HEROIS ACTUAIS DAS CRIANÇAS PODERÃO TER AS MESMAS FUNÇÕES QUE OS CONTOS TRADICIONAIS? por clara castilho

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Bruno Bettelheim, célebre psicólogo mais conhecido pelo seu livro Psicanálise dos Contos de Fadas, sendo de  origem judaica,  passou pelos campos de concentração nazis de Dachau e Buchenwald (1938-39), Já mais tarde, nos EUA, iniciou a sua brilhante carreira, ensinando em várias universidades e investigando o autismo infantil e intervindo junto de crianças perturbadas, com o seu próprio conhecimento de situações semelhantes, a partir das vivências nos campos de concentração.

Faz hoje 24 anos que faleceu, mas a sua obra continua actual. Betthelheim chama-nos, de uma forma muito organizada e convincente, a atenção para o facto de  os contos de fadas serem portadores de mensagens importantes para o psiquismo consciente, pré-consciente e inconsciente das crianças. As histórias falam ao ego nascente, encorajando o seu desenvolvimento, enquanto ao mesmo tempo aliviam tensões pré-conscientes ou inconscientes.

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É sempre, para mim, admirável a atenção com que as crianças ouvem as histórias e como as reproduzem. Assim como é admirável podemos ir percebendo o que lhes vai na alma, através da escolha das histórias que elas fazem. “Ao mesmo tempo que distrai a criança, o conto de fadas elucida-a sobre si própria e promove o desenvolvimento da sua personalidade”.

Especificando, Bettelheim afirma: “Para que uma história possa prender verdadeiramente a atenção de uma criança, é preciso que ela a distraia e desperte a sua curiosidade. Mas, para enriquecer sua vida, ela tem de estimular a sua imaginação; tem de ajudá-la a desenvolver seu intelecto e esclarecer as suas emoções; tem de estar sintonizada com suas angústias e as suas aspirações; tem de reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam.”

A minha amiga Maria Augusta Seabra Diniz, que tem estudado estas coisas, com a análise das nossas histórias tradicionais, vai chamando a atenção para o facto de que os contos de fadas “passam-se no mundo da magia, da fantasia ou do sonho. As acções escapam às contingências da vida humana e tudo se resolve por meios sobrenaturais.”

No dia a dia tento perceber o interesse que as crianças têm por certos jogos, cromos, personagens. Tenho dificuldade, mas devíamos aprofundar em que ponto desempenham ou não as funções das histórias tradicionais. Um desafio.

BETTELHEIM, Bruno (1998): Psicanálise dos Contos de Fadas. Lisboa: Bertrand Editora

DINIZ, Maria Augusta Seabra (1993): As Fadas não foram à Escola. Porto: Edições Asa

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