COMO A EUROPA ESTÁ A TORNAR O BCE UM MONSTRO INCONTROLÁVEL [OU COMO UM PESSIMISTA PODE VER O FUTURO DA EUROPA] – por Mathieu Mucherie

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Como a Europa está a tornar o BCE um monstro incontrolável  [ou como um pessimista pode ver o futuro da Europa]

Mathieu Mucherie

Mathieu Mucherie é economista de mercado em  Paris   e exprime-se aqui a título pessoal.  

O Parlamento europeu e os Estados-Membros da União europeia chegaram a um acordo que permite ao Banco central europeu supervisionar a quase totalidade dos bancos da zona euro a partir de 2014.

A doutrina Draghi

O todo-poderoso BCE submeteu ao seu poder os povos da zona euro em seis etapas BCE

1. No início era já um poder real, magistral, sistémico e soberano, o poder último da criação monetária, a autoridade sobre os bancos centrais nacionais e de facto sobre os bancos comerciais. Quando se pensa nisso não parece ser nada importante, sobretudo quando do outro lado não há um governo mas sim dezassete, muito divididos nas suas preferências, nas suas estruturas, no seu posicionamento  no ciclo económico.

2 Um nanossegundo após esta criação ex-nihilo inédita e fulminante  (e muito pouco democrática, mas passemos), o BCE vê-se dotado dos mesmos atributos que o Bundesbank, porque se assim não fosse os Alemães não teriam abandonado o seu querido Marco:

Em primeiro lugar, uma independência hiperbólica, quase religiosa, concretamente a responsabilidade do banqueiro central nunca será envolvida e a falta de transparência será total (contrariamente aos outros bancos centrais, o BCE não comunica as actas do seu Comité de política monetária, por exemplo, daí que concretamente nunca se saiba o que se passa, quem  vota e em quê, internamente?  Haverá apenas um voto?). Por outras palavras, é a imunidade na impunidade, nenhuma avaliação é possível e o artigo 15 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão encontra-se violado diariamente. Tudo isto é selado por um Tratado que é menos  fácil de alterar que as leis que governam os movimentos dos planetas (devido à heterogeneidade das preferências, já referida ), enquanto que foi preciso esperar  por  1992 de modo que a independência do Bundesbank tenha um valor constitucional. Open bar…

Em segundo lugar,  esta tecnocracia que está no poder poderá escolher ela própria (o Tratado é suficientemente indefinido e quase que  americano sobre este ponto em que se  evoca  a inflação e o crescimento) o seu objectivo. Sem surpresa, será apenas o controlo sobre a taxa de inflação, enquanto que esta tinha sido praticamente erradicada por todo o lado desde o início dos anos 80. Luxo suplementar, o BCE poderá escolher a medida da inflação que   mais lhe convier ( O BCE escolheu  a medida mais maximalista e a que tem menos significado económico, o índice dos preços no  consumidor), e poderá referir-se aos agregados monetários apenas quando isso lhe convier  (ou seja não frequentemente desde 2008). Free as a bird…

Em terceiro lugar, os homens do BCE serão escolhidos exclusivamente entre a população crescente dos europeus não economistas, ou seja entre funcionários de  CV’s impecáveis mas que não são especialistas das questões  monetárias (não seria necessário sobretudo fazer como a Reserva federal ou o Banco da Inglaterra). Entre os 20 ou 30 peritos europeus destas questões , nenhum deles alguma vez  trabalhou para o BCE, mesmo a tempo parcial. Em Frankfurt há um quadro de economistas, mas são recrutados sobre critérios muito à maneira do Bundesbank (nada de  leitores de Scott Sumner, não dissidentes, auto de fé face aos  livros de Milton Friedman) e, de toda a maneira, são muito pouco  ouvidos. No Debat… No problem…

