COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 5 – por José Brandão

(Continuação)

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«Cidadãos! Venceu a República contra a demagogia. É, pois, indispensável que todos os cidadãos regressem às suas honestas actividades, sendo, Imagem1cada um, um elemento de ordem.

A Revolução teve em vista restaurar a Justiça e o Império da Lei e, sendo feita contra a desordem do Poder, ela deseja a tranquilidade e o trabalho, e, tendo autoridade moral para conseguir estes elementos de paz nacional, tem força para os tornar efectivos.

Cidadãos! A Revolução é feita em nome da Liberdade, exige calma nos espíritos, respeito pela vida e propriedade alheia e confiança na autoridade.

Viva a Pátria!

Viva a República!

Lisboa, Parque Eduardo VII, 8 de Dezembro de 1917.

O comandante das Forças Revolucionárias, Sidónio Pais.»

Era assim que Sidónio Pais apresentava a sua revolução ao País, três dias depois de ter iniciado a sublevação militar que o iria conduzir ao poder.

Desta vez não se iria tratar de mais um pronunciamento contra a situação estabelecida (o oitavo ou nono desde que a República tinha sido implantada, em 1910), mas de algo mais profundo. Algo que até então não tinha acontecido nesta terra e, talvez mesmo, na desenvolvida Europa.

Afonso Costa, que, entretanto, já chegara ao País, não sabia ainda concretamente o que sucedia em Lisboa. Tinha chegado à fronteira de Vilar Formoso na manhã do dia 6. Ali, ninguém sabia do que se estava a passar na capital. Só na Pampilhosa, onde chega pelas 16 horas, o governador civil de Coimbra, António Cândido Leitão, lhe dará conta de que em Lisboa havia estalado uma revolta e que tinha ordens, «as mais terminantes», do ministro da Guerra, Norton de Matos, para impedir, por todas as formas, que Afonso Costa seguisse para Lisboa, devendo mesmo prendê-lo se, porventura ele teimasse em dirigir-se à capital (8)

Pelas 11 horas da noite, de Coimbra, Afonso Costa estabelece contacto telefónico com o ministro da Guerra, indagando sobre os acontecimentos.

Norton de Matos informa-o, então, de que era «coisa de pouca importância» e de que estava a preparar tudo para na manhã seguinte esmagar a revolta.

Afonso Costa ordenou que durante a noite o mantivessem ao corrente do que se ia passando, o que Norton de Matos prometeu fazer. Mas, apesar da promessa, a noite passou sem que chegasse qualquer notícia da capital.

Com alguma dificuldade, Afonso Costa consegue, na manhã do dia 7, contactar novamente o ministro da Guerra.

Foi então que Norton de Matos declarou «que estava tudo preparado para o ataque, que as colunas haviam partido, compostas por forças de terra e mar, deviam estar já em contacto com os revoltosos, e que dentro de poucas horas o movimento estaria jugulado» (9),

Norton de Matos aconselharia ainda Afonso Costa a dirigir-se para o Porto, com o objectivo de animar os republicanos desta cidade e evitar que também nesta cidade eclodisse um possível apoio à revolta de Lisboa.

Pelas 20 horas do dia 7, Afonso Costa chega à estação de Campanhã. No cais, um oficial, que o vem cumprimentar, dar-lhe-á conhecimento de que no Quartel-General haviam recebido um telegrama do Ministério da Guerra dizendo que a revolta de Lisboa tinha sido dominada.

Afonso Costa preparava-se para sair do Grande Hotel do Porto e seguir com destino a Lisboa, quando soube da decisão de Norton de Matos de apresentar a demissão do Governo.

Afonso Costa não podia acreditar que o Governo, depois de lhe comunicar pelo telefone que o movimento estava jugulado e de ter mesmo telegrafado ao comandante da Divisão do Porto a confirmar o facto, fosse em seguida pedir a demissão sem primeiro consultar o seu presidente que ele muito bem sabia estar no Porto.

«Assim era, no entanto. O ministro da Guerra havia telefonado, não como poderia supor-se e deveria ser, para consultar o seu chefe sobre esse pedido de demissão, mas, na verdade, para que a Afonso Costa fosse comunicado que a demissão havia sido pedida.» (10)

COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 6 – por José Brandão

Chegado ao Governo Civil, Afonso Costa dirige-se para o gabinete do governador e, ai pede uma ligação telefónica com o Ministério da Guerra, em Lisboa.

