A menina gostava muito de bonecas. Vestia-as, lavava-lhes a cara, dava-lhes de comer, ensinava-as como se ensina na escola. Para a menina, as bonecas eram meninas.
Eram nenas de trapos feitas de meias puídas e a cara moldada por uma meia de vidro já gasta. De papelão, tinha um boneco de olhos pretos desenhados, boca de um vermelho morango, com um sulco no rabo e um risquinho na frente. Era quase perfeito o boneco. De corpo gordo e rosado, a menina lavava-o com um pano húmido todos os dias. A pele foi perdendo a cor e ela achou que o boneco precisava de um banho geral no tanque. Deitou-o à água, e quase por magia, ali se foi desfazendo aos seus olhos, sem que ela o pudesse salvar. Com as mãozinhas papudas, fez do corpinho rechonchudo do boneco a delir-se, uma bola a escorrer tanta água quanta os seus olhos choravam inconsoláveis perante aquela perda sem explicação.
Por sorte, ou por artes da mãe, um novo boneco aparecia. Uma boneca, com cara de loiça, olhos a abrir e a fechar e que dizia papá e mamã. Pregada a uma caixa ornada por dentro de papel recortado, era uma boneca de luxo.
Por muitas saudades que tivesse do seu boneco plebeu, foi-se dedicando de alma e coração à menina fina que agora lhe era colocada nos braços de mãe. Tratava-a com muito carinho e tinha roupas para mudar. Ao contrário, o boneco andava sempre nu. Apenas uma touca e a baeta lhe serviam de agasalho.
Um dia, brincava a menina numa pilha de areia, à porta da venda, onde, nas aldeias de então, era hábito esperar o carteiro que ali deixava as cartas para as pessoas da terra. Entrou na venda para procurar o irmão e deixou cá fora a bonec.a. Quando voltou, ela tinha desaparecido. No seu lugar, a menina olhou estarrecida o vazio da areia cinzenta. Passaram entretanto as crianças da escola e levaram-na. O desgosto foi tal, que a menina não se teve de pé. Levou-a o irmão para casa às cavalitas. Adoeceu de saudade.
Mais tarde, foi-lhe oferecido um boneco de celulóide. Um Sebastião, barrigudo e corado, com cara de quem está de bem com a vida. Passou a ser o predilecto. Mas como os outros, estava condenado a desaparecer.
Era um dia de Primavera. Começava a faina nos campos e adivinhava-se um Verão de muito calor. A água da mina não chegava e havia água de rocha junto à casa. Já o homem da vergasta por ali tinha passado e descobrira sinais de um veio. Naquele sítio se fez o poço, e logo jorrou o sangue da terra. No dia de o emparedarem, acenderam os homens um gasómetro para alumiar o buraco.
No banco do jardim, brincava a menina com o boneco. O irmão, sempre curioso e atrevido, encostou o Sebastião à chama sibilante e azulada do gasómetro e o boneco desapareceu como fumo perante os olhos pasmados da menina.
Por entre as gavinhas e os gaviões das videiras, na ramada a começar de se cobrir, a menina espreitou, mas lá em cima só viu o sol a brilhar.
Todos os desaparecimentos a comoveram e a deixaram presa à saudade.
Quando perguntava à mãe onde estariam os seus bonecos, ela respondia que tinham ido para o céu. Nunca aceitou muito bem a explicação. Só quando viu desaparecer o Sebastião no ar é que percebeu o que tinha acontecido aos outros.
Dali para a frente, adormecia serena a olhar as estrelas porque sabia que os seus bonecos eram felizes, e desejava ela própria ser um boneco ou uma estrela. celulóide