COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 4 – por José Brandão

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Mas, apesar de tudo isto, dois dos primeiros lugar-tenentes de Sidónio na Rotunda ainda têm tempo, no meio da refrega, de ir almoçar ao Avenida Palace, nos Restauradores. De clarim à cinta e quase desarmados, o jovem tenente Teófilo Duarte e alferes Forbes Bessa não prescindem do bom serviço à lista que este conceituado hotel punha à disposição da sua distinta clientela.

Houve, mesmo, aquele caso dos oficiais de Cavalaria 7 que, ao fim de vinte e quatro horas de luta, foram pedir licença a Sidónio Pais para procurarem uma barbearia onde pudessem fazer a barba. «Os senhores estão loucos!» exclamou Sidónio. E Teófilo Duarte, perfilado, explicou-lhe: «É que eles só carregam com a barba feita.»

Outro jovem oficial, o alferes Botelho Moniz, ainda teve algumas dúvidas, ao princípio da noite de 5 de Dezembro (chegou mesmo a estar preso na Rotunda); porém, logo que viu Sidónio Pais, entusiasmou-se de tal maneira que requereu para si o posto de combate mais arriscado.

Dirigindo-se a Sidónio, quase suplicou: «Diga-me, comandante, qual o posto de maior perigo. Aí quero combater.» (3)

Entretanto, enquanto as forças armadas e militarizadas se defrontavam no Alto da Rotunda, a cidade começava a ser palco de uma vaga de assaltos como não havia memória desde a «Revolução da Batata» (4)

Nas ruas de Lisboa não se via um único polícia. A revolta de Sidónio mobilizara tudo o que era farda e as montras das lojas eram agora uma tentação fácil. As esquadras policiais cerraram, por ordem superior, as suas portas, sendo os guardas mandados recolher a suas casas e ao Governo Civil.

Logo que teve conhecimento da extensão do golpe, grande parte do povo de Lisboa saiu para a rua. Não para apoiar o movimento de Sidónio Pais, mas para começar a assaltar lojas e armazéns, aproveitando a falta de policiamento.

Das zonas miseráveis de Alcântara, Santos, S. Bento, Estrela, Alfama, Mouraria, Castelo, Casal Ventoso e outras saem multidões de famélicos e pés descalços que invadem as ruas de maior comércio da capital, estilhaçando os vidros das montras, arrombando as portas onduladas, não deixando pedra sobre pedra por onde passam.

Era uma cidade sem rei nem roque, como então descreveu Sousa Costa, que dizia: «Sobre a cidade desguarnecida de polícia e Guarda Republicana caem milhares de aves de rapina vindas dos bairros miseráveis […] Bandos espessos de mulheres esfarrapadas, megeras que ninguém vira ainda à luz do dia, hordas de maltrapilhos e esfaimados, cujo aspecto infunde pavor e dó, rolam em massa e aos grupos, formigam, acotovelam-se no centro da Baixa — onde impera o grande comércio a grosso e a retalho. Dentro em pouco, a orgia desenfreada das fomes, sedes e apetites à solta arromba portas, estilhaça montras, saqueia depósitos de víveres, despeja armazéns de vestuário — sapatarias, ourivesarias, mercearias, algibebes.» (5)

«Pelas diversas ruas só se via gente carregada de géneros», escrevia O Século, «sacos com açúcar e farinha, bacalhaus, caixas de bolachas, garrafas de tudo quanto se aglomerava nas lojas e armazéns […] Os militares que apareciam faziam causa comum com os assaltantes […] Ruas houve onde nunca deixou de andar todo o dia uma fila de gente de toda a espécie carregada de artigos e géneros.» (6)

«Os assaltantes em verdadeira bicha levavam para casa géneros alimentícios e de primeira necessidade e ainda outros, como por exemplo botas, pois muitas sapatarias foram assaltadas, entre elas a de S. Roque e a antiga sapataria dos Teatros, no Largo da Trindade. Igualmente a sapataria Chic, há pouco instalada na Calçada da Estrela, foi completamente esvaziada.» (7)

No Bairro Alto são assaltadas quase todas as mercearias, bem como o Dragão Chinês, na Rua de S. Pedro de Alcântara, e o celeiro que lhe ficava ao lado.

Na Rua dos Douradores, mercearias são também assaltadas, enquanto dos depósitos da Companhia Previdente, ao Conde Barão, «voam» toneladas de bacalhau.

Num assalto à Pérola da China, na Rua da Palma, um homem fica com um braço esfacelado por uma granada.

De facto, este foi o «grande apoio» que o povo de Lisboa deu à revolução de Sidónio Pais.

O operariado da capital teve ainda um papel significativo nos dias do golpe sidonista. Alexandre Vieira e Aurélio Quintanilha, os dois principais dirigentes da central sindical UON — União Operária Nacional —, chegaram a ir à Rotunda, com um grupo de operários, oferecer a sua colaboração a Sidónio Pais. Em troca punham umas quantas condições, que Sidónio acabaria por aceitar sem grandes dificuldades.

Esta ida dos dirigentes da UON à tenda de Sidónio, na Rotunda, era, em boa verdade, a formalização do apoio desta organização sindical à revolta sidonista.

Era como que se Sidónio tivesse tudo, ou quase tudo, pelo seu lado.

O mesmo já não se podia dizer do Governo, que nem sequer o primeiro-ministro tinha cá.

Afonso Costa estava em Londres com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Soares, onde tinha ido participar na Conferência dos Aliados.

O major Sidónio Pais jogara bem na escolha dos dias para o seu golpe. Com Afonso Costa fora, tudo seria mais fácil.

O Exército e a própria Marinha estavam, por esta altura, bastante enfraquecidos de oficiais fiéis à República e ao Governo de Afonso Costa. A ida da maioria dos oficiais milicianos e republicanos para as frentes de guerra na Flandres e nas colónias portuguesas deixavam o Governo da República à mercê da mais simples aventura interna.

No dia 7, Norton de Matos sente que nada mais lhe resta e decide, na sua qualidade de chefe interino do Governo, apresentar a demissão do Governo ao Presidente da República, Bernardino Machado.

A exoneração do Governo era justificada nos seguintes termos: «O Governo, para evitar as funestas consequências da divisão do Exército, que, mais que nunca, precisa de estar unido neste momento, resolveu propor a cessação das hostilidades. E apresentou o seu pedido de exoneração ao Sr. Presidente da República, que o aceitou.»

Acabava a República de 1910. Ia começar uma outra República.

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