FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – QUANDO A INCOMPETÊNCIA OU A MALDADE SÃO CONSIDERADAS QUALIDADES E, COMO TAL, PREMIADAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

Quando a incompetência ou a maldade são consideradas qualidades e como tal, premiadas – IIª Parte – G

Ainda a propósito das recentes promoções de Vítor Gaspar, Álvaro Santos Pereira e José Luís Arnaut

(CONTINUAÇÃO)

Poderíamos continuar, pois há matéria para o efeito, e se eventualmente o fizesse-mos, mais nomes sonantes haveríamos de encontrar. Basta ver a composição do fundo de investimentos Carlyle! Todavia, creio que chegam para termos uma ideia que ao nível da finança há também toda uma pirâmide, uma hierarquia de papéis, de funções, de rendimentos, contudo, esta pirâmide é possível, porque o consentimos, porque nos deixamos enganar pelos seus discursos, pela ideologia segregada e paga a partir de Bruxelas. E é aqui que neste quadro que se inserem as nomeações referidas, o papel de serem um pouco os guardiões do discurso que eles querem que seja feito pela base e autenticado depois pelo topo. A máquina ideológica tem de funcionar e para isso tem de ser paga. Por isso, Gaspar, por isso, Santos Pereira, estes são homens promovidos, são promovidos a controladores menores, a controladores do discurso ideológico a ser produzido pelas grandes Instituições. Veja-se o discurso de Bruxelas sobre os multiplicadores a que acima nos referimos.  Por cima destes manipuladores menores estão os homens políticos, os homens que os lançaram, que os promoveram e, a partir destes, vêem as ligações com a pirâmide da alta finança. É também evidente que há múltiplas passerelles entre as duas pirâmides, entre o mundo da alta finança e o da política, passerelles estas cobertas, para utilizar uma feliz expressão de António Arnaut proferida aquando de uma grande sessão ocorrida em Coimbra, aquando de uma grande lição de Democracia que a cidade de Coimbra deu ao governo e ao mudo Presidente da República, cobertas “por uma sombra tenebrosa e sufocante” que [ invade o mundo], que invade Portugal .

Mas estas duas pirâmides, a da finança e a do mundo político actual, vivem ligadas a uma outra, e são, (! ) diríamos assim, o seu reflexo. Vivem ligadas à pirâmide da distribuição de riqueza à escala mundial e são, por um lado, o seu próprio produto e, por outro, é através  delas que esta última se recompõe, se reestrutura. Deste ponto de vista vale a pena olhar para a conclusão de um relatório apresentado agora pelo Crédit Suisse sobre a pirâmide da distribuição da riqueza:

“A pirâmide de riqueza na Figura 1B abaixo captura as diferenças em termos de distribuição de riqueza de uma forma impressionante. Tem uma grande base, constituída por gente mais pobre da escala, a que seguem depois ao longo da pirâmide grupos de pessoas com níveis superiores de riqueza e por intervalos de rendimento, grupos sucessivamente preenchidos com menos gente à medida que se sobe na escala de riqueza. Em 2013, estimamos que 3,2 mil milhões de indivíduos da população adulta – mais de (2/3) dos adultos a nível mundial – têm uma riqueza abaixo do intervalo USD 10.000-100.000. Enquanto a detenção de riqueza média é modesta na base e nos segmentos médios da pirâmide, o valor patrimonial total atinge cerca de USD 40 milhões de milhões, sublinhando-se o potencial para o consumo de produtos e serviços financeiros inovadores dirigidos a este segmento que é frequentemente negligenciado.

Figura 1 B – Pirâmide da Riqueza Global

bazucab - V

Os restantes 393 (361+32) milhões de adultos (8% da população mundial) têm cada um deles um património líquido superior a USD 100.000. Nestes, incluem-se os milionários (de milhões de dólares americanos), um grupo que compreende menos de 1% da população adulta mundial que globalmente detém cerca de 41% da riqueza global dos agregados familiares. Dentro deste grupo, estimamos que 98.700 indivíduos dispõem de mais de 50 milhões de USD, e 33.900 dispõem de mais de 100 milhões de dólares.

Veja-se a Figura 1C

No topo da pirâmide, os 98.700 indivíduos mais ricos valem agora mais de USD 50 milhões. As fortunas recentes criadas na China levam-nos a estimar que cerca de 5.830% (5,9% adultos chineses, portanto, 5,9% do total global) pertencem agora ao grupo dos mais ricos e em número semelhante são os residentes dos restantes BRICs.

