Tradução de Júlio Marques Mota. Introdução de François Asselineau.
Ucrânia: O substrato identitário da crise actual
Romaric Thomas
Parte II
(continuação)
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- A CRIAÇÃO DE UM MITO NACIONAL (XIXE S.)
As guerras efectuadas contra a opressão do Estado polaco-lituano na segunda metade do século XVII século tinham suscitado uma primeira tomada de consciência de uma identidade própria, essencialmente campesina e ortodoxa. O Hetmanat cossaco constituía quanto a ele um precedente que torna credível a criação de um Estado independente, politicamente viável. Por último, a dominação russa – consecutiva às três divisões sobre a Polónia (1772, 1793 e 1795) nas quais a Rússia recuperou a Ucrânia com excepção do Galicia, que passou a estar sob a dominação austríaca – punha em relevo, por efeito de contraste, uma língua e uma cultura doravante correctamente ucraniana.
Restava por construir um mito nacional, ou seja dar uma leitura da história conforme com um projecto político de independência da Ucrânia e para recompor a identidade das populações ucranianas com o propósito da sua unificação. Como por toda a parte, noutros lugares na Europa e na mesma época, tratava-se de refazer a identidade de um povo no cadinho do conceito de Nação herdado da Revolução francesa, para a transformar numa identidade nacional.
Um dos principais fundadores ideológicos do nacionalismo ucraniano foi o historiador Mykhaïlo Drahomanov (1841-1895). Aluno de Proudhon, combinava o nacionalismo ao pensamento socialista e contribuiu fortemente para a criação de um mito nacional. Devido ao seu anticlericalismo e à fragmentação confessional da Ucrânia desde o século XVIIº, este expurgou da sua representação da identidade ucraniana qualquer referência séria à fé cristã, preferindo evocar as crenças pagãs dos antigos povos de Ucrânia e seguinte nisto a maior parte dos nacionalismos europeus da época. A língua ucraniana foi celebrada como um elemento essencial da identidade nacional, a ponto do poder imperial russo a proibiu em 1876.
Mykhaïlo Drahomanov (1841-1895)
Foi contudo no kozatchtchina que Drahomanov, ele mesmo oriundo de pequena nobreza de origem cossaca vive a alma da resistência e a independência da Ucrânia. Os grandes feitos destes defensores da pátria, o aspecto romântico da Sitch dos Zaporogues, as suas origens populares e a sua insaciável necessidade de liberdade podiam apenas favorecer a sua identificação ao ideal ucraniano promovido pela historiografia da época.
Ainda hoje, é este período cossaco, julgado heróico apesar dos pogrons dirigidos contra os uniatas e os judeus, que constitui o mito fundador da Ucrânia e que muitos Ucranianos consideram como a única representação autenticamente nacional do seu país.
O termo “sitch” designava um campo fortificado cossaco. O Sitch zaporogue protegia o centro político dos Cossacos zaporogues e o quartel-general do seu exército; foi estabelecido em cerca de meados do século XVI sobre uma ilha (Pequen Khortytza) no meio do Dniepr inferior e deslocada sete vezes para permitir a sua ampliação. Tornado um posto de defesa avançado, na luta contra os Tátaros da Crimeia e contra os Otomanos, a fortaleza do Sitch foi suprimida em 1775 por Catarina II da Rússia. Sinal da importância do Sitch zaporogue no imaginário nacional, um círculo de estudantes ucranianos na Universidade de Viena dar-se-á o nome “Sitch” a partir dos anos 1870.
(continua)
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Para ler a primeira parte deste trabalho de Romaric Thomas, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
UCRÂNIA – O SUBSTRATO IDENTITÁRIO DA CRISE ACTUAL – por ROMARIC THOMAS



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