CONTOS & CRÓNICAS – “A Primeira Manhã” – por António Sales

contos2

 

para a Maria Júlia

Branca tem uma viragem nervosa no leito, sente um corpo a seu lado e acorda do sono agitado. No subconsciente ainda convivem as imagens da cómoda velha e da pequena janela rectangular sobre o topo da cama que iluminava as manhãs no quarto de solteira. Uma ténue sensação de vazio entre o ontem e o hoje estabelece o ponto da realidade.

Joelhos dobrados, cabeça enrolada sobre o peito como se estivesse no útero materno, o marido entrega-se ao sono da juventude. Qualquer coisa de simples e de puro retrata-se no rosto adormecido. Uma onda de ternura forma-se no peito de Branca e espraia-se na suavidade de um beijo.

É cedo! Oito horas na torre! O verde azeitona dos olhos vai repousando sobre os móveis, o espelho, os objectos, as roupas que começam a desenhar-se na penumbra do quarto. É seu aquele mundo! O espírito considera a insegurança do juízo até que a vista morre no rosa velho do tecto.

É pequeno aquele mundo, mas seu: o quarto, a casa, os cadeirões da sala, o sofá-cama, o fogão de dois bicos, o frigorífico, o quintal. Reconstitui o pequeno universo das refeições, as camisas a passar a ferro, os risos sadios, os beijos sôfregos. Um mês de matrimónio entrega-lhe em cada dia uma jornada de felicidade.

Vindo da rua o ruído de uma motorizada estilhaça as ideias misturando casas, montras, rostos, grupos, hábitos, o labirinto envolvente de uma cidade da província. Como que tomada por uma instabilidade doentia Branca reage com nervosismo a esse novo ambiente exterior. Ainda balança entre este mundo de completa viragem e o do seu passado modesto na pequena vilória natal. Recordação aconchegante dos serões de Inverno com lençóis a bordar, carinhos de pais e conversas sobre namoros; os bailes na associação, os concertos da banda aos domingos de tarde, passeios cantados nas noites de estio, plenitude de liberdade nos campos floridos. Tudo tão diferente desta nova sugestão de gentes e hábitos criando angústias e inibições.

Por instantes sufoca-a a ânsia de voltar atrás. Um temor frio espraia-se no cérebro roubando-lhe a tranquilidade. Porquê esta inquietação sobre o futuro? Esta presença obsessiva do passado: amigas, casa, terra, ruas, recantos, memórias? Porquê, meu deus, porquê se agora existem beijos e carícias, juventude e esperanças comuns, palavras meigas e límpidas, gestos de ternura, olhos brilhantes de desejo, actos de luxúria, afectos puros depois de cada entrega. Dá uma volta súbita de modo a exorcizar a opressão do pensamento. Suspende-se. A cama já não é exclusivamente sua. O marido agita-se mas continua apagado dentro do sono. Na solidão tépida da manhã Branca recupera pinceladas na tela da memória.

«Mãe, vou ao café com a Belinha ver a televisão!». O rosto do cantor americano enche o pequeno ecrã e a sua voz quente toma-lhe o coração. Sonhava ser artista de cinema. Comprava a “Plateia” e concorria. Como era doce e sugestiva a história da Pier Angeli!… Enquanto a mãe ia à praça ela tratava de arrumar a pequena casa cantando as melodias mais populares que passavam na rádio. Às nove horas estava na escola que não levava muito a sério pelo que no segundo ano do liceu chumbou. «Chega! A mulher precisa mais de ser boa dona de casa e boa esposa do que doutora» – filosofou o pai. Aprendeu então a cozinhar, a tratar da casa, a passar a roupa a ferro e começou a fazer o enxoval. Aos dezoito anos Gil apareceu. Rapaz de fora, bem parecido, a estudar com o fim de seguir uma carreira. Começaram por se encontrar nos bailes ou na casa de amigas até que oficializaram o namoro com o conhecimento dos pais. Que céu diferente existia nessa altura por cima das sua cabeças?

Ele vinha dois domingos em cada mês. No tempo quente passeavam no jardim ou iam para a mata com outra gente moça e mães vigilantes. Falavam daquilo que existira entre duas visitas, de passeios, de festas, do amor que acontecia entre a simplicidade do seu dia-a-dia. As suas conversas continham palavra de toda a gente e como em toda a gente formavam ideias, sonhos, desejos, pensamentos que traziam mensagens.