3. Alguns meses depois desta errada fundação, o BCE começou a exercer o seu imperialismo institucional pelo meio mais simples e mais eficaz: um  domínio (anschluss no original)  sobre a política cambial  (“o Sr. euro, sou eu, a minha assinatura está sobre as  notas”, diziam tanto Duisenberg como Trichet). Esta OPA hostil era certamente bastante previsível: quando se  fixam  as taxas de interesse de curto prazo, concretamente tem-se a mão sobre uma parte das paridades cambiais, e era ilusório pensar que o fantasmático  Eurogrupo possa algum  dia ter o papel  equilibrante  que tem o  Tesouro nos Estados Unidos. Dito isto, sendo dado  “o pensamento” anti Friedman que reina à Frankfurte  (dever-se-ia e antes chamar esta cidade dera-Mark), este abandono crescente das questões cambiais  teve consequências trágicas, em especial desde 2007, quando o euro se  tornou claramente a moeda dos cornudos  à escala global.

Para uma zona euro onde a mão-de-obra é já cara e o imobiliário está fora de preço, ver o conjunto destes valores expressos  numa moeda mantida artificialmente muito cara (pela recusa do BCE de fazer como os outros bancos centrais de taxas a 0% e programas de compras maciços de activos) é um verdadeiro problema, uma fonte de aceleração das saídas de capitais e de criação de espirais deflacionistas  na  periferia. O BCE fica indiferente  como se estivesse tratar do seu primeiro simpósio sobre a competitividade .

4. Desde 2008, o BCE recupera de facto a vigilância orçamental,  dado que o Pacto de estabilidade explode e que a seu guardiã (A Comissão)  se encontra desmonetizada. Desde há muito tempo que ela esperava isto:  exercer chantagem sobre os governos de sua escolha, já não dar simplesmente lições de ortodoxia mas intrometer-se directamente nos processos orçamentais e punir os membros, os Estados em falta,  via a sua influência determinante sobre os mercados obrigacionistas (que fazem o que ela lhes pede para fazerem: não encontrará ninguém nas salas de mercados modernas para se posicionar  contra  um banco central determinado).

Inventa por conseguinte a condicionalidade: ajudo-os mas por outro lado os senhores devem fazer a austeridade no pior momento (os economistas não designam aquilo como a ortodoxia mas como a estupidez, mas passemos), e as reformas estruturais pelo menos nem que seja só sobre o papel (libertar a oferta produtiva em plena  crise da procura , muito esperteza junta), de resto, se os decretos de aplicação demorarem não é grave porque basicamente o objectivo é 100% político, uma pura relação de forças (se por desgraça o crescimento retornasse, possivelmente com ele viria igualmente a  inflação). Se assim não for: golpe de Estado contra Papandréou, golpe de Estado contra Berlusconi, a ordem reina quando se dirigem  os spreads de taxas. O poder, é simpático, sobretudo quando se abusa .

Com a União bancária, entra-se no domínio do ridículo, mas ainda aí deparamo-nos com a indiferença geral: quanto mais o imperialismo institucional se torna enorme e caricatural, melhor as coisas se passam. Resumindo sobre esta matéria, confia-se a supervisão dos bancos ao BCE a partir de 2014, para “restaurar a confiança”. Mas que fazia então  o BCE entre 1999 e 2008, quando as bolhas imobiliárias se formavam, quando M3 navegava à +12% ao ano , quando ter-lhe-ia sido suficiente  fazer subir as  reservas obrigatórias dos bancos? Como cada um sabe, o BCE é virgem, [nada disto é com ele] ele tinha  visto  tudo quanto às derivas  na parte  superior de ciclo, foi apenas por pudor que nada fez. Mas aqui está: os fundos de resolução chocam-se com  um veto Alemão  e o recente episódio cipriota mostra bem que não há nenhuma questão com a solidariedade [pois que esta não existe]. Portanto, na verdade vai-se pura e simplesmente transferir um poder suplementar, uma fonte única de informação e uma excelente base de chantagens, ao BCE, mas sem uma verdadeira garantia dos depósitos, sem Banking Act à maneira 1935, e naturalmente sem contra-poderes [cuja existência é uma das características da Democracia].

