As Ausências de Deus – No Labirinto da Guerra Colonial, de António Loja – por Inês Figueiras

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Um livro é um excelente meio de comunicação de memórias dolorosas, ao proporcionar um efeito catártico aImagem1 quem o escreve e permitir que outros as conheçam, partilhem e reflictam sobre elas, para que não se repitam. É essa a grande dádiva dos livros sobre a Guerra Colonial, escritos por aqueles que fizeram parte deste capítulo negro da História Portuguesa Contemporânea.

 Contudo, nem todos os autores são capazes de transmitir os sentimentos, as emoções de quem foi obrigado a conviver lado a lado com a morte, tendo como única opção superar o medo, para se salvar e salvar os seus companheiros. E é justamente esse o grande trunfo de As Ausências de Deus – No Labirinto da Guerra Colonial, de António Loja (Âncora Editora, 2.ª edição, Abril de 2013), que revela a capacidade de nos transportar para um cenário de guerra, partilhando das suas dores e angústias.

 Três décadas depois de ter participado na Guerra Colonial na Guiné, para onde foi chamado em 1966, para prestar serviço militar obrigatório pela terceira vez, António Loja sentiu-se inesperadamente assaltado por uma série de memórias, no pós-operatório de uma cirurgia: «O ruído do motor de um frigorífico, numa sala vizinha do corredor onde, no hospital, faço a minha caminhada diária, levou-me de repente a recordar o motor da LDG que, directamente do Uíge, vindo de Lisboa, nem atracara no cais de Bissau.» (p. 11)

 É este o ponto de partida para um diário marcado por recordações emocionantes e dolorosas, sobre a luta pela sobrevivência e a relação com Deus – o autor é agnóstico – e a morte, numa obra que é também uma homenagem aos que partiram e aos que sofreram as suas mortes. Esta é a guerra contada, não em números, mas em pessoas, em histórias como a dos amigos de infância que morreram juntos e a do pai que perdeu os dois filhos, um após o outro.

 No meio de tudo isto, há ainda lugar a inusitadas deambulações relacionadas com a enfermeira do hospital, a meu ver desnecessárias, mas que acabam por servir de escape às dores da guerra e da doença, neste livro não recomendado a estômagos frágeis.

 Uma citação: «– Ai, meu capitão! Meu capitão!

De um buraco abaixo da clavícula jorrava, a cada batida do coração, um repuxo de sangue que me atingiu a cara, os óculos e me escorreu para o nariz e para a boca. Sustentei-o debaixo dos braços e pousei-o devagar sobre as folhas das árvores, no meio da picada, enquanto toda a companhia assumia posições de defesa. Nunca consegui esquecer o sabor do sangue ainda quente e o cheiro adocicado e logo nauseabundo que me invadia as narinas. Disse-lhe uma mentira piedosa:

– Vem aí o enfermeiro. Vais ficar bem! Já mandei vir o helicóptero…

Espero que ele tenha acreditado, nos breves segundos que levou a morrer. Só que na morte não há breves segundos. É um tempo sem relógio. É toda a eternidade de um fim que parece nunca chegar. Morreu a esvair-se em sangue que ninguém poderia estancar. O que recordo com horror é a minha reacção seguinte: ainda ajoelhado junto dele, inclinei-me para o lado e vomitei, de um modo incontrolável, ali a dois passos do cadáver do meu camarada.» (p. 38)

 O autor: António Loja nasceu em 1934, no Funchal, e viveu nesta cidade até ingressar na Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas e Ciências Pedagógicas em 1960.

Em 1966 foi destacado para a então colónia da Guiné, no comando de uma companhia de Infantaria, onde permaneceu dois anos.

Regressado, participou na acção política, candidatando-se numa lista de Oposição Democrática pelo círculo do Funchal, nas “eleições” de 1969. Depois do 25 de Abril, foi nomeado presidente da Comissão Administrativa da Junta Geral do Funchal, cargo de que apresentou demissão em 1975 a fim de abrir caminho a uma nomeação baseada nos resultados eleitorais. Foi deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1979 e à Assembleia Regional da Madeira entre 1980 e 1984.

Entre 1972 e 2000, até à sua aposentação, foi professor do ensino secundário, com interrupções decorrentes do exercício de cargos políticos.

Editou e dirigiu a publicação de duas revistas: Atlântico e Arquipélago. Publicou: A Luta do Poder Contra a Maçonaria (1986), Como um Rio Invisível (2004), Regressos (2006), Crónica de uma Revolução (2008).

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