Tudo ocorre como num sonho, mas de claras realidades. Os sonhos criam signos que aparecem e desaparecem como o agir de uma sintaxe – narração fugaz – que, mais além do formal, se estrutura no sentido da lógica absoluta, resultante da própria síntese visiva. Mas são formas visivas que estabelecem um diálogo não com o receptor, mas entre elas. O receptor é quase somente um espectador autoconvidado e que luta para não ficar fora do discurso que desafia a sua pessoal lógica formal. Os signos visivos oníricos são elementos que se esclarecem e se obscuram em movimentos simultâneos e no definitivo desafio ao espectador não convidado. A este resta somente a força de atenção indormida que está por detrás do sono que teima em distanciá-lo definitivamente dos signos e de suas correspondentes alógicas revelações. No final o conto é a quase desesperada experiência do espectador indormido, qual o nadador sem perícia que escapa ao afogamento.
“Sonho n° 18 ou O pote de marmelada”
O bilhete do avião deve ser apanhado amanhã ? O avião para Lisboa ou para Londres Vai para o Brasil ?você não sabe Eu já me estava esquecendo que indo para Londres ou para Lisboa (?) vou para o Rio Sim Vou para Rio Então pego o bilhete amanhã e assim terei mais dinheiro do depósito que foi feito para viajar e poderei pagar o hotel com o dinheiro do depósito Amanhã devo apanhar o bilhete e o dinheiro do depósito e partir
Tudo acontece assim e caminho sabendo que o bilhete está pronto e o dinheiro do hotel Caminho numa cidade que não conheço e viajo desde já fora dela Mas caminho pelas ruas vazias e silenciosas ainda que uma multidão passe por mim quase correndo e o trânsito parece não ter fim Estou sozinho nesta cidade de passagem e caminho pelas ruas silenciosas e repletas de carros que buzinam sem cessar
Caminho e atrás de mim vem uma menina que também caminha Subo uma ladeira desço a ladeira entro por uma avenida percorro a avenida subo uma ladeira passo para outra rua caminho A menina caminha atrás de mim As calçadas destas ruas se fazem sempre mais estreitas e a ladeira é íngreme Íngreme a calçada dá para a caída da ladeira que precipita para baixo como se quisesse desaparecer muito longe daqui lá em baixo.
A menina deixa cair um pote de marmelada que não se quebra e rola rola pela ladeira abaixo A menina passa por mim e salta com virtuosa agilidade pegando e abrindo uma porta da casa da janela aberta
Olho pela janela dentro da casa e tudo é normal naquela casa ?Como faço para descer a ladeira e procurar o bilhete do avião