Ora o pequeno jogo do BCE no que diz respeito aos bancos comerciais é já  preocupante, e cada vez mais,  desconcertante desde a crise, que poderíamos nomear de  conflito de interesse ou de conluio e a que Friedman nomeava creditismo:  de um lado, o BCE bombardeia os bancos pela sua política monetária híper-restritiva  (os bancos são actores com uma alavanca de 1 para 12, não gostam muito, por  conseguinte, das situações caracterizáveis como de deflação), enquanto que por outro lado pressionam-nos através de todo um conjunto  de muitos  dispositivos de forma a evitar uma cascata de incumprimentos e  de falências: como “zombies sim, como Lehman Brothers não”. Neste jogo de xadrez a  50.000 mil milhões de euros de que ouve frequentemente falar (e que escapa largamente aos próprios  bancos, vítimas de uma síndrome de Estocolmo), alguns peões podem ser sacrificados para salvar a face, para continuar a partida de xadrez,  para  passar sob o radar das opiniões públicas, ou para satisfazer  alguns dos seus amigos ( Axel Weber…) ; daí os episódios ditos  LTRO, MEE,  OMT, SMP, FEEF, passemos por cima,  e se não compreenderem nada disto, podem dizer  que é feito de propósito, , a novilíngua  do BCE  é do género técnico para esconder uma relação muito clássica com a indústria financeira, eu puxo-lhe pela barbicha.

6. A etapa final de abandono da democracia na  zona euro está ainda incompleta, mas o processo está já bem  lançado. Nesta etapa, o BCE não terá mais demasiado a esconder-se. Será o patrão das  políticas fiscais, sobre a política do imobiliário,  talvez também sobre a política de  natalidade. As eleições serão abolidas, porque as pessoas têm demasiada tendência a votar  mal (o procônsul nomeado pelo BCE para a Itália obteve, após 15 meses de baixa organizada dos spreads das taxas, duas vezes menos de votos que o   Coluche local  e três vezes menos que o organizador das  sessões bunga-bunga). O euro valerá dois ou três dólares, para que nos desembaracemos de uma vez para sempre da nossa indústria. A Alemanha terá por último as suas colónias: Grécia, Espanha, Portugal. A dupla torre megalómana  de 45 andares que o BCE fez construir em  Frankfurte  dominará a indústria financeira europeia por  muito tempo, da mesma forma que os monumentos desenhados por Hitler terão  dominado Munique e Linz.

Os accionistas serão substituídos por administradores. O imposto sobre as sociedades na Irlanda será de 40%. A Hungria (que num curto momento queria restringir a independência do seu banqueiro central) será tratada como um Estado vadio. O ensino da ciência económica moderna será substituído por cursos obrigatórios sobre os dogmas do Bundesbank.  por trabalhos práticos sobre a moral monetária alemã [ de que um dos moralistas principais é Jens Weidmann, actual Presidente do Bundesbank, com a sua noção de pecado dos Estados e de punição pelos mercados]. Os livros de História não comportarão mais do que um só capítulo, consagrado ao ano de 1923 (mas censurado de qualquer referência ao facto que o Reichbank era uma instituição privada). Viveremos felizes, com o decrescimento económico (a única maneira de respeitar os objectivos de Quioto, de toda a maneira), viveremos ricos com a  condição de nada podermos depositar numa qualquer  conta bancária  e de não podermos investir em acções, viveremos livres com a  condição de não escrevermos  sobre a política monetária[ nem sobre a política suicida da Troika, validada pelo BCE, pela Comissão e pela cata-vento. sempre bem vestida e que dá pelo nome de  Christine Lagarde] e com a obrigação de aprofundar e publicar sobre temas  importantes, como a eliminação de Didier em Koh-Lanta, como o défice do ramo doença, sobre o euro (cuidado, é o do futebol), sobre o cavalo enfiado nas  lasanhas [ que não faz mal à saúde] .

Mathieu Mucherie,  Comment l’’Europe est sur le point de faire de la BCE un monstre incontrôlable. Texto disponível no site :

http://www.atlantico.fr/decryptage/comment-europe-est-point-faire-bce-monstre-incontrolable-mathieu-mucherie-675493.html

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