CONTOS & CRÓNICAS – “O Marco Fontanário “- por António Sales

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à memória de Manuel Candeias

«Eles aí vêm!» – botou alarme uma voz obrigando as cabeças a voltarem-se para a estrada de macadame que serpenteia pelos contrafortes da serra.

         Os carros levantam nuvens de poeira: são compridos e pretos, todos pretos, com os cromados a brilhar à canícula da tarde; são nobres, solenes, funerários; são carros de respeito.

         A gente da aldeia, fustigada pela soalheira dispersa-se pelas sombras das oliveiras, sacode o torpor sonâmbulo num frémito de pés a saltarem socalcos napressa de se acantonar ao longo da única rua.

         Sérgio Castro roda a vista num ângulo de cento e oitenta graus e certifica-se: padre Torres entretém as senhoras: Júlio Barroso, presidente da Junta de Freguesia, colocou-se em frente da banda que “restaurou” os instrumentos com solarine; as crianças da escola agrupadas numa enternecedora mancha de batas brancas; Zé Viçoso e o Torinhas acorrendo à distribuição do povo pelas bermas.

         Chico Manduca larga  os primeiros foguetes que levam o rapazio na procura dos caniços caindo a pique do céu. Um badanal altera a ordem das coisas e alarma os claqueiros encarregados de orientar as aclamações que são a glória dos gabinetes oficiais. Com as gaforinas desalinhadas sobre as faces espelhadas pelo suor, esfalfam-se na roda viva do puxa-puxa-os-cordelinhos-da-recepção necessariamente vibrante e entusiástica.

         «Viva o Presidente da Câmara! Viva a Junta de Freguesia! Viva o Governo da Nação!»

         Mostra-se a calva do presidente à impiedade de uma tarde agressiva de luz e de calor. Sérgio Castro cumprimenta o ilustre visitante; a Junta avança para as boas vindas; as crianças atiram pétalas de flores; as senhoras beijam-se e a turba grita.

         A memória simples do povo, mais habituado aos matos da serra do que aos salamaleques da cidade, retém as imagens com a sofreguidão de  fixá.las na memória dos acontecimentos raros. Coloca-se em bicos de pés, estica o pescoço,, corre a outro poiso na ânsia de observar melhor. A comitiva substitui a máscara do hábito burocrático pela exuberância demagógica e põe-se em marcha.

         A abrir o cortejo, às arrecuas, vai o fotógrafo oficioso com “ganchos” de compromisso nos jornais de Lisboa; chegados às pontas, bem próximo da populaça, trabalham os agitadores do aplauso; logo a presidência ladeada pelo Castro e o Barroso, de braços abertos e erguidos como se distribuíssem a labúrdia a santa bênção pelas gentes desgraçadas. Esta é a guarda avançada seguida pelo corpo de vereadores e o ventre do padre Torres, volumoso e descaídos pelas ranchadas de mão de vaca à jardineira ou das febras de porco na brasa regadas com o vinho da região. O séquito fecha-se ao compasso da batuta de mestre Silva dirigindo o instrumental, e da malta que vem no fim, a monte, correndo e atropelando-se para não perder pitada.

         A aldeia acarinha a inauguração do seu marco fontanário com a mesma simplicidade com que chama cabrão ao primeiro que lhas faz e não lhas paga. Sobrevive nela a franqueza que permite perdoar num momento os agravos de uma vida. Aliás, a aldeia pede pouco. Aprendeu a ser modesta nas ambições e humilde nas exigências. O povo é um animal servil dotado de extrema paciência mas também de muita astúcia. Isolado, esquecido, verga-se à sorte vagabunda. Viver é rumar na esteira de um destino traçado por Deus do berço à cova – diz. Mas é também esta abulia, este desgoverno de náufragos que já não esperam barco no horizonte e enfrentam os abismos da morte com uma oração nos lábios. Daí que seja tão fácil manobrar o povo, conduzi-lo pelo primeiro atalho como se fosse um rebanho de ovelhas do qual o governo conhece as manhas e as gratidões.

         Invoca sua excelência a grandeza dos simples ao fazer o elogio das qualidades populares, do seu carácter cristão e da sua força de trabalho; rebaixa-o Júlio Barroso ao bajular a Câmara com agradecimentos a despropósito. Porém, nada disto altera o significado e a verdade dos factos: do meio do círculo dos inauguradores, entretidos com discursos, o marco salta vivo para o coração de quantos o amam como os calos das nãos grosseiras onde todos os dias repousa o cansaço dos astros. Quando pela primeira vez a água correu pela serra pensou-se logo em acabar com as fontes de mergulho aproveitando o caudal que galgava calhaus e urzes. Os homens apertaram a Junta e esta, embora recente, aceitou descer à vila a pedir um marco fontanário. A Câmara recebeu-os e ouviu-os com o ar distante de quem está por cima a concede a graça de escutar. Certo, era um pedido justo e melhoramento importante, mas quantos pedidos justos e melhoramentos importantes caíam todos os dias na administração do município? O erário público tinha dificuldades que o impedia, por siso, de fazer face às carências do concelho. A menos que… Bom, competia às câmaras promover o desenvolvimento das populações, mas também cabia a estas uma parcela no sacrifício das edilidades. A aldeia teria o seu marco fontanário se os homens estivessem dispostos a ajudar na construção da mina.