Embora a informação fiável sobre as tendências ao longo do tempo seja escassa quanto aos dados da pirâmide de riqueza, parece quase certo que a riqueza cresce mais rapidamente no estrato superior da pirâmide desde pelo menos a partir do ano 2000, permanecendo a tendência até então. Note-se, por exemplo, a riqueza global total cresceu 4,9% desde meados de 2012 a meados de 2013, contudo, durante o mesmo período, o número de milionários no mundo cresceu de 6,1%, e o número de indivíduos mais ricos aumentou em mais de 10%. Portanto, parece que a economia mundial continua a ter um comportamento favorável para a aquisição e preservação de fortunas de médio e grande porte.”

Figura 1C O cume da pirâmide

bazucab - VI

Os gráficos do Crédit Suisse são pois bem claros, impressionantes mesmo, como os próprios autores o reconhecem.

Tudo isto nos leva a que para além de começarmos a perceber bem porque nos são impostas as políticas de austeridade, começamos a compreender também porque é que estas gentes são assim promovidas. É necessário garantirem o quadro ideológico dessas mesmas políticas, as que asseguram à escala mundial o domínio dos mercados, porque é com este domínio que os mercados remuneram tão principescamente os seus mais notórios servidores e, naturalmente o sistema precisa de renovações sucessivas. O que é de espantar é que tantas Universidades tenham tomado a ilusão pela ciência, é certo também a coberto de Estocolmo e dos seus prémios Nobel, e que dessa ilusão além de a terem afirmado como ciência também a tenham ensinado. Percebe-se a revolta dos estudantes ingleses em querem um ensino que os prepare para perceber o mundo, que os prepare para o poderem entender e modificar.

No nosso caso, limitámo-nos a fazer um simples exercício, a mostrar que as políticas de austeridade impostas a praticamente toda a Europa continuam técnica e cientificamente por justificar. Indiferentes ao discurso científico, os nossos dirigentes vivem na cegueira de querer satisfazer a ganância dos donos do mundo, sendo em simultâneo também directa ou indirectamente os senhores dos mercados. As histórias à volta da Libor ou à volta do fixing cambial ilustram isso mesmo. Um mundo louco bem retratado no livro Cityboy, cuja capital é Londres, e cujo governo está situado na Square Mile, cidade onde nascem desde há décadas todas as desgraças financeiras que dão cabo do mundo. Como observava a congressista do Estados Unidos Carolyn Maloney em Junho passado:

“Parece que cada grande desastre comercial no mundo é um desastre que acontece em Londres”. “Sinceramente gostaria de saber o porquê desta estranha coincidência.” As catástrofes a que se estava a referir são como a que levou à falência do Lehman Brothers, deixando no fio da navalha outras empresas americanas, tais como A.I.G e MF Global[1], bem como a catástrofe que provocou perdas de USD 6 mil milhões no JPMorgan Chase, pelas mãos do trader popularmente conhecido como “a baleia de Londres” — todos esses desastres aconteceram, na sua maior parte, nos ramos daquelas empresas a trabalhar em Londres e que custaram milhares de milhões de dólares ao contribuinte americano”.

E acontecem aí, porquê? Porque Londres é o domínio por excelência dos mercados, onde a lei é apenas uma: sobreviver, mas sobreviver significa ter de acumular, acumular significa ter de ganhar cada vez mais e então, para isso, tudo ser possível. Acontecem, simplesmente por isso. Pela lógica do autor do Crime e Castigo, Londres, a City, são paragens por onde Deus não pode ter passado. A demonstrá-lo o caso do Lehman Brothers, onde segundo os juristas encarregados do processo de falência da filial londrina a cada depositante deveria ser instaurado um processo judicial. Aconteceu alguma coisa a alguém? E de resto na base de que jurisdição? Na da City? Na do país origem do depositante? Na dos Estados Unidos? Cinco anos já passaram… Mas se as coisas más acontecem em Londres, as penalizações aos grandes bancos acontecem apenas nos Estados Unidos. Curiosamente. Aqui, o Estado e de forma sistemática procura assaltar as economias dos pensionistas, aqui o Estado procura reduzir os subsídios dos desempregados, aqui o Estado procura diminuir as pensões de viuvez, pois na ganância de Bruxelas em servir os grandes bancos nem os mortos já escapam, aqui o Estado procura roubar nas indemnizações de quem vai para o desemprego sem a certeza de que poderá voltar a trabalhar, aqui o Estado procura já poupar na educação das nossas crianças que serão o nosso futuro amanhã, aqui o Estado procura poupar na saúde dos próprios idosos, aqui circula-se entre o poder, os grandes bancos, e o poder outra vez, como o ilustram os casos de António Borges e José Luís Arnaut, convidado agora para o Goldman Sachs.

(continua)

______

[1] Nota de Tradução: Já depois de publicado o artigo em Vanity Fair, MF Global faliu.

______

Para ler a parte II – F deste trabalho de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – QUANDO A INCOMPETÊNCIA OU A MALDADE SÃO CONSIDERADAS QUALIDADES E, COMO TAL, PREMIADAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

1 Comment

Leave a Reply