Selecção, organização e tradução por Júlio Marques Mota
UM TRABALHO FEITO ESPECIALMENTE A PARTIR DO TEXTO DE MAX FISCHER, 9 QUESTIONS ABOUT UKRAINE YOU WERE TOO EMBARRASSED TO ASK, E DO TRABALHO DE LEONID PEISAKHIN, WHY ARE PEOPLE PROTESTING IN UKRAINE? PROVIDING HISTORICAL CONTEXT, AMBOS PUBLICADOS NO WASHINGTON POST.
PARTE III
(CONTINUAÇÃO)
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4. Como é que a Ucrânia tem estado tão dividida?
A Ucrânia foi conquistada e dividida durante séculos pelas suas potências vizinhas: os polacos, os austríacos e sobretudo os russos. Mas os governantes russos não querem apenas ocupar a Ucrânia, querem-na fazer russa.
A russificação da Ucrânia começou há 250 anos com Catarina, a Grande, que governou a Rússia durante a sua “Idade de ouro”, no final do século 18. No início, ela controlava apenas o leste da Ucrânia, onde desenvolveu fortemente as industrias extractivas de carvão e do ferro para alimentar a expansão da Rússia. Embora mais tarde tenha também tomado a zona Oeste também, ela e os subsequentes governantes russos concentram-se esmagadoramente a leste, o que também acontece ser a zona que tem algumas das terras mais produtivas do mundo.
O director do Instituto de pesquisa do Instituto de Harvard sobre a Ucrânia, Serhii Plokhii, disse recentemente ao National Geographic que o país está dividido entre uma estepe de terras super-férteis a Leste e florestas a oeste- uma separação ecológica que separa as duas partes quase tão perfeitamente como a linha político-linguística nos nossos mapas acima.
Muitos russos foram mortos no sudeste da Ucrânia – um grande número deles eram tropas na luta contra o Império Otomano vizinho – que se tornou conhecido como “Novorossiya”, ou “Nova Rússia”. Os líderes russos, na esperança de fazer desta região território permanentemente russo proibiram a língua ucraniana.
Depois veio Joseph Stalin. Na década de 1930, o líder soviético “colectivizou ” os camponeses com as herdades estatais o que levou a vários milhões de ucranianos a morrerem de fome. Os governos da Ucrânia e dos Estados Unidos consideraram a situação como um acto deliberado de genocídio, embora os historiadores estejam mais divididos. De toda a maneira, depois da situação de fome generalizada, Stalin repovoou as devastadas terras orientais pela deslocação de pessoas de etnia russa.
Hoje, a Ucrânia tem apenas um sexto da sua população como sendo pessoas de etnia russa. Mas a marca cultural é muito mais profunda e não somente porque muitos ucranianos falam russo como sendo a língua materna. Quando o político nacionalista ucraniano Viktor Yushchenko pró-ocidental se tornou Presidente, em 2005, “cerca de 60 por cento da programação de TV era emitida em Russo e 40 por cento” em ucraniano, de acordo com o Science Monitor. Quando ele deixou o cargo em 2010, essa proporção estava praticamente invertida.” A maioria das revistas e jornais estavam ainda publicados em Russo. Isto aconteceu depois de cinco anos de “Ukranização” de tal modo agressiva que, embora ele falasse fluentemente a língua russa, ele apenas conversava com o presidente russo Vladimir Putin através de um intérprete.
5. Isto está a ficar complicado. Podemos fazer uma pausa nesta música?
Óptima ideia. A Ucrânia tem uma rica tradição de música popular e folk, mas vamos ouvir um dos seus clássicos e muito grande mesmo, Mykola Lysenko. Um ucraniano nacionalista que na altura da sua morte, em 1912, era uma grande estrela, Lysenko adorava incorporar as melodias folk ucranianas nas suas composições. Aqui está a sua simples mas muito bela Segunda Rapsódia Ucraniana para piano, interpretada pela sua neta Rada Lysenko:
Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=AwNU_JlJxq0
A vida de Lysenko, há mais de um século, expressa muitos dos mesmos problemas que estão na base da crise de hoje. Na altura, a Ucrânia era uma parte da Rússia Imperial, que tentava fazer com que os compositores e músicos usassem apenas a língua russa. Lysenko recusou, compondo duas óperas em ucraniano e recusou-se a traduzi-las para russo, mesmo que isto significasse que nunca poderiam ser tocadas em Moscou. Porque um decreto do Czar de 1876 proibiu o uso da língua ucraniana na impressão, Lysenko tinha que ter as suas partituras impressas em segredo no exterior. Ele morreu como um herói para os ucranianos e a sua música foi acarinhado pelos contemporâneos como Pyotr Tchaikovsky, mas as gravações são terrivelmente difíceis de encontrar hoje.
(continua)
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Para ler a Parte II deste trabalho sobre a Ucrânia, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

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