Desesperador. A melhor palavra para descrever o amarelo-ouro nas paredes da sala.
“E então? Você acha que ela vai gostar?”
A cena, estimulante, merecia uma observação mais cuidadosa: magro, sarado, barriga nenhuma, um short azul desbotado, barba por fazer, peito nu. Na mão di-reita, o rolo de pintura pingando tinta no chão cuidadosamente coberto por jornais. Seria maldade estragar o prazer flagrante naquele rosto.
“Ela vai adorar.”
Entrou em casa sorrindo. Não era a primeira vez que o novo vizinho provocava nela aquele escândalo interno, que a fazia sorrir e se incriminar ao mesmo tempo. Mas, ao fim de poucos minutos, o pensamento voltava à vida prática e o esquecia lá, do outro lado do corredor, com toda sua testosterona e sua estranha percepção das cores. Para cá da porta, a barba por fazer acabava encoberta pela folga da empregada, a bagunça das crianças, a chegada do marido. As horas passavam, sem sobressaltos, como nos últimos quinze anos. Arroz-feijão, papai-mamãe. E depois era preciso abrir a porta novamente, perguntar pelo andamento da obra, pela chegada da esposa, oferecer café, tomado ali mesmo, em pé, no meio do corredor. Ou experimentar uma vaga decepção ao encontrar o apartamento fechado. Respirar fundo, seguir.
Havia quase um mês ele fazia, sozinho, pequenos consertos, esforçando-se para deixar o apartamento com um ar de novidade bastante dificultado pela antiguidade do prédio. Chegava no início da tarde, trocava carrapetas, lixava madeiras, pintava paredes. A porta, quase sempre, aberta. Foi inevitável ficar sabendo do aluguel, e que tinha os dentes perfeitos, que era casado, lábios grossos, dedos longos, um filho adolescente, mãos enormes. Bioquímico, farmacêutico, um trabalho com remédios. Ricardo. Chegar em casa deixou de ser rotina. Os poucos metros de corredor se transformaram em uma zona de gravidade zero por onde ela flutuava, imaginando si-tuações capazes de ruir qualquer estabilidade familiar se traduzidas em olhares ou palavras.
Depois da parede amarela aconteceram outras coisas, a entrega dos móveis, a montagem dos armários, a arrumação cheia de perguntas, “você prefere aqui ou no outro canto?” “E a cama, embaixo da janela ou ao lado da porta?” Talita já havia até conversado com a esposa por telefone, assuntos domésticos, escola, supermercado. Simpática, mas o marido continuava com a porta aberta, o short velho, o peito nu, difícil de resistir por uma amizade nem bem iniciada.
Enfim, numa tarde de quinta-feira meio cinzenta, ele chegou ao prédio carregado de malas e, antes de colocá-las dentro de casa, tocou a campainha anunciou a mudança definitiva. No final da semana, traria a mulher e o filho do interior. Talita resmungou uma gentileza misturada a um sorriso acanhado, pensou ter surpreendido um ultimato nos olhos dele, transou com o marido quase sem sentir e dormiu muito mal.
Durante o sono entrecortado, elaborou a teoria da crise dos quarenta, da necessidade de afirmação, da atração pelo perigo, pelo desconhecido. Mas sabia não haver nenhuma crise, nenhuma vontade de provar ou mudar nada. Só o desejo daquela boca, daquele peito nu, daquele corpo todo. Em uma palavra: tesão. Simples assim.
Simples assim durante a madrugada. Com a manhã clareando o quarto, revelando o rosto amassado e inocente do marido, as teorias recuperavam o sentido, não se pode carregar uma culpa sem um bom entendimento dela.
Ainda que precisasse de uma noite mais longa, a sexta-feira amanheceu. Talita deixou os filhos na escola e passou o dia no trabalho, olhando através da pilha de processos a despachar, tentando encontrar um modo de se aproximar dele pelo lado, digamos, físico, sem ofender marido, filhos, família, todos os que esperavam um comportamento exemplar, uns duzentos milhões de pessoas, olhos grudados, tentando adivinhar seus próximos passos.
Tesão é coisa que dá e passa. Bastava esperar, evitar enfrentamentos desnecessários.
Entrou no corredor pisando firme. Pelo canto dos olhos, viu a silhueta contra o vão da janela, no fundo da sala. Antes de encontrar a chave, sentiu a voz envolver suas costas.
“Pizza. Quer comemorar comigo?”
“Comemorar o quê?”
“A minha mudança, ora. A nossa amizade.”
“Claro! Pode ser daqui a pouco? Tenho montes de coisas para fazer em casa.”
“A pizza esfria. Ainda estou sem gás.”
Convencida, ela flutuou para o outro lado do corredor onde ele a esperava, vestido para matar, calça jeans e camiseta implorando para serem arrancadas a mordidas. Em algum momento, Ricardo fechou a por-ta e desapareceu na cozinha. Talita ouviu um zumbido familiar, pegou o celular insistente e o desligou.
Ele parou na frente dela, uma taça de vinho em cada mão, o amarelo-desespero da sala acentuado pela luz artificial. Entre olhares e silêncios, tirou-a para dançar uma música imaginária. Ela achou estranho estar nos braços de outro homem. Tudo pareceu um tanto cafajeste e ficou mais cafajeste quando sentiu o corpo, o toque da boca, o sabor. Estava ali, estava fazendo aquilo, e aquilo certamente não duraria muito, mas era gostoso, gostoso, gostoso.
E então o telefone tocou num canto da sala, Ricardo não atendeu, mas a realidade deixou um recado na secretária eletrônica que terminava com “um beijo, te amo, até amanhã”.
Eles se afastaram, sorriram.
Talita atravessou o corredor, entrou em casa.
Pouco depois, ouviu o chiado do elevador quase ao mesmo tempo em que os filhos entraram correndo e o marido desejava boa viagem a Ricardo, já no vão da porta. Tudo de volta ao normal, ao modo como deveria ser. Exceto pela sensação de que o normal deixara de ser plano. Parecia, agora, um pouco íngreme.