DESVALORIZAR O EURO NÃO O SALVARÁ, por YANN

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Desvalorizar o euro, não o salvará

 

Yann

Dévaluer l’euro ne le sauvera pas,*

 Parte I

Arnaud de Montebourg

O nosso ministro  responsável pelo desmantelamento do aparelho  produtivo de França[1], Arnaud Montebourg, fez-se notar ainda há pouco tempo pelo descaramento com que falava do euro. Impertinências que além disso levantam amplamente a questão do posicionamento político de Arnaud Montebourg. Porque o homem não pode ignorar, de modo algum, o papel que desempenhou o partido socialista na construção europeia. Um partido socialista que o nosso ministro não tem visivelmente a intenção de alguma vez o deixar. E isto, apesar das multiplicações de propósitos em contradição com a linha directora sempre cada vez mais liberal do seu grupo político de tutela. Mas esta contradição entre a sua pertença a um partido ultraliberal e europeísta não o impede no entanto de tomar posições acerca da sobreavaliação do euro. Montebourg declarou ainda muito recentemente que o aumento do valor do euro “destrói os esforços de competitividade “da França. Ouvir assim falar um homem de esquerda pode parecer surpreendente. Mas para mim não me tira a ideia de que Montebourg faz realmente prova de muito pouca convicção e que o diz para desempenhar um papel bem calculado no seio do partido socialista. Porque se a afirmação em si-mesma não é falsa, convém de todo reenquadrar tas coisas de modo a mostrar que a análise de Montebourg não vai muito longe para ser em si honesta. E a acumulação de contradições é suficiente, do nosso ponto de vista, para descredibilizar o homem para o resto dos seus dias. Num certo sentido Montebourg é ligeiramente o Mélenchon do PS. Critica-se o euro e o liberalismo, mas não se vai até ao fim para evitar comprometer a sua própria carreira.

Balança de Pagamentos e variação monetária

Antes de explicar porque é que a simples desvalorização do euro não poderia resolver os nossos problemas é necessário primeiro explicar resumidamente a relação entre a moeda e a balança de pagamentos. Teoricamente o valor da moeda de uma nação está intimamente ligado às suas trocas externas. Na hipótese extravagante de um país totalmente auto-suficiente e vivendo em economia fechada, não haverá de resto nenhuma taxa de câmbio dado que ninguém teria necessidade de trocar a moeda local com a moeda de um outro país. A noção de taxas de câmbio é por conseguinte o resultado da relação económica que mantém um país com outros. Em sempre teoria mais uma moeda nacional é procurada num outro lugar qualquer sem um crescimento da sua produção monetária e mais esta moeda vai ver o seu valor aumentar. Inversamente, uma moeda pouco procurada num outro lugar qualquer verá o seu valor diminuir se a sua massa em circulação permanecer constante. O valor da moeda nacional dependerá por conseguinte essencialmente da evolução da balança dos pagamentos do país, e esta inclui ao mesmo tempo a balança comercial (bens e serviços) e a balança dos fluxos monetários diversos e variados. Teoricamente se esta balança for deficitária a moeda desvaloriza-se, e contrariamente o valor da moeda nacional aumenta-se a balança for excedentária.

Arnaud de Montebourg - II

Segue-se uma observação sobre o sistema monetário mundial actual. Desde 1971 e a revogação prática do tratado de Bretton Woods por Richard Nixon, a moeda de reserva internacional que é o dólar já não está baseada numa contrapartida em ouro. Desde esta época e a vaga ideológica neoliberal que lhe sucedeu, vivemos num mundo desregulado seja no plano comercial seja no plano financeiro. O único modo de regulação do comércio aceite é a variação da taxa de câmbio. Um dos grandes problemas da economia mundial actual resulta de resto desta problemática, porque é bem difícil controlar o comércio externo de um país quando se possui, e como único instrumento, apenas a desvalorização. De facto, os capitais e os fluxos financeiros podem também passar as fronteiras sem problema. Como vimos o valor da moeda depende obviamente da balança comercial, mas também da balança dos capitais.

De modo que um país pode muito bem ter grandes défices comerciais e estar ao mesmo tempo com a sua moeda a apreciar-se. Certos países como a Argentina sabem-no bem. Mais perto do nós, a Suíça, vê-se regularmente obrigada intervir sobre a sua moeda para evitar que o franco suíço se aprecie em demasia o que correria o risco de destruir a indústria local. De facto, os liberais pela sua obsessão em não aplicarem nenhuma regulação estatal, seja de que espécie for, criaram uma contradição fundamental na economia mundial. Porque a regulação comercial pela moeda é impossível num mundo onde os capitais atravessam também as fronteiras, mais facilmente ainda que as mercadorias..

 Contudo, mesmo imaginando um sistema perfeito no qual as moedas nacionais variariam apenas em função das balanças comerciais não é certo que um equilíbrio possa ser encontrado sem a intervenção dos Estados. Porque existe também outros constrangimentos que não só o meramente comercial. Um país pode ter o desejo de querer manter um nível de desemprego baixo contrariamente aos dirigentes europeus actuais e neste caso será necessário fazer injecções monetárias para relançar regularmente a procura interna à imagem que fazem regularmente os EUA. Ainda que no caso deste país a injecção monetária consiste sobretudo em apoiar os detentores de capitais mais do que a financiar projectos produtivos e de interesse geral. Contudo, estas intervenções podem falsear também a evolução das taxas de câmbio. De modo que ainda aqui, mesmo bloqueando os capitais somente pela evolução da taxa de câmbio pode não garantir um equilíbrio das balanças comerciais. Em todos os casos, é necessário utilizar outros mecanismos para estabilizar o sistema.

(continua)

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[1] O autor faz aqui ironia com o nome do Ministério de que Montebourg é responsável.: Redressement productif.

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texto disponível  no site:

http://lebondosage.over-blog.fr/

http://lebondosage.over-blog.fr/article-devaluer-l-euro-ne-sauvera-pas-l-euro-122689591.html

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