GOLPE DE ESTADO DA UNIÃO EUROPEIA EM KIEV, por ANDRÉ BOYER

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Golpe de Estado da União Europeia em Kiev

André Boyer

A quinta eleição presidencial ucraniana de 2010 teve lugar em Janeiro de 2010, de acordo com um eleição em duas voltas, uninominal maioritária. Esta eleição permite, como em França, eleger o Presidente da República para um mandato de cinco anos.

Yanukovich

O chefe de Estado, Viktor Yushchenko, o líder da “Revolução Laranja”, tinha anunciado a sua intenção de disputar  um segundo mandato. O antigo primeiro-ministro, Viktor Yanukovych, que perdeu a segunda volta na eleição presidencial de 2004, tinha também a intenção de se  candidatar, tal como o antigo aliado do Presidente cessante Yushchenko e a primeira-ministra Yulia Tymoshenko.

No total, dezoito candidatos ambicionaram o palácio Maryinsky. À primeira volta, o presidente cessante foi maioritariamente punido dado que chegou apenas em quinto com 5,45% dos votos.

O seu partido, o partido Cor-de-laranja que em Fevereiro de 2014  ganhou  provisoriamente o seu braço de ferro com o Presidente Viktor Ianoukovytch, era considerado o responsável pela corrupção e pelos pesados défices da economia ucraniana.

A primeira volta, que reuniu 66,76% dos eleitores, colocou Viktor Ianoukovytch à frente com 35,32% das vozes, seguido de Ioula Timochenko, com 25,05% dos votos. Estes dois candidatos enfrentaram-se na segunda volta que foi ganha por Viktor Ianoukovytch com 3,5% de votos a mais que o seu concorrente Ioula Timochenko, uma diferença ligeiramente superior à que separou Hollande de Sarkozy em 2012. A taxa de participação revelou-se ligeiramente mais elevada na primeira que na segunda volta, 69,15%.

No entanto Ioula Timochenko contestou a eleição do seu concorrente. Apesar do julgamento dos observadores da Organização para a segurança e a cooperação na Europa (OSCE) que tinham considerado o voto “transparente e honesta”, esta denuncia “fraudes massivas” a Leste do país, reclama a anulação da eleição e recusou demitir-se do seu posto de Primeiro ministro. Finalmente, com o voto de uma moção de censura viu-se obrigada a isso. .

É a esta harpia (ver o meu blog “Santa Ioulia Timochenko, mártir”) que os aprendizes de feiticeiros europeus vêm entregar as chaves do poder na Ucrânia….

Diante dos membros do Parlamento ucraniano, Viktor Ianoukovytch denunciou, como hoje o novo poder, as dívidas colossais, a corrupção, a pobreza e uma economia que se desmoronava.

Ele desejava relações fortes ao mesmo tempo com a União europeia e com a Rússia, com a qual assinou um tratado que permite a frota russa estacionar em Sébastopol por 25 anos, em troca de qual obteve a diminuição de 30% do preço do gás russo entregue à Ucrânia.

A oposição, favorável aos Estados Unidos e financiada por estes últimos, protestou violentamente contra este acordo, enquanto Viktor Ianoukovytch fazia reforçar as suas prerrogativas presidenciais pelo Tribunal constitucional. É então que aumentaram também as pressões ocidentais contra o seu poder. Em 2012, a ONG americana Freedom House eliminava a Ucrânia da lista dos países livres. Acusado de corrupção, o antigo ministro da Economia do governo Tymochenko, Bogdan Danilichine, obteve o asilo político na República Checa enquanto que na Ucrânia, Ioulia Tymochenko era-lhe fixada residência, antes de ser condenada a sete anos de prisão firme por corrupção.

A União Europeia fingiu não ver nesta condenação senão um motivo político enquanto que ninguém podia ignorar os seus enormes desvios de fundos. A UE condicionou doravante a assinatura de um acordo de comércio livre com a Ucrânia à libertação de Ioula Timochenko, exercendo directamente uma pressão política sobre o governo ucraniano e incentivando abertamente a sua oposição.

No final de 2013, o governo ucraniano decidiu resistir à pressão recusando o acordo com a União europeia. Esta recusa provocou imediatamente a programação de importantes manifestações pro-Europa em Kiev, à ocupação da praça da Independência e da Câmara Municipal, tendo como palavra de ordem a demissão do presidente Ianoukovytch.

A legitimidade de Viktor Ianoukovytch foi irremediavelmente posta em causa quando as milícias paramilitares quebraram a trégua para retomarem a posse da praça da Independência, provocando a morte de 67 manifestantes e 13 polícias. A multidão, ajudada “pelos negociadores” europeus, obteve ganho de causa com a partida do Presidente para o leste do país e a sua “destituição” pelo Parlamento ucraniano.

A sequência desta situação vai assumir a forma de uma partida de xadrez entre os aprendizes de feiticeiro europeus e o mestre russo…

 Mas esta questão ucraniana é já uma estreia: é com efeito a primeira vez que a União Europeia organiza abertamente um golpe de Estado num país vizinho contra um chefe de Estado regularmente eleito. Nós, cidadãos europeus, mesmo encharcados de imagens que procuram justificar esta acção violenta, devemos tomar consciência da verdadeira natureza do poder que nos dirige-

André Boyer, Coup d’État de l’UE à Kiev,   Texto disponível em http://andreboyer.over-blog.com/

 

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