Anaïs Nin nasceu um dia 21 de Fevereiro (1903) – passa hoje o 111º aniveresário do seu nascimento. Para muita gente dizer Anaïs Nin é lembrar o rosto da nossa actriz Maria de Medeiros, que interpretou a sua personagem no filme Henry and June, inspirado no seu livro, publicado na década de 1980, após a morte da autora. Relata a sua relação com Henry Miller, o escritor americano, e sua mulher June e a vida boémia parisiense.
Depois da publicação deste livro, questionou-se se seria autobiográfico, mas o que interessa é a qualidade da escrita e a forma como prende o leitor.
Anaïs Nin nasceu em 21 de Fevereiro de 1903 nos arredores de Paris. Recebeu de ambos os pais boas influências culturais: seu pai era um pianista e compositor cubano, sua mãe dançarina. Acompanhou-os nas digressões pela Europa. Acabou por ir viver para os EUA, após separação dos pais aos 11 anos. Aos 20 anos voltou à Europa, vivendo da publicações de ensaios e ficção.
Foi sempre escrevendo um diário que lhe deu material para dezenas de volumes. A sua leitura fornece informação preciosa sobre o século XX, do ponto de vista literário, da psicanálise e antropológico. Traçam também um retrato de Paris da época entre guerras e da Nova York do pós-Segunda Guerra Mundial.
O primeiro volume dos diários, The diary of Anaïs Nin, 1931-1934,só foi publicado em 1966. Neles as mulheres se podiam rever nas suas angústias da mulher ocidental na luta por seus anseios, por apresentarem a forma de auto-análise psicanalítica, com ideias então consideradas escandalosas.
Além da sua elação com Henry Miller, foi amiga de numerosos escritores, entre os quais D. H. Lawrence, André Breton, Antonin Artaud, Paul Éluard e Jean Cocteau. Anaïs Nin passou a maior parte da fase final da sua vida nos USA, tendo escrito toda sua obra em inglês.
Neste momento só consigo encontrar “Delta de Vénus”, obra com a garantia da tradução de Luiza Neto Jorge e com uma excelente biografia, no final, de autoria de Maria Ondina Braga. Através dela pude imaginar a vida de Anais, desde o seu nascimento, faz hoje 111 anos, até à sua morte há 37 anos.
Henry Miller foi primeira pessoa a ler os seus Diários e diz: “este Diário há-de contar-se entre as revelações de Santo Agostinho, de Petrónio, de Abelardo, de Rousseau e de Proust”. A relação com June e Henry levou-a a escrever: “O meu ser foi dividido em dois por Henry e por June, em profunda discórdia e em absoluta contradição, Impossível para mim tomar um rumo, desenvolver-me num sentido”. E é assim que entrou na psicanálise, primeiro como paciente e depois, pela mão de Otto Rank, como psicanalista.
No meio disto tudo, viveu num barco-casa, no Sena, numa autonomia pouco compreendida. Lawrence tinha ciúmes dela como escritora, Antonin Arnaud esteve por ela apaixonado, Miller abriu uma subscrição para subsidiar a publicação dos Diários, em que André Malraux foi o primeiro a contribuir.
Antes da II Grande Guerra ouvia a Pasionaria, deu-se com Pablo Neruda, arranjou alojamento para refugiados da Guerra Civil de Espanha, sem se comprometer politicamente. A II Grande Guerra levou-a, de novo para Nova York, onde continuou a ajudar os jovens pretendentes a artistas e fundou uma tipografia. Viajou por vários países, acabando por morrer em Los Angeles.
Escreve Maria Ondina Braga, no final da biografia: “a feminilidade consciente, total, espantosamente livre de Anaïs Nin bem poderia ser tema de reflexão para as representantes do seu sexo: “Á medida que me descubro a mim própria(…)vou compreendendo a mulher de ontem e a de hoje. A mulher do passado, privada da palavra, que se refugiava nas instituições mudas. E a dos nossos dias, inteiramente dedicada à acção, que imita os homens”.
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