CONTOS & CRÓNICAS – “Sonho n° 18 ou O pote de marmelada” – por Sílvio Castro

Tudo ocorre como num sonho, mas de claras realidades.      
Os sonhos criam signos que aparecem e desaparecem como o agir de uma sintaxe – narração fugaz – que, mais além do formal, se estrutura no sentido da lógica absoluta, resultante da própria síntese visiva. Mas são formas visivas que estabelecem um diálogo não com o receptor, mas entre elas. O receptor é quase somente um espectador autoconvidado e que luta para não ficar fora do discurso que desafia a sua pessoal lógica formal. Os signos visivos oníricos são elementos que se esclarecem e se obscuram em movimentos simultâneos e no definitivo desafio ao espectador não convidado. A este resta somente a força de atenção indormida que está por detrás do sono que teima em distanciá-lo definitivamente dos signos e de suas correspondentes alógicas revelações. No final o conto é a quase desesperada experiência do espectador indormido, qual o nadador sem perícia que escapa ao afogamento.

“Sonho n° 18  ou  O pote de marmelada”                                                

                 O bilhete do avião deve ser apanhado amanhã  ? O avião para Lisboa ou para Londres  Vai para o Brasil  ?você não sabe  Eu já me estava esquecendo que indo para Londres ou para Lisboa (?) vou para o Rio  Sim  Vou para  Rio  Então pego o bilhete amanhã e assim terei mais dinheiro do depósito que foi feito para viajar e poderei pagar o hotel com o dinheiro do depósito  Amanhã devo apanhar o bilhete e o dinheiro do depósito e partir

                Tudo acontece assim e caminho sabendo que o bilhete está pronto e o dinheiro do hotel  Caminho numa cidade que não conheço e viajo desde já fora dela  Mas caminho pelas ruas vazias e silenciosas  ainda que uma multidão passe por mim quase correndo e o trânsito parece não ter fim  Estou sozinho nesta cidade de passagem e caminho pelas ruas silenciosas e repletas de carros que buzinam sem cessar

                Caminho e atrás de mim vem uma menina que também caminha  Subo uma ladeira  desço a ladeira  entro por uma avenida  percorro a avenida  subo uma ladeira  passo para outra rua  caminho  A menina caminha atrás de mim  As calçadas destas ruas se fazem sempre mais estreitas e a ladeira é íngreme  Íngreme a calçada dá para a caída da ladeira que precipita para baixo como se quisesse desaparecer muito longe daqui  lá em baixo.

                A menina deixa cair um pote de marmelada que não se quebra e rola rola pela ladeira abaixo  A menina passa por mim e salta com virtuosa agilidade pegando e abrindo uma porta da casa da janela aberta

                Olho pela janela dentro da casa e tudo é normal naquela casa  ?Como faço para descer a ladeira e procurar o bilhete do avião

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