COMO SE MATA UM PRESIDENTE -22- por José Brandão

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Entretanto, a situação no Porto tornava-se cada vez mais confusa. Sidónio decide ir ele próprio à capital do Norte e tentar resolver pessoalmente os problemas levantados pelas Juntas Militares.

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Bastou que assim pensasse e imediatamente se ergueu um monumental coro de vozes sugerindo que o presidente não deveria sair de Lisboa. Argumentavam-se intenções de o proteger de prováveis atentados e Sollari Allegro envia-lhe um telegrama aconselhando-o a «não cair na asneira de se deslocar ao Porto».

No intuito de impedir a deslocação, as autoridades nortenhas chegam a informar Belém de que não era possível organizar a tempo os preparativos para a recepção presidencial. Sollari Allegro vai mesmo mais longe e chega a afirmar que se o presidente escapasse em Lisboa, no Entroncamento ou na Mealhada, não escaparia no Porto (4)

Em Lisboa, o governador civil, Sousa Fernandes, tenta, igualmente, demover Sidónio Pais de ir ao Norte. O mesmo acontece com o responsável pela pasta da Guerra, que lhe indica ter notícias de se estar a preparar urna manifestação de famílias de presos políticos, para a estação do Rossio, onde o presidente deverá embarcar.

Sidónio não quer saber do que lhe dizem acerca dos atentados e responderá:

— E que tem isso? Ou eles ou eu!

O governador civil, desiludido, responde, ao despedir-se de Sidónio Pais:

— Julgo da minha obrigação dar este conselho a V. Ex.ª O meu presidente fará o que entender. Lá estarei à noite no Rossio, para cumprir o meu dever, e oxalá V. Ex.ª não tenha de se arrepender. (5)

Já perto da noite, o capitão Carneira insistirá, também, junto de Sidónio, no sentido de o dissuadir, mas a disposição do presidente parece inabalável.

— Não desisto — vou! Não te preocupes comigo. As balas disparadas contra mim, bem sabes que se encravam.

Em Belém, o presidente acaba de jantar. Nas ruas desertas acendem-se os bicos de gás da iluminação pública e a noite começa a aparecer densa, neste sábado de 14 de Dezembro de 1918.

A esta mesma hora, um desconhecido janta numa das mesas do Restaurante Silva, em pleno Chiado. Perto dele, sentado numa mesa próxima, está o governador civil, Sousa Fernandes. Fala-se da viagem do presidente ao Norte. O desconhecido acaba de jantar, paga a conta e sai sem uma palavra. Dirige-se à Estação do Rossio, a dois passos dali.

No Rossio, via-se já a Guarda Republicana, com fardas de gala, preparada para formar sob o alpendre, onde prestará a guarda de honra devida ao presidente da República. Vão chegando polícias, mais polícias do que habitualmente. No Teatro Nacional, frente à Estação, representa-se a peça de Afonso Gaio Abel e Caim. Nela, Adelina Abranches faz o papel de bruxa.

Para ver o cerimonial da partida do presidente, junta-se uma multidão, na sua maioria constituída por gente que acabava de sair das casas de espectáculos.

No Politeama, Maria Bastos interpretava A Vizinha do Lado; no Avenida, Palmira Bastos fazia de Leonor Teles no drama histórico de Marcelino Mesquita; no Éden, Ausenda de Oliveira foi a estrela da fantasia Sangue Artista; Naná era o filme que o Olímpia projectava nessa noite.

Nos cafés Suíço e Martinho, as mesas enchem-se de clientes e adensa-se o fumo dos cigarros. Faltam dez minutos para a meia-noite. Os acordes do Hino Nacional, tocado pela banda da Guarda de Honra, começam a ser ouvidos, dando conta da chegada do automóvel presidencial. De Belém ao Rossio demorara apenas quinze minutos.

O aparato policial impressiona o próprio presidente: — Que exagero! Nem que eu fosse o czar da Rússia…., dirá Sidónio, ao apear-se do carro que o deixa junto à estação.

Como sempre, vem impecavelmente vestido. Sob o majestoso capote de mescla cinzenta, cravejado de estrelas presidenciais, um elegantíssimo colete de lã preta forrado a cetinela branca — confeccionado na loja Eduardo & Santos, na Rua 1.º de Dezembro, 148 — protegia a fina camisa de paninho branco, com punhos engomados e peitilho de zefir da mesma cor — padrão exclusivo da firma Pitta & C. ª, da Rua Augusta, n.º 197. Um dólman e uma camisola aberta de «crepon» branco, sem gola, para maior destaque dos vistosos colarinhos de linho branco engomado, igualmente da marca Pitta, davam a nota final a um porte de soberba elegância que afamara Sidónio Pais. Nesta noite, o presidente vestia ceroulas de «crepon» branco com a etiqueta Crépe de Santé-Rumpf e compunha a parte interior do seu trajar com suspensórios de tecido de algodão de cor castanho-claro por fora e branca por dentro.

A multidão ovaciona-o. O presidente prepara-se para entrar no grande átrio da estação, atravessando duas compactas filas de polícias, que o protegem de toda aquela gente que acorrera ali para o ver e saudar.

De repente, abate-se sobre a mole humana um autêntico vendaval de pânico. De todas as portas da estação sai gente a correr, enlouquecida, procurando esconder-se nas escadas dos prédios próximos.

Há tiros e gritos por todo o lado. No meio da tormenta, o automóvel da Presidência da República parte a grande velocidade para o Hospital de S. José. Dentro de minutos, toda a gente fica a saber o que aconteceu. De bairro em bairro, a notícia chega da mesma forma:

— «Mataram o Sidónio! Mataram o Sidónio!»

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