e restaurar a convergência socioeconómica dentro da zona euro, portanto, todas estas questões permanecem como as grandes prioridades.”

Por outras palavras o Comissário europeu, tal como nós, tal como muitos outros está a pensar numa outra Europa. Não condena ninguém como se viu, condena apenas um modelo que considera completamente bloqueado, modelo que urge ultrapassar , num processo que exige tempo, seriedade, dignidade, empenho colectivo, num processo que tem como ponto de chegada uma outra Europa. Mas as eleições aproximam-se, o ressentimento social cresce, é preciso estancá-lo sem colocar em causa o modelo, necessariamente. As manipulações sobre os itens do défice, a barragem de mentiras, a reconstrução de outros resultados económicos e sociais exige-se, o reduzir da intensidade das políticas de austeridade vai ser uma realidade não porque as políticas seguidas estejam erradas mas porque dados os novos e bons resultados a apresentar deixam de ser tão necessários, eis pois o novo espectáculo da mentira delirante que vai ser concebido a partir de Bruxelas. Abram alas, portanto, porque o espectáculo de fantasia vai começar, apesar das posições assumidas por Mario Draghi em Davos. Apenas para assustar, porque o espectáculo, esse, tem de continuar.

(continua)

______

Para ler a parte II – G deste trabalho de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – QUANDO A INCOMPETÊNCIA OU A MALDADE SÃO CONSIDERADAS QUALIDADES E, COMO TAL, PREMIADAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

1 Comment

Leave a Reply