Maria Clorinda cheira a fumo e a porco, mas não é por isso que o marido deixa de se lhe abeirar com ar e mãos gulosas. O dia correu bem, a noite, se Deus quiser, há-de correr melhor. Há lá melhor que uma mulher que chegue ao fim do dia com energia assim?
Foi bem cedo que Clorinda se levantou, fez pão e pôs ao lume panelões de água a ferver. A trempe, na lareira, ia arriando, eram já muitos anos, muitas vezes ao ano de lume quente atiçado às panelas.
Foram chegando os homens, com as cordas, com o cebolão, e com a barriga e goela vazia. Enquanto Clorinda tirou a marrã da corte e a prendeu a um maceiro velho com água que utilizou para a esfregar no pescoço e na barriga, os homens sentaram-se à volta da mesa no alpendre, a emborcarem café quente com aguardente, e fatias de pão saído do forno com grandes tagalhos de queijo e chouriça. Desjejuaram.
“Chamaste o veterinário?” – perguntou um? “Veio cá ontem à noite e há-de chegar daqui’bocado, mas só quando a coisa estiver feita ao meu jeito”, respondeu o marido, para quem tais mordomias eram coisas de quem faz leis sem nunca ter posto os pés num pátio, nem as mão num porco engordado para ser abatido.
Estava frio, como convinha à coisa, mas arregaçaram-se as mangas, e a tarefa pôs-se a caminho.
“Ora vamos lá, que aqui vai disto…”
Dois afastaram as patas da triste porca, Clorinda aparou a bacia, e o homem ganhou balanço e espetou a bicha em cheio no coração. Ainda grunhiu, roncou alto, estrabuchou, mas o sangue jorrou para o alguidar, e a porca calou-se e esvaiu-se.
Clorinda tapou e guardou a bacia, depois de lhe despejar vinho e sal. Já se juntavam os homens à volta da lareira com molhos de carqueja e palha, para os atearem e com ele chamuscarem a pele e pelos da marrã. Clorinda olhou para baixo, visualizou as pernas peludas dentro dos botins de borracha e agendou atarefa para mais à noitinha. Logo os homens se chegaram à porca, e com recurso a facalhões, pedaços de telha, o que fosse liso e estivesse à mão, e com a água fervente, rasparam toda a pele, até ficar lisa e aborrachada, com um cheiro característica e o tom creme casca grossa. Arrancaram-se as unhas, rasparam-se as orelhas e a língua, e a coisa tinha já outro aspecto.
Quando o veterinário chegou, já a bicha estava de cabeça a fundo, pendurada pelos tendões das patas traseiras no chambaril, e já tinha sido aberta de cima a baixo, as tripas levadas no tabuleiro de madeira, e todas as miudezas, de rins, fígado, coração, pulmões, reservadas para o almoço. “Mata o teu porco, e vê o teu corpo”, assim se dizia. E por essa altura, procedia-se ao corte do toucinho da barriga, sob o olhar atento da garotada que tinha esperado ansiosamente pela autorização de entrada no pátio.
A prima Dulce cozeu um pedaço do sangue, juntou-o ao pão e alho, com água a ferver. Fez-se logo ali a merenda da manhã. “Não vem provar Sr. Doutor?”, “Não muito obrigado, ainda é muito cedo para coisas dessas…” mas ainda assim foi provando. Estava tudo bom, tudo bem, despachou a coisa e foi-se embora.
A tia Alzira estava a descascar batatas. Deixou-as em água e começou a cortar o toucinho para a panela. Daqui a pouco seriam torresmo, e a banha, essa, daria para uns tempos.
Mariquitas arranjava a fressura, lavava rins, bofes e coração, e cortava tudo em cubos, e preparou um refogado temperado onde deixou tudo, com as batatas. Do fígado cortou as iscas. Passou um dos homens, pegou no prato e levou-o, mais a uma mão cheia de sal , o azeite e alhos.
Quando a porca foi tapada com um lençol branco, ficou assente que a animação terminava ali. Agora só amanhã. Para hoje, já havia muito para cozinhar e partilhar.
Enquanto se guisavam as carnes e as batatas, começou o frenesim de picar cebola, cortar gorduras, picar alho, de reserva para a tarde.
Os homens dispersaram até ao almoço, e ainda eles não se tinham levantado da mesa e já o tabuleiro da tripa ia direito a um buracão aberto no fundo do quintal, pelas mãos das mulheres. Despejaram-se as tripas do mais grosso, parecia que a porca não tinha feito jejum suficiente…E depois do buraco tapado, dirigiram-se a uma pia com bica no pátio, que não haver rio perto com água boa não era impedimento para os enchidos. As tripas foram lavadas, esfregadas, viradas com o pau de vime, reviradas, esfregadas e tornadas a lavar. Depois cheias, chocalhadas, cortadas de modo a não ter buraco. As gorduras e o véu, e as tripas brancas e retorcidas passavam depois a alguidares com água e limão para tirar os cheiros.
A meio da tarde, com os caldos de arroz, cebola, sangue e vinho, temperados de sal, salsa e cominhos, faziam-se as morcelas, que iam ao panelão cozer. Para amanhã, as chouriças. Para amanhã, a desmancha.
A função deu-se até à noite, e foi um ver se te avias para dar vazão aos grelhados, às morcelas, e a tudo o que se comeu e tudo o que se deu.
Quando o dia chegou ao fim, e enquanto o homem se alapou no cadeirão, com uma cerveja, a arrotar alho das iscas, e a ver a bola, Clorinda levou para a casa de banho a caixa dos fósforos de cabo grande e, acendendo-os sucessivamente, passou cuidadosamente pelas pernas, encaracolando a penugem, que depois esfregou até dela não restar vestígio na pele clara, avermelhada do calor. Lavou-se com calma, abriu a janela, para que o cheiro a chamuscado saísse, vestiu a camisa de dormir e passou pela sala, chamando o homem para deitar.