O homem mau era amigo do pai e amigo ficou.
O menino, silenciosamente, chorava sem que ninguém visse.
Nas veias, em vez de sangue, corria-lhe a dor e as lágrimas de quem foi humilhado, magoado, silenciado, como tantas outras crianças. Vivia num bairro onde vagueavam almas desfeitas por vidas desenraizadas, mergulhadas em álcool e agressividade.
Ninguém para para pensar na dignidade humana, no direito de se ser feliz.
Direitos, só os da sobrevivência fundados em Direitos e Deveres por eles próprios criados, olho por olho, dente por dente.
Não há silêncio interior para pensar, há apenas o ruído do gesto violento, porque outro gesto não sabem.
No barulho de palavras ouvidas sem sentido, “ninguém manda no teu corpo”, “ o corpo é teu, só lhe mexem se tu quiseres e gostares”, “quem não gosta que lhe mexam no corpo, foge, grita, faz queixa a um adulto…”,o silêncio da dor instala-se.
São palavras ditas com a serenidade do barulho que faz estremecer… Olhares conhecedores desta dolorosa vivência denunciam o sofrimento.
E o barulho abre brechas nesse silêncio abafado e solta palavras cheias de sentido. “Oh professora, sabe o que são crianças maltratadas… assim como eu...” (menina, 8 anos)
“Se digo alguma coisa o meu pai bate-me” (menino, 10 anos)
“a minha mãe chora…e não faz nada… (menino, 9 anos).
O “sem sentido” das palavras ecoou durante anos no silêncio da dor e um dia rompeu, e um dia as palavras esquecidas brotaram timidamente “mas é meu pai” (C.L, 18 anos) e misturaram-se. O sentido das palavras aprendido na Escola, em silêncio, com lágrimas, com o corpo tenso, brotou rasgando, sem amarras, o segredo escondido “sim é meu pai…não pode fazer tudo o que quer…e eu…eu quero ter a minha vida, eh… não me esqueço daquilo… quero viver a minha vida…”(C.L.18 anos).
Que escola para esta criança?
Quem quer aprender quando nas veias lhe correm lágrimas vindas de uma nascente que só se estanca quando todos nós, cada um por si, se indignar e tornar público o silêncio sofredor de quem se torce de vergonha, de dor… na sua vida privada.
Esta história, verídica, foi conhecida numa escola em que o número de alunos por turma era entre quinze e vinte. Era uma escola TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária). Era uma escola que tinha tempo para conhecer a pessoa completa, criança e aluno.
Era uma escola construída nos ideais democráticos de uma sociedade que se quer sensível ao bem-estar de todos. Era uma escola Para Todos. Era uma Escola que se preocupava com as diferenças, fossem elas quais fossem, no sentido de lhes dar uma visibilidade positiva. Era a interculturalidade, a inclusão, o respeito pelo outro, a escola da mediação, a escola que tinha também como objectivo valorizar a pessoa inteira.
Os alunos aprendiam as matérias curriculares, a avaliação era contínua. Ao contrário do que se diz, os professores faziam formação e aplicavam novas metodologias. As reuniões de professores tratavam questões de índole pedagógica.
E não se sabe porquê, ou sabe-se e a verdade é demasiado violenta para se acreditar que seja possível, parece que agora os alunos não sabem nada, que a escola não está bem gerida, que os professores não ensinam, que se deve, então, premiar as melhores escolas com mais professores ficando as escolas com meninos sofredores, necessidades básicas por resolver, com relações interpessoais difíceis de gerir, com problemas de aprendizagem, com menos recursos afundando-se cada vez mais num desesperante insucesso.


Texto excelente que nos remete para uma sociedade despojada
do sentido pelo o outro .Estamos a castrarmo-nos da ess~encia do Ser como artefacto da energia divina -MARIA