O PIOR DA CRISE JÁ PASSOU, VEM AÍ O CRESCIMENTO. É O QUE NOS DIZEM! por JÚLIO MARQUES MOTA

PARTE V
(CONTINUAÇÃO)

Mercadorias em trânsito e re-exportações.

As exportações totais podem ser divididas em comércio em trânsito (cerca de 15%) e bens reexportados (cerca de 37 por cento) e as exportações de mercadorias fabricadas nos Países Baixos (cerca de 48 por cento). O comércio de trânsito refere-se à passagem de mercadorias de um país para outro através do território holandês, mas permanece em mãos estrangeiras.

Reexportações refere-se às mercadorias transportadas através dos Países Baixos, que (temporariamente) são de propriedade de um residente holandês. Estas mercadorias deixam o país sem qualquer – ou muito pouco – processamento. Ao contrário do comércio em trânsito, as reexportações estão incluídas nas importações e exportações.

Podemos agora ter uma melhor perspectiva sobre o comércio holandês por países de origem das importações e por destino das suas exportações e por detrás de tudo isto já subjacente no comércio de passagem e de reexportações, está naturalmente a China como o país altamente excedentário.

piordacrise - XIX

Compreende-se bem que quando se discutiu a política de proteccionismo ou não da União Europeia, em que se decidiu por manter o proteccionismo sobre os veículos de duas rodas com origem na China, o Comissário encarregue do dossier, belga ou holandês, se tenha recusado a receber os industriais europeus antes da decisão final da Comissão de peritos que ia decidir sobre a manutenção ou não das regras que vinham já antes da criação da OMC mas que tenha recebido o ministro da Indústria da China que se deslocou expressamente a Bruxelas para discutir o assunto com as autoridades europeias! Ele tinha que defender o porto de Roterdão, pasme-se. Os negócios nacionais assim o exigem. Compreende-se que este Comissário tenha opinião oposta à que decidiu manter o imposto elevadíssimo sobre veículos de duas rodas originários da China, compreende-se igualmente bem que a votação dos peritos quanto ao imposto tenha sido por votação secreta! Em Bruxelas, afinal, tem-se medo de quem? Mas o Comissário perdeu, e assim se salvou a construção de bicicletas em Águeda e em Viana do Castelo. E tudo isto deu muita luta, porque os portos holandeses e de Antuérpia são importantes para a China e para os rendimentos que nestes países deixam, sejam mercadorias em trânsito, sejam mercadorias para serem re-exportadas.

Esclarecida esta questão do comércio externo e da dependência holandesa, adepto fanático da globalização, pudera (!), vejamos agora o que se passa quanto ao endividamento das famílias. Imaginemo-nos a ver um programa de televisão de perguntas e respostas e em que o apresentador pergunta: “quais são as famílias que neste momento são as mais endividadas do mundo? As respostas podem ser muitas: as famílias americanas, francesas, espanholas, irlandesas, e sabe-se lá, as famílias australianas. Não, as famílias mais endividadas do mundo são as holandesas. Elas já o eram mesmo na pré-crise, e continuam a sê-lo. A sua dívida colectiva ascende a mais de 2 vezes o rendimento disponível e mais de (3/2) do PIB. Esta dívida, como noutros lugares, incluindo o Canadá, a Suécia ou a Malásia, foi lançada a partir das facilidades de crédito hipotecário. A garantia formal pretendida pelo famoso crédito “hipotecário” incitou os protagonistas, credores e devedores, a desmultiplicar os créditos.

Dito isto, continua a haver aqui uma parte do mistério: como é possível que os Países Baixos não tenham tido o característico colapso como o teve a Califórnia, a Flórida, a Espanha ou a Irlanda? Os bancos locais não sofreram a falência dos seus devedores no mesmo grau que as suas contrapartes destes últimos territórios, provavelmente então, apenas porque havia menos gente pobre com excesso de endividamento. Os Países Baixos escaparam, assim, a uma crise sistémica do duplo sector imobiliário e de hipotecas.

Mas agora, aqui eles são ultrapassados pelos seus excessos. Os bancos reduzem os seus créditos para consolidar as suas contas. O mercado imobiliário, que escapou ao colapso, entra em colapso. Os felizes proprietários das casas compradas a crédito estão a ficar mais pobres e reduzem, ano após ano, o seu consumo. Um novo processo está assim desencadeado e posto em prática. Pode ser considerado como um processo de consolidação, que será longo, tendo em conta os montantes em causa, ou um processo de espiral recessiva que perdurará, se outros factores não aparecem para fazer frente e o factor negativo.

Contudo, os governos neoliberais tem a sua quota-parte de responsabilidade na gravidade da recessão que atira a taxa de desemprego para 8% população activa, ou de 12% como mais verdadeira, uma vez que muitas pessoas desempregadas na Holanda são contabilizadas como pessoas “incapazes de trabalhar”.

Os Países Baixos, tal como muitos outros países, viram as contas públicas serem atingidas com a crise dos EUA. A sua dívida pública, 44% do PIB em 2007, estava já em cerca de 60% em 2009 e em 73,9 % em 32013. Uma situação incómoda, se bem que aquém da situação da Grécia, Irlanda, Portugal, Itália, Espanha e mesmo da França ou da Inglaterra, mas cujo alastrar a pode vir a tornar numa situação semelhante. Não havia, portanto, nenhum risco desmedido, de sair fora de controlo. No entanto, foi decidido pelos governos de Haia que a austeridade era aplicável à beira do mar do Norte assim como o era à beira do Mediterrâneo ou do mar da Irlanda.

“Oh estúpido, é a ideologia”. E é assim desde que a Europa faz da austeridade o seu credo oficial e em que os governos do Norte da Europa, como os governos alemão e holandês, porque se impuseram medidas drásticas nos países do Sul, têm eles agora, também de dar algum tipo de exemplo. É assim que o governo de Merkel recusa colocar em prática os programas de modernização das suas infra-estruturas e corta nas despesas de equipamento militar, analogamente assim também que o governo neerlandês acelera o programa de reforma de pensões, suprime as bolsas a estudantes substituindo-as por empréstimos e majora já certos impostos. Nisso, claramente sabemos agora onde Passos Coelho foi aprender para estar a destruir a investigação em Portugal. A austeridade espalha-se insidiosamente, como se de uma epidemia se tratasse, afetando inclusive os países considerados como os mais competitivos e robustos.

(continua)

______

Para ler a Parte IV deste trabalho de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/02/16/o-pior-da-crise-ja-passou-vem-ai-o-crescimento-e-o-que-nos-dizem-por-julio-marques-mota-4/

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Pingback: O PIOR DA CRISE JÁ PASSOU, VEM AÍ O CRESCIMENTO. É O QUE NOS DIZEM! por JÚLIO MARQUES MOTA | A Viagem dos Argonautas

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: