COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 3 – por José Brandão

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(Continuação)

Eram 19 horas quando os canhões começaram a troar no Parque Eduardo VII. A hora escolhida por Sidónio Pais para iniciar a acção apanhara de surpresa a população da capital e o próprio Governo, que leva tempo a aperceber-se da gravidade da situação e a reunir as forças com que contava para a enfrentar.

Estava dado o golpe!

A população procura chegar às suas casas rapidamente, apinhando os eléctricos e tudo o que possa transportar. Os que não o conseguem refugiam-se nas escadas dos prédios, nos postos da Cruz Vermelha e nos quartéis dos bombeiros. No quartel dos Voluntários do Largo do Barão de Quintela acolhem-se centenas de populares, que não arriscam a pele no meio do tiroteio e do bombardeamento que se faz sentir.

Cerca das 9 horas da noite, quando o bombardeamento baixou um pouco de intensidade, os Voluntários formam quatro escoltas de cinco bombeiros cada e começam a conduzir a população às suas residências.

Com uma bandeira da Cruz Vermelha, de buzina e com um archote para compensar a iluminação pública que os revoltosos tinham apagado, as escoltas dos bombeiros lá vão para os lados da Estrela, Alcântara, Santa Apolónia e Rato, conduzindo as pessoas para suas casas.

Na madrugada do dia 6, Sidónio tinha já ao seu lado, no Parque Eduardo VII, cerca de 1500 homens, contando com uma apreciável força de artilharia e apostando no denodo dos seus cadetes.

Dizia-se que na Rotunda estavam 48 peças de artilharia. Os bombardeamentos flagelavam a parte baixa da cidade, onde uma granada chega a atingir o Arco da Rua Augusta, levando-lhe um pedaço.

Perto da 1 hora da madrugada, três granadas vão cair no salão e na casa de jantar do Hotel Avenida Palace, nos Restauradores. Uma criada fica queimada na cara e o quarto n.º 7 é reduzido a um montão de destroços.

Para combater estas forças, o Governo contava com cinco das doze unidades do Exército da capital, com a GNR, com a Marinha, com a Polícia e com a Guarda-Fiscal. Ainda tenta ordenar às tropas de Santarém e de Mafra que avancem sobre Lisboa; porém, os telégrafos só transmitem telegramas favoráveis a Sidónio e as forças de Mafra, quando chegam à capital, juntam-se aos revoltosos que estavam na Rotunda.

Nos dias 6 e 7, os combates prosseguem com intensidade. Sidónio Pais continua a receber reforços de unidades que, em princípio, se destinavam a sufocar o seu movimento. Desta vez, é a Artilharia de Queluz e um esquadrão de cavalaria, comandado pelo oficial Sá Guimarães, que se colocam facilmente ao seu lado.

Para o Governo, a situação começa agora a ser quase dramática. À medida que o tempo passava, não só não conseguia dominar a revolta de Sidónio Pais como encontrava cada vez mais dificuldades em organizar a sua própria defesa.

Por todo o lado da cidade se viam grupos de civis armados que, a tiro e à bomba, dificultavam os movimentos das tropas governamentais.

Sidónio estava bem defendido na Rotunda. Os grupos de revoltosos civis montaram emboscadas em todas as vias de acesso ao Parque Eduardo VII. Nas Ruas do Marquês de Fronteira, Arco do Carvalhão, S. João dos Bem-Casados, D. Carlos de Mascarenhas, na Avenida Duque de Loulé e em outros acessos à Rotunda podiam ver-se grupos de civis com bombas na mão, sempre prontas a serem arremessadas.

No Arsenal da Marinha, onde o Governo instalara o seu Quartel-General, podem ver-se o general Norton de Matos, ministro da Guerra, e o chefe da Divisão Naval, Leote do Rego, em situação já desesperada.

Ainda tentaram organizar três colunas, que partiriam do Terreiro de Paço, para atacar as forças de Sidónio Pais na Rotunda.

À primeira caberia subir a Avenida, a segunda iria pela Rua de S. Bento e a terceira pela Rua da Escola Politécnica. Duas colunas secundárias atacariam, a partir da Penha de França e do Campo de Santana. Compunham-nas, alem de unidades do Exercito, como Cavalaria 4, forças da Guarda Republicana, da Guarda-Fiscal e de marinheiros, incorporando-se ainda, nelas numerosos civis defensores do regime.

A coluna mais poderosa é comandada pelo coronel expedicionário Sá Cardoso, revolucionário do 5 de Outubro de 1910.

Logo à saída do Terreiro do Paço é atacada à bomba pelos grupos civis afectos a Sidónio, não conseguindo sequer chegar à Avenida Almirante Reis, de onde deveria seguir para o Campo Santana e para a Avenida. As ruas estreitas da Baixa são um óptimo campo para as emboscadas dos grupos civis e Sá Cardoso vê-se forçado a mudar de direcção, optando por seguir para o Largo do Rato, desfazendo assim, por completo, o principal objectivo do plano de ataque à Rotunda, que consistia na junção das três colunas a partir de pontos distintos. O movimento envolvente seria ainda secundado pela acção dos navios de guerra fiéis ao Governo.

