EDITORIAL – Dia da Rádio

 

Imagem2A UNESCO declarou o 13 de Fevereiro como Dia Mundial da Rádio por ter sido neste dia que a United Nations Radio emitiu pela primeira vez, em 1946, um programa em simultâneo para seis países. O primeiro destes dias foi celebrado em 2012. Como repetidamente temos afirmado, não aprovamos a celebração de «dias». Pensamos homenagear a rádio numa data por nós escolhida. Porque a rádio assumiu um papel de grande relevância na vida dos povos e, ao contrário do que se vaticinou, a televisão não a relegou para o museu – a rádio tem continuado a evoluir e a adaptar-se às novas tecnologias e a novos equipamentos. Acompanhou os principais acontecimentos históricos mundiais e continua a ser um meio de comunicação fundamental.

Num pequeno poema dedicado ao receptor de rádio, Bertolt Brecht deseja que as válvulas não se danifiquem e permitam que os inimigos possam continuar junto da sua cama a  dar-lhe conta das suas vitórias e, diz ele – as vitórias dos inimigos são as nossas preocupações. Porém, deseja que essa voz “The last thing at night, the first thing in the morning, a última coisa que ouve à noite e  a primeira que escuta de manhã” não fique de repente em silêncio.

Em Portugal, a rádio testemunhou grandes acontecimentos históricos do século XX. As primeiras emissões regulares datam de 1925 e a Ditadura Nacional, que depois deu lugar ao chamado Estado Novo, instalou-se um ano depois. E o regime usou as ondas radiofónicas como instrumento de repressão e de propaganda – a Emissora Nacional, o Rádio Clube Português, a Rádio Renascença, eram vozes que, usando a expressão de Brecht, multiplicavam as vitórias do salazarismo e aumentavam a nossa preocupação – a ditadura parecia não ter fim. O Rádio Clube Português serviu de antena às hordas fascistas de Franco, emitindo para toda a Península as mentiras ditas pela voz de Marisabel e as «charlas» que o general Queipo de Llano vomitava na Radio Sevilla e o RCP retransmitia com maior potência para todo o territorio peninsular.

Saltando décadas e chegando aos anos 60 e 70, encontramos a rádio como elemento difusor em que até os aspectos aparentemente inócuos eram aproveitados – as canções, por exemplo. Mário Castrim designou por “nacional-cançonetismo” uma vaga de artistas que disputavam entre si os favores de um público e que o regime contrapunha aos cantores de intervenção que desde o princípio dos anos 60 começavam a aparecer. A Guerra Colonial punha laivos de drama na tragicomédia salazarista, enlutando dividindo famílias – mortos em África e emigrados – quase toda a gente tinha.

E foi então que as rádios clandestinas apareceram. Vozes que vinham de longe e falavam das derrotas do fascismo e das nossas vitórias – às vezes exagerando. E uma noite… No Rádio Clube Português aquele de onde, bêbedo e obsceno, Queipo de Llano insultara a democracia, uma noite de Primavera vieram palavras que todos esperávamos há muito tempo.. Na Ordem de Operações o RCP tinha o nome de código de MÉXICO. Diz, Otelo em Alvorada em Abril:

«Toca o telefone civil no posto de comando.

– Fala ÓSCAR – atendo.

– Aqui Grupo Dez. Informo MÉXICO conquistado, sem incidentes – diz Santos Coelho do outro lado do fio.

Okay. Mantenham emissão normal. Preparem leitura primeiro comunicado hora prevista.

Coloquei o telefone no descanso.

– Já temos emissor – disse aos camaradas – O Rádio Clube é nosso.

São três horas e vinte minutos da manhã»

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