         Regressou a Junta e contou tim-tim-por-tim-tim a quem a quis ouvir. Não foi preciso ordenar para que o aço das enxadas rasgasse os limites da mina e mãos a erguessem como paredes de uma casa. Em menos de uma estação ficou pronta mas o uso foi das mulheres lavando roupa e do rapazio banhando-se em pelota nas tardes secas de verão.

         Da vila nem novas nem mandadas. Todos se interrogavam por não compreender as razões daquele silêncio. Ninguém sabia explicar, nem mesmo os grados ofereciam mais do que o blá blá das evasivas. Porém, se o povo é crédulo e resignado também o é desconfiado e arisco quando o enganam na sua boa-fé. A obra tornou-se um ponto de honra que foi imposto à Junta fazer cumprir.

         Desta volta a Câmara não se limitou a uma entrevista convencional. Dialogou, consultou mapas carregados de cifras, pediu opinião a chefes de serviços, analisou e concluiu: as comparticipações são sempre insuficientes pelo que não permitem cumprir muitas das previsões do orçamento. Todavia, palavra dada era palvra dada e a Câmara honrá-la-ia. Mas assim, do pé para a mão só se a aldeia abrisse a vala e a Câmara faria o resto.

         Regressou a Junta e contou tim-tim-por-tim-tim a quem a quis ouvir. Nem foi preciso ordenar para que os dorsos dos homens, em coluna, vergassem em coluna pela encosta aproveitando estrelas e nevoeiros. Derrubaram matos e estevas, travaram questões de direitos e de extremas para, ao fim de um mês, terem aberto seiscentos metros de vala desde a mina ao centro do largo.

         O filho do Aniceto foi às sortes e veio das sortes sem que a água deixasse de correr pela encosta à rédea solta. Os campos encheram-se do verde da parra das cepas e do amarelo ouro das searas. Fez-se vinho e fez-se pão, caíram chuvas e sóis com a mina e a vala votadas ao abandono. Esgotou-se, por fim, a paciência da Junta. Sentindo abalado o prestígio meteu pés a caminho disposta a resolver o problema de uma vez por todas.

         A Câmara reincidiu em mastigar, nas verbas, nos números, nos planos e nos projectos. A Junta, porém acantonada na sua casmurrice obstinou-se em obter mais do que um cortês saco de desculpas. Com água ou sem água não arredavam o pé sem uma certeza certa. A Câmara sentiu-se apertada e disse: «Se o povo contribuir para o custo das manilhas nós faremos o resto».

         Q assim foi, de facto. Cinco meses depois para felicidade das gentes, repouso da Junta, honra do município e satisfação do padre Torres que sacode agora o hissope no gesto da benzedura.. O Presidente da Câmara descobre a lápida com o seu nome  e reboa uma ovação; mestre Silva, o peito cheio de ar, lança a batuta no hino nacional;  Sérgio Castro e Júlio Barroso perfilam-se; Chico Manduca atiça o borrão da bicha e assopra o céu com foguetes. O programa oficial está cumprido. A comitiva retira-se para o copo-de-água na Quinta do Lavrador.

         No recinto o povo toma conta da festa a seu modo. A vida transforma-se num arraial onde cabe a cada um o seu grão de orgulho e de alegria. O marco fontanário é a sua obra, a sua estátua, a sua catedral porque é o seu suor, os seus músculos, os seus sonhos, as suas pragas.

         «Eh! Shut, gajada duma cana! – cinco dedos a correr o rapazio entretido a abrir a torneira e a borrifar o pessoal.

         «Vai uma rodada na tenda do Zaferino que paga o meco!» – convida quem vai arrebanhando amigos pelo caminho. A música de uma concertina  a pegar baile levanta terra no redemoinhar dos pés.

«A menina baila?», pergunta o moço de flor na boca , a manápula sobre as costas da rapariga, ligeira a gingar as ancas. Duas garças, carrapitos a puxarem os cabelos e a descobrirem o moreno escuro das peles bronzeadas, são separadas por moços afoitos: «Hoje só pode haver macho com fêmea!».

         Pelo meio da tarde vem um canjirão de vinho para o tocador pois são os dedos que cantam mas a garganta é que seca. As velhas comem pevides e os miúdos vespeiram em redor dos tabuleiros de goluseimas na esperança de fanarem argolas. A festa acaba por entrar no pôr do sol de rosto pobre mas de alma limpa, e o marco, ali entre o povo, é uma história para noites grandes. Assim o traduz o baile, a taberna a regorgitar, mas, sobretudo, a frase que o Eusébio Gumersindo larga quando a ternura lhe cresce nos dedos que acariciam a pedra:

         «Ah, sacana! Este raio até parece qu’é nosso filho!».

 

Algés,  Fevereiro 1964

 

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