Deste Ministério ninguém responde.

«— Mas porquê? Porquê?… — Interroga-se Afonso Costa, ao mesmo tempo que tenta comunicação com a Presidência da República. — Porque não esperaria o Norton por mim para tomar tal resolução?!»

Em conversa já com o Presidente da República, diz-lhe:

«— Pois V. Ex.ª aceita a demissão do Governo sabendo que eu, seu chefe, estava aqui no Porto, e aceita-a sem me consultar, sem me ouvir?

— Se é a dissolução, nós aprovamos… Diga-lhes isto… Convença esse homens…» (11)

Porém, desoladamente, Afonso Costa acaba o seu diálogo, dizendo: «Cumpra-se então o destino.» (12)

Na noite seguinte, um esquadrão de Cavalaria 9, comandado por um alferes, cercou o hotel onde Afonso Costa estava hospedado com Augusto Soares e um modesto oficial de média patente dá voz de prisão ao chefe do Governo e ao ministro dos Negócios Estrangeiros.

Afonso Costa tinha acabado de jantar quando se sentiu um tropel de cavalos.

«— Vêm-te prender — diz-lhe o cunhado José de Abreu, que o acompanhava.

— Não, não pode ser; não cometem essa infâmia — responde Afonso Costa. — A cavalaria vem certamente guardar o hotel para que algum louco não possa tentar alguma coisa contra mim.

— Vêm com certeza prender-te — retorquiu José de Abreu. — Vem comigo, vem por aqui, mete-te no elevador, desce e faz desaparecer qualquer papel que tenhas em teu poder e que não queiras lhes vá parar às mãos.» (13)

De facto, uma força de soldados acabava de cercar o hotel, fechando o troço da Rua de Santa Catarina até ao Quartel-General, passando pela Praça da Batalha e desligando propositadamente todas as luzes da zona, mergulhando o local numa escuridão completa.

Pouco depois de Afonso Costa entrar no ascensor, um oficial de Cavalaria 8, que, entretanto, tomara o comando da operação, entrava de rompante na sala de espera do hotel. Vinha de pistola engatilhada e colocava sentinelas em todo o lado, dando ordens terminantes para que fosse impedida qualquer saída para a rua.

Sempre de pistola em punho, dirige-se à mulher de Afonso Costa e pergunta:

«— Onde está o seu marido?

Não sei —, respondeu a senhora.

— Ora essa! Uma senhora sabe sempre onde está o seu marido! —, Retorquiu o oficial de cavalaria.

— Nem sempre —, ripostou a mulher de Afonso Costa.

— Nesse caso, vejo-me forçado a passar uma busca a todo o hotel.

— Fará o que entender —, foi a resposta da senhora.»

Começa então a caça ao homem, sendo todos os quartos devassados, sem o mínimo respeito pelos que lá se encontravam. Arrecadações, guarda-fatos e até malas de viagem são revistados pelos insurrectos, sem que conseguissem encontrar quem procuravam.

De repente, Afonso Costa aparece no corredor e, com ar tranquilo e sereno, pergunta:

«— Que há? Que querem de mim? Aqui estou.»

O oficial de cavalaria corre e diz:

«— V. Ex.ª está preso.

Sim, senhor — respondeu Afonso Costa —, um instante apenas para me despedir dos meus.» (14)

Faltavam 10 minutos para as 23 horas.

Momentos antes tinha sido preso Augusto Soares.

Os captores não conheciam o Dr. Soares. Mas alguém, dirigindo-se a ele, pronunciou o seu nome, que o oficial ouviu.

Este, aproximando-se rapidamente, perguntou:

«— V. Ex.ª é que é o Sr. Dr. Augusto Soares, ministro dos Estrangeiros?

— Sou eu mesmo.

— Então, considere-se preso.

— Perfeitamente», foi a única resposta de Augusto Soares.

COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 7 – por José Brandão

Depois de conduzidos a pé, entre tropa, até ao gabinete do comandante da Divisão, que se mostra surpreendido com o que se estava a passar, os dois prisioneiros são levados para o quartel de Infantaria 6, conhecido por Torre da Marca.

