Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Desvalorizar o euro, não o salvará
Yann
Dévaluer l’euro ne le sauvera pas,*
PARTE III
(CONCLUSÃO)
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A Alemanha não tem por exemplo excedentes com a China apesar do o euro em termos da Alemanha estar subavaliado. Há por conseguinte pouca possibilidade que a desvalorização do euro seja suficiente à França para reequilibrar a sua balança com a China. É necessário dizê-lo, com este país somente a medida como as quota e os direitos alfândega funcionarão. De resto, os chineses não hesitarão em desvalorizar se considerarem que a taxa de câmbio do euro lhes está a ser demasiado desfavorável. Já o têm feito e recomeçarão. Eles só entenderão as medidas coercivas mais brutais. É necessário forçá-los a concentrarem-se sobre a sua procura interna, mas seguramente não o farão sozinhos.. Não é no interesse da sua classe dominante como da nossa, aliás, mas é do interesse dos seus assalariados e dos nossos, igualmente.
Balança de pagamentos da zona euro largamente positiva
Agora a desvalorização permite à França e aos países latinos melhorar a sua situação com outras zonas. A América, a Oceânia e a África nomeadamente. Regiões com as quais temos geralmente já excedentes ou equilíbrios comerciais. Por conseguinte, de forma clara, com a desvalorização do euro iremos punir os países que são comercialmente mais leais para connosco. Aí está em que consiste a desvalorização do euro para salvar os países latinos.
É exatamente o raciocínio de Connaly uma exportação imperial dos problemas que não chegamos a enfrentar porque somos demasiado cínicos ou cobardes para assumir que o euro foi uma ideia idiota. Os EUA não chegam a romper com a livre-troca. Continuam a injectar moeda no seu sistema exportando a sua inflação monetária. Nós europeus, exportamos a nossa deflação rezando para que esta seja suficiente para salvar o santo euro. O mundo está realmente nas mãos de gente louca. Se Montebourg procura realmente salvar a indústria do país, do que duvido, não será preconizando uma outra Europa que aí chegaremos[1]. E certamente não será através de uma desvalorização do euro que nada mais fará do que externalizar os nossos problemas levando os outros países para a tormenta. A UE e a zona euro morreram, as nossas elites levam demasiado tempo a darem-se conta desta realidade e com isso levam a que o continente acumule desequilíbrios sobre desequilíbrios até que o ponto de ruptura seja atingido. Não arrastemos outras zonas do mundo nos nossos delírios com a desvalorizando do euro.
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[1] Esta frase e a seguinte podem gerar confusão. Quer o autor dizer não à Europa ? Não o creio, creio que quer dizer não, de facto, mas é à Europa neoliberal, no quadro da qual nenhuma reforma séria é possível. Com efeito num outro texto que considero notável, François Hollande, le nécessaire pyromane afirma: Neste sentido, os europeístas têm razão de zombar daqueles que querem sair do euro para simplesmente desvalorizar. Porque à imagem de que se passou nos anos 90 a guerra das moedas não é necessariamente melhor que a agonia no euro. Justamente poderíamos pôr um fim nas pretensões dominadoras da Alemanha sobre o continente. Mas não é este o desafio e o nosso objectivo como nação, pois não nos devemos reduzir à simples vingança nacionalista. Se devemos libertar-nos do constrangimento monetário europeu, é sobretudo para poder efectuar políticas de relançamento da economia e de controlo sobre a procura. Mas para isso não é necessário simplesmente romper com o euro e a UE, é necessário romper com a tranquilidade de espírito do neoliberalismo. É necessário romper com a ideologia de tudo ao mercado e à auto-regulação económica. Romper com a crença que a soma dos interesses individuais gera o interesse colectivo. É uma ruptura coperniciana que é necessário realizar e isto vai bem mais longe do que a simples ruptura com um instrumento monetário absurdo.
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Para ler a parte II deste trabalho de Yann, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