O receio de um engano inicial dissipou-se. A vigilância materna abrandava com a passagem dos meses. As pessoas da terra acreditavam num casamento futuro e o plátano da mata testemunhou o primeiro beijo, o rubor intenso que queimou as faces de Branca e a descoberta duma felicidade traduzida em lágrimas pequenas e silenciosas. Julgou-se mulher como o rapaz se julga homem ao fumar o primeiro cigarro. Quis saber coisas novas sobre o amor abstracção de conversas de raparigas. Timidamente procurou em sua mãe a resposta a muitas interrogações mas quem lhe abriu de mansinho as portas do mundo, quem a levou pela mão ao encontro com a vida foi Gil. Antes da entrega sexual na noite de núpcias Branca já se lhe dera mil vezes sem que ele soubesse.

Um pregão subido da rua rouba-lhe a volúpia dos pensamentos e oferece-lhe o hoje-tempo-realidade que vai assumir num abraço total onde voa a sua respiração de segurança encontrada em cada rua da sua terra. É o leito materno a falar: «Bom dia dona Eulália! Seu marido e as crianças como vão?» O hábito instalava a confiança que lhe preenchia os dias e o sorriso com que acordava cada manhã. Conversas de sua mãe (Minha filha, o casamento é um acto de entrega e de humildade), o pai calado porque era conversa de mulheres, conselhos de paciência e submissão.

Branca aterroriza-se com a descoberta de falsos mitos. Nunca lhe falaram de sexo, da cidade, dos alçapões escondidos do outro lado do matrimónio. Abriram-lhe o livro do lar, da família, filhos, amor, construindo um universo falso e solitário povoado de símbolos imutáveis e ingénuos. E numa noite sente um pavor viscoso implantado entre as coxas, uma reacção patética e doentia. O verde azeitona dos olhos de Branca embacia-se. Pela persiana mal corrida surge a manhã anunciando-lhe a praça… o dia… Roupa no estendal das traseiras com a vizinhança a observar, roupa delatora duma intimidade ferozmente sua. Olhos pregados nas janelas num sádico desejo de lhe esventrarem os passos. Cumprimentos frios, polidos, inúteis na inquietante expectativa de cada novo conhecimento.

Quem lhe falou da cidade? Quem lhe contou da cidade? E cada dia é um encontro doloroso com a mentira de ontem. Cores que não entende, vozes e fisionomias que não ama, grupos que a miram e comentam. Surpresa nos gestos e nas palavras estampada em cada pessoa, a prepotência do meio resistindo em cada núcleo, a sufocação de um desejo desvairado de liberdade em cada esquina. Sente-se enredada numa estranha malha de complexos que não consegue romper.

Roubaram-lhe a plenitude dos cabelos ao vento, o prazer de pisar a relva dos jardins e de beber, na palma da mão, a água das fontes. Sente-se traída e, no entanto, amada porque o marido redescobre-lhe a existência e esforça-se por beijar as angústias do seu coração. Mas Gil não tem medo da cidade, ele nasceu e cresceu na cidade.

A vergonha dos sentimentos escondidos atormenta o cérebro de Branca. Ah!, se pudesse… se pudesse… dominar aquela sua vontade raivosa de fugir. Odeia a praça, as pessoas, as casas, as ruas, os pés, os olhos, as bocas, o sol, as estrelas, as madrugadas! Odeia a cidade! Odeia-se a si própria!

Numa atitude irreprimível salta da cama, abre a janela e corre a persiana. Uma rajada de luz crua espelha-se no seu corpo. A manhã orvalhada ergue-se da calçada e envolve-lhe o coração. O verde azeitona dos olhos esconde-se sob as pálpebras semi-cerradas e duas lágrimas apagam-se no canto dos lábios. Os tons castanhos da terra lavrada, quase indistintos para além dos telhados, são uma pausa. Uma prenhez de serenidade liberta-se. O rumor das ruas, a cor berrante dos prédios, a grita das crianças brincando nos quintais e o perfume das flores nos jardins rebentam em avalanche dentro de Branca. As mãos e os olhos abrem-se para o horizonte de pedras coloridas num encontro com a esperança e com a liberdade.

Duma janela em frente um rádio larga melodias e em baixo, numa parede, um miúdo traça a giz uma figura obscena. Passam carros, gente e vozes. Operários no caminho das fábricas e costureiras a namorarem antes do trabalho. Em cada pessoa um mundo. Branca compreende que a cidade será a sua luta e a conquista a sua emancipação. Ela saberá falar de coisas verdadeiras e humanas, mesquinhas e humanas, dolorosas e humanas. E não se negará à batalha que se oferece em cada hora e em cada dia porque cada manhã será um coro a chegar nas asas do sol para lhe beijar os cabelos, a boca, os seios, o sexo.

Na torre soa a meia hora das oito.

Branca faz meia volta, atira-se sobre o leito e com um beijo acorda o marido.

 Torres Vedras, Novembro 1963

 

Leave a Reply