De entre estes destacavam-se o contratorpedeiro Guadiana, pela certeza com que as suas peças flagelavam a Rotunda, e o cruzador Gil Eanes, onde era segundo-comandante um irmão de Sidónio, António Pais.

Com o plano de ataque reduzido à concentração dos combates no Largo do Rato, as forças governamentais sofrem pesadas baixas ao fim de cinco horas de luta. No chão jazem cerca de 160 mortos e mais de 700 feridos, O quiosque de O Século é atravessado por uma granada, que foi furar a parede do palácio do Marquês da Praia e Monforte, onde hoje está instalado o Partido Socialista, no Largo do Rato.

(Continua)

«Lisboa assemelha-se às cidades mártires da França e da Flandres na ânsia angustiosa das rudes batalhas. A luta e o heroísmo duram horas seguidas. Ao vasto quadro de defesa e ataque sucedem-se lances de galharda valentia. Adquire épico relevo o combate, a peito descoberto, dos marinheiros do guarda-marinha Agatão Lança, que no Largo do Rato caía gravemente ferido.» (1)

O guarda-marinha Ascensão morre tragicamente, vítima de uma aparatosa colisão de automóveis na Rua de S. Pedro de Alcântara, quando conduzia o seu camarada Agatão Lança para o Posto da Misericórdia.

O Ford em que se transportavam a grande velocidade acaba por embater violentamente num poste de eléctricos, em frente ao Hotel Bristol, e o guarda-marinha Ascensão, que ia ao lado do condutor, é projectado com a cabeça contra o poste e morre instantaneamente.

Agatão Lança fica debaixo do carro, a gemer, e só consegue salvar-se graças à caixa da carroçaria, que o protege do esmagamento.

No posto da Misericórdia já não há camas nem médicos e os enfermeiros não chegam para acudir à avalanche de sinistrados que vêm das zonas dos combates. Agatão Lança tem de ir para o Hospital de Santa Marta, onde chega em estado desesperado.

Deste verdadeiro herói da causa republicana, dirá mais tarde Cunha Leal nas suas Memórias: «Nem sequer a morte, que andou a rondar em torno dele, teve coragem suficiente para arrancar então a esse homem, gravemente ferido, uma vida que resultava preciosa para a Grei Nacional pelo exemplo que dela se desprendia.» (2)

Para os sidonistas, as forças governamentais estavam irremediavelmente batidas; tinham ido «beber água ao Rato»… Como depreciativamente passariam a dizer.

A Revolução de Sidónio tinha já lugar certo na História. Afinal, o ministro das Colónias, Ernesto Vilhena, que sobraçava interinamente a pasta dos Negócios Estrangeiros, onde Sidónio Pais estava colocado, tinha-se enganado — e bem.

«Os senhores estão doidos… Esse homem é lá capaz de fazer uma Revolução!», dissera ele, quando o avisaram de que um alto funcionário às suas ordens era chefe de uma grave conspiração. Uns dias antes do 5 de Dezembro, chegara mesmo a chamar Sidónio Pais ao seu gabinete e a impressão que este lhe deixou não era suficiente para o convencer de que estava perante um perigoso conspirador.

Ao fim e ao cabo, tudo tinha corrido às mil maravilhas e Sidónio Pais era agora uma pessoa que o ministro não mais esqueceria.

A luta tinha sido dura, é certo. Ao todo, cerca de 350 pessoas perderam a vida nestes três dias de combate. O golpe de Sidónio passa a ser um dos mais mortíferos de toda a História portuguesa.

Na madrugada de sexta-feira, dia 7, a cidade estava praticamente nas mãos das forças comandadas por Sidónio Pais. Os jornais mal apareciam, vinham censurados na totalidade e apenas O Mundo conseguia dar nota do alento do Governo.

Pelas 11 horas deste dia, o tenente-coronel Martins de Lima, no alvoroço de querer saudar do alto as forças revoltosas, passa de avião sobre o Parque. No dia anterior tinham já andado por cima da Rotunda dois aeroplanos vindos do campo de aviação de Vila Nova da Rainha. Os insurrectos, julgando-o inimigo, alvejaram-no a tiro, e o avião, depois de quase tocar nos prédios de Chelas, vai afocinhar para os lados da Quinta das Flamengas, perto da Portela de Sacavém, causando a morte do tenente-coronel e ferindo o tenente Caseiro, que o acompanhava, e que vem igualmente a falecer seis dias depois.

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1 Comment

  1. Momentos histricos que nem os alunos conhecem -ou porque no convm ou porque os jovens no esto minimamente interessados – Agora?Seria bem mais fcil -um sniper bem pago ?Maria

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