No dia seguinte, 9, Afonso Costa terá conhecimento, pela mulher, de que a sua residência em Lisboa havia sido assaltada e destruído tudo quanto lá estava dentro.

Acontecera dois dias antes, sendo igualmente assaltadas e saqueadas as residências particulares de Norton de Matos, de Leote do Rego e de Alexandre Braga.

Uma testemunha, citada por João Chagas, conta o que foi o assalto à casa de Norton de Matos:

«Escangalharam tudo, levaram tudo, até talheres. Umas damas da vizinhança levaram almofadas da sala de visitas. Que espécie de gente era essa? Garotos, mas especialmente soldados, os soldados do 33, que devia partir para a guerra e não partiu. A soldadesca pilhou Lisboa. Conta ele ter visto um cometa, marchando à frente de um grupo de soldados, trazendo pendurados dos botões da fardeta dois pares de botas roubadas no saque de uma sapataria.» (15)

Na casa de Afonso Costa assistia-se à mesma destruição. Tudo o que lá estava foi saqueado ou devorado pelas fogueiras ateadas pelos assaltantes. Das janelas do andar onde morava Afonso Costa, na rua Braamcamp, esquina com a Duque de Palmela (onde está hoje instalado o semanário Expresso), voavam móveis e tudo o que podia servir de pasto às chamas.

Nesse mesmo dia são também assaltadas e destruídas as instalações dos jornais democráticos O Mundo e Portugal. Escolas e cantinas criadas e subsidiadas pelos democráticos são igualmente assaltadas e destruídas, numa fúria que não tem paralelo na nossa História moderna.

No dia 10, com as ruas tomadas pela tropa, Afonso Costa e Augusto Soares são conduzidos a Leixões. Pela manhã do dia seguinte embarcariam no Viana e Afonso Costa não tardaria a ser o n.º 3307 do presídio da Trafaria.

Disse-se, por essa ocasião, no Porto, que os sidonistas haviam resolvido a viagem dos presos por mar esperançados de que qualquer submarino afundasse o barco que os conduzia.

Verdade ou não, o certo é que nessa mesma manhã, depois de o Viana partir, um submarino alemão, defronte de Leixões, metia no fundo uma traineira e alguns barcos de pescadores e que a ideia inicial dos sidonistas consistia em fazer transportar Afonso Costa e Augusto Soares precisamente numa traineira (16)

Sidónio Pais triunfara. Afonso Costa e Augusto Soares estavam presos; Norton de Matos e Leote do Rego iam já a caminho de Gibraltar, a bordo do cruzador britânico Woodnut.

Era agora preciso «tratar» do último baluarte da resistência democrática: o presidente Bernardino Machado.

Estava-se no dia 9; Machado Santos chegara à estação de Campolide, onde Sidónio Pais o fora receber em apoteose.

Nessa noite, o capitão Eurico Carneira, os tenentes Teófilo Duarte e Sá Guimarães e o alferes Santos Ferreira irão a Belém entregar ao presidente da República um documento em que lhe é proposta a renúncia.

Era já perto da meia-noite quando estes oficiais irrompem pelo Palácio e entregam um papel ao presidente, onde se pode ler:

«A Junta Revolucionária, lembrando ao Exmo. Sr. Dr. Bernardino Luís Machado Guimarães que S. Ex.ª já não se encontra, de facto, na posse das forças necessárias que lhe garantam o livre exercício dos seus poderes, forças que neste momento se encontram exclusivamente em mãos da Junta Revolucionária, como única depositária, que é, da Soberania Nacional, deixa a S. Ex.ª o julgar da oportunidade de livremente resignar o seu mandato.

Lisboa, 9 de Dezembro de 1917.

Pela Junta Revolucionária, o Presidente Sidónio Pais.»

O Chefe de Estado aprecia o atrevimento da intimidação e exclama prontamente:

«— Não abandono nunca o meu posto. Podem dizê-lo aos que os enviaram.» (17)

Ia dirigir-se ao seu gabinete de trabalho para redigir a resposta por escrito, mas logo o tenente Teófilo Duarte lhe impede a passagem.

Imediatamente Bernardino Machado se vira para o tenente Duarte e lhe diz:

«— O senhor quer impedir o caminho ao presidente da República?

