Muitas vezes pensamos que o optimismo é o oposto do pessimismo, mas a verdade é que em termos psicológicos, o optimismo não significa ter pouco pessimismo.
Mas o pouco pessimismo é relevante quando se mistura com o medo e atrás do medo vem a culpa e como não há quem aguente, algumas pessoas ou se tornam passivas, porque têm medo; ou se revoltam, não por aquilo de que têm medo, mas porque têm que se mexer, não podem estar paradas à espera que mais medo venha, já estão no limiar da sobrevivência triste, do desconhecido, de ter medo de não terem força para lutar contra o medo.
O desconforto da vida provocado pelo medo tolhe o corpo e esmaga a alma.
Mas “Há sempre alguém que resiste, Há sempre alguém que diz não” ( Manuel Alegre) e, nas piores circunstâncias, já vividas neste país, houve sempre alguém que fez do medo a esperança de um dia melhor, ou seja de uma sociedade melhor.
No tempo do medo vivia-se na clandestinidade, era-se preso e torturado, havia demasiada fome, havia muita gente que saía do país com a “mala de cartão”. Não havia liberdade de expressão do pensamento, mas havia pensamento que se exprimia de várias maneiras. Quem queria resistir ao medo encontrava sempre como o fazer, sabendo os perigos que corria.
O medo era individual e era também colectivo; os rapazes com 20 anos iam para a Guerra no Ultramar e não sabiam se voltavam numa “caixa de pinho” ou para os braços dos seus familiares, ou da namorada que já lá não estava. A guerra durava muito tempo e a troca de cartas demorava uma eternidade.
O medo de ir para a guerra atacava toda a gente, o próprio, a família, os amigos, aqueles que não iam para a guerra porque desertavam, aqueles que tinham consciência do país em vivíamos.
Milhares de pessoas iam resistindo ao medo, fazendo pequenas investidas que, juntas, faziam uma barricada contra o medo e a repressão. A barricada às vezes desmoronava-se, mas ficava sempre a pedra para a nova barricada, porque a esperança não morria, mas renovava-se, por cada porta que se fechava uma janela se abria.
A esperança de uma sociedade melhor concretizou-se na madrugada do dia 25 de Abril de 1974.
Começava o tempo do não medo.
Para os oprimidos não havia medo, havia esperança e a imaginação de dar vida ao que estava quase morto: a escola, a saúde, a habitação, o trabalho digno e dignificado.
Tanta luta, tanta mudança significativa, para melhor, na vida de todos nós, aconteceu então.
40 anos depois vemos instalar-se o medo; o medo, de então, ainda não saiu da vida dos portugueses.
Podemos falar, podemos discordar, podemos e devemos (com a anuência do governo, ora veja-se o descaramento a que chegou o poder político!) fazer greve.
O povo brinca às greves e às manifestações e os nossos protectores dizem que vão fazer comissões para saberem porque se agitam as massas.
E assim ficamos à espera….até que percebemos que fomos castigados com cortes nos salários, nos direitos já adquiridos e……começa-se a ficar com medo.
O que pensam e dizem as pessoas que andam na rua caladas e tristes?
Passaram 40 anos feitos de mudanças, mas as mudanças foram tão rápidas que não se compreendeu que os falsos democratas tinham tomado o poder, o pior dos poderes. O poder de pôr os cidadãos na miséria, a trabalharem como escravos e a estender a mão à caridadezinha.
Será que ainda se pode acreditar que o bem prevalece sobre o mal?
Mãe, tenho medo do escuro.
O escuro não faz mal.
Mãe, tenho medo do bicho
O bicho não faz mal
Filho, tenho medo do medo
Mãe, o medo não faz mal, grita-se-lhe e ele desaparece.