Somos tão mal tratados enquanto cidadãos. Imagine-se que é possível ver-se na sala de espera da Caixa Geral de Aposentações um homem que mal se podia mexer, numa maca acompanhado por bombeiros…será possível que não haja sensibilidade com as pessoas que sofrem, que não podem trabalhar por motivos de impossibilidades físicas e cognitivas?
Somos tão maltratados quando se trabalha durante uma vida, muitas vezes, desconfortável, com um salário que não permitia, por exemplo, ir ao cinema, a não passar férias fora de casa, mas que se confiava no Estado como uma pessoa de bem. E agora o que fazemos com uma reforma muito mais baixa do que o salário. Sentamo-nos nos bancos dos jardins, vamos para o centro comercial porque lá tem boas cadeiras e está mais quentinho. Em casa gastamos água e consumimos energia que não podemos pagar.
Podem dizer que sempre houve reformados a viver assim.
Pois houve, mas também por isso se fez o 25 de Abril em 1974, há 40 anos.
O 25 de Abril deu esperança a todos nós que se podia viver melhor. E na verdade vivemos melhor, em 1973 só 30% da população portuguesa tinha água canalizada em suas casas.
A Escola era só para alguns.
Somos todos maltratados, pois há uma tendência crescente para fazer da Escola novamente uma escola só para alguns.
O homem que entrou de maca na sala de espera da C. G. A. Fazia qualquer pessoa revoltar- se por ver um homem a ser humilhado, porque ia requerer o que por direito lhe era devido. Deveria ser tratado com respeito e carinho.
Somos todos maltratados quando permitimos que mulheres sejam assassinadas como consequência da violência doméstica.
Somos todos maltratados quando permitimos que crianças andem nas ruas na mendicidade, são maltratadas, quando os idosos são esquecidos pelas famílias nos hospitais.
40 anos depois do 25 de Abril querem- nos tirar tudo o que de bom nos trouxe a Revolução dos Cravos.
Deixam- nos fazer grandes manifestações, mas nada muda porque estamos a viver numa ditadura suave, subtil que já fez o medo instalar- se, como diz Rui Zink na ” Instalação do medo”.
Há que inventar novas formas de nos revoltarmos. Exigir o que já nos parece impossível.