— Observo a V. Ex.ª que apenas pedimos —, respondeu o oficial — para que a resposta seja já escrita nesta sala onde nos encontramos…» (18)

COMO SE MATA UM PRESIDENTE – 8 – por José Brandão

Bernardino Machado sentou-se e começou a redigir uma resposta breve, na qual, alegando a gravidade da situação internacional, se recusa a renunciar:

«Ainda quando, em presença de uma ditadura militar, eu não pudesse exercer as minhas atribuições, continuaria a ser de direito o Chefe de Estado até à expiração do meu mandato. E cumpre-me mesmo dizer que julgo perigoso que, neste momento histórico de tamanha ansiedade, em que a Nação necessita de afirmar perante o Mundo toda a sua força moral, ela deixe de ter à sua frente a autoridade legítima, que, segundo a Constituição, deve representá-la nas suas relações internas e externas. Querem abolir a Constituição da República? Vão entregar-nos, em meio da guerra, a um governo só de facto, com todas as contingências actuais do seu reconhecimento dentro e fora do País? Ninguém pensará em pedi-lo às nações nossas inimigas. E como havemos de sentar-nos, sem diminuição da nossa personalidade jurídica e comprometimento algum dos nossos mais sagrados interesses, ao lado dos aliados em todas as conferências internacionais? Como havemos de tomar o nosso lugar de honra no final no Congresso da Paz? Invoco o seu patriotismo: não assumam tão tremendas responsabilidades!

Lisboa, 9 de Dezembro de 1917 — Bernardino Machado.»

Sidónio Pais fica furioso com a resposta de Bernardino Machado. Sem mais demoras, decide imediatamente a prisão do presidente da República.

Cerca das 4 horas da madrugada do dia 10, os mesmos oficiais que, no dia anterior, tinham entregue a carta penetram na residência oficial do presidente.

Desta vez, trazem consigo 40 praças de Cavalaria 7, que cercam toda a área do Palácio, proibindo qualquer entrada ou saída.

Bernardino Machado é obrigado a levantar-se da cama, sendo-lhe participado que, em virtude da sua resposta, a Junta Revolucionária, presidida pelo major Sidónio Pais, decidira depô-lo de presidente da República, ficando, desde já, detido e incomunicável, bem como toda a família, secretários, criados e guardas.

No dia 12, o Diário do Governo publica a destituição de Bernardino Machado; assinam-na: Sidónio Pais, Machado Santos e Feliciano Costa.

Não totalmente satisfeito, Sidónio Pais quer ver Bernardino Machado bem longe da sua vista.

No dia 14 manda o capitão Cameira a Belém e comunica-lhe que o novo Governo decidira a sua expulsão do País. Tem 24 horas para preparar as malas.

No dia seguinte, de chapéu de coco e envergando um sobretudo preto, Bernardino Machado embarcava na estação de Entrecampos a caminho do exílio.

Eram 14 horas quando chega ao apeadeiro. O embarque esteve primeiro indicado para as 12 horas e 55 minutos, na estação de Belém, onde um grupo de cadetes armados e equipados chegou a tomar posição. Porém, ante o espanto dos jornalistas destacados no local, às 13 horas o comboio apita e parte sem Bernardino Machado.

Afinal, no pátio do Palácio, o presidente deposto preparava-se para tomar lugar num automóvel que o iria conduzir a Entrecampos.

Quando faltavam apenas 15 minutos para as 2 da tarde, Bernardino Machado parte no automóvel com o número 1551, onde também seguiam as suas duas filhas e os capitães Cameira e Bessa Pinto.

Noutro carro, com o número 2589, vão igualmente António Machado e Domingos Machado, filhos do presidente, o genro Juliano de Carvalho e Bourbon e Meneses, secretário particular de Bernardino Machado. Ao chegarem ao cruzamento da Cruz das Oliveiras junta-se-lhes um outro carro, com o alferes Santos Ferreira, o capitão Ramos e mais outros dois filhos do presidente.

No apeadeiro de Entrecampos um comboio especial havia sido preparado para o conduzir para fora do País. O maquinista, quando soube a que se destinava a composição, abandonara o seu lugar, declarando: «Não se dirá que eu conduzi ao exílio o presidente da República.» Foi preciso procurar quem o substituísse.

Finalmente, o comboio segue.

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