CONTOS & CRÓNICAS – “O Serão “- por António Sales

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         Daniel sai da repartição por volta das seis e às sete está em casa. Pousa a pasta num velho maple, beija a mulher e os filhos, liga o televisor e senta-se a repartir a atenção entre as imagens do televisor e os títulos do jornal.

         Em casa janta-se cedo e com a presença de todos. A família é uma unidade que Daniel não compreende desagregada e o jantar um ritual que acalenta o estômago aproximando-os na intimidade de cada dia com conversas banais de acontecimentos e experiências pessoais.

         Às sete e meia Laura aparece com a terrina da sopa. Os filhos deixam o estudo. Daniel puxa uma cadeira para a mesa e toma o aroma gostoso da comida. Senta-se, pega no pão do dia anterior, como gosta, arranca quatro ou cinco pequenos pedaços e deixa-os cair no prato. Os pedaços bóiam, a colher afunda-os e mergulha para logo reaparecer, cheia, à superfície.

         Colher vai, colher vem, sem pressas nem afadigamentos. Trocam-se monossílabos. As imagens do televisor distraem prolongando o prazer da comida na boca. O estômago é órgão exigente e egoísta dos carinhos caseiros.

     Ana e Paulo, quinze e dezassete anos, sentam-se à esquerda e à direita do pai. Os filhos chegaram um pouco tarde. Deram trabalhos, sustos, ralações. Vira-os aprender as primeiras letras, tomar as primeiras decisões, manifestar os primeiros protestos. Tudo isso foram compensações. O futuro faria a prova do certo e do errado.

         Laura levanta a terrina e os pratos acamando uns sobre os outros. Daniel adora os gestos serenos da mulher, a sua docilidade sem queixumes. Mesmo quando o sangue corria pelas veias como lava da juventude ela conservava-se tranquila. Hoje que Daniel contempla a vida com um misto de desencanto e de ternura, aprecia-lhe o sacrifício de ter esgotado a existência entre as quatro paredes de uma casa.

         As batatas e o peixe assado fumegam. Os “miúdos” ajudam a mãe. Ai!, a diferença dos cozinhados  sem graça obrigado a suportar no pequeno restaurante onde almoça com os colegas. Em casa satisfaz-se com um rabo de pescada, escolhe batatas redondas e bem coradinhas, serve-se do molho apetitoso que espalha sobre a comida. Aqui alimenta-se bem! Poderá não haver dinheiro para mais nada mas a mesa é a primeira de todas as coisas.

     Animam-se os movimentos. O ruído dos talheres é suave. As bocas trituram e os olhos brilham. Laura relata uma conversa de vizinhança, apanhada na mercearia. Daniel procura inteirar-se do dia escolar dos filhos. Paulo responde de forma descolorida e vaga enquanto a irmã circunstancia o seu trabalho com pormenores. Ela é alegre e expansiva ao contrário do irmão, discreto e pouco comunicativo. O pai habilita-se a imaginar-lhes o futuro com a consciência das desfigurações que este tipo de hipóteses acarreta. Pedaços de planos arquitetados ao longo do tempo, desejando para eles uma vida equilibrada, melhor do que a sua: o curso, o casamento, os filhos, a segurança de um bom emprego, uma certa forma de projetar a vida que teria ainda de saltar o fosso das guerras de África.

         À medida que os anos avançam a guerra torna-se um pesadelo dentro de casa. Ninguém gosta de falar do serviço militar de Paulo embora saibam que nada o poderá evitar. Ai, se tudo se resolvesse até lá!… A política é um jogo de surpresas capaz de alterar os dados inesperadamente. Mas aqui as surpresas jamais acontecem… As pessoas estão mergulhadas na indiferença e nada dispostas a provocar surpresas.

         Secretamente, no fundo do seu pensamento de homem que aprendeu a temer a política, Daniel anseia pelo fim das colónias. Anseia por Paulo, por quantos Paulos foran e ainda serão obrigados ao sacrifício da sua juventude. Porque deverão ser esses a pagar os erros dos antepassados? Porque deverão ser os bodes expiatórios de interesses capitalistas alheios à sua vontade?

         O peixe assado está uma delícia. A cozinha de Laura tem um gosto, um toque que se prolonga até à última garfada. Aliás, tudo respira ordem dentro de casa. Em trinta anos de casado jamais teve de se insurgir contra qualquer falha doméstica. Laura tem sido uma mulher impecável.

         Há muito tempo que Daniel deixou de perguntar se ela é feliz. Aos cinquenta anos há perguntas que deixaram de fazer sentido. No decurso das suas vidas conviveram sem rixas, sem egoísmos, sem exigências, sem acusações mútuas. Amaram-se? É difícil responder. O amor é algo um tanto vago, um tanto dúbio. De acordo com as convenções pensa-se num amor absorvente e único. Mas o amor, como a paixão, é um sentimento passageiro. O tempo, a idade, a rotina, as inquietações, encarregam-se de o transformar num hábito vulnerável

         Após a fruta Paulo despede-se e sai para um encontro com colegas. Ana ajuda e mãe na cozinha e Daniel vai fazer o café na máquina que o compadre lhe ofereceu pelo aniversário. A televisão apresenta imagens de um terramoto na Pérsia. Daqui por pouco tempo virão imagens da guerra no Vietnam, um atentado à bomba em Milão, políticos discursando a fim de obterem apoio para os seus partidos ou para os seus governos.  Daniel não se encontra na Pérsia, tão pouco no Vietnam  e é impensável visitar a Itália. Quanto a partidos políticos foi sempre um marginal. Tinha amigos assanhados, daqueles que sonham virar o mundo para ser isto e mais aquilo, acabavam na cadeia comendo porrada. Seu pai tinha por hábito avisá-lo que os do poleiro de poleiro continuavam mesmo depois de apeados. Uma coisa era os doutores, outra os senhores e outra ainda os trabalhadores.

         Daniel estende sobre a mesa livros e documentos para classificar. Prepara a obscura tarefa de juntar os números que escreve, elegantes, sem rasuras, meticulosamente alinhados nas colunas. Este trabalho de guarda-livros doméstico permite equilibrar o orçamento. Viver de cabeça levantada exigia uma labuta de doze horas diárias sem desfalecimentos.

         Laura e Ana arrumaram a cozinha e vêm para junto dele. Trocam palavras curtas sobre assuntos vulgares; distraem-se com a televisão ou a mãe fazendo malha. A filha resiste pouco tempo e prefere a leitura no quarto.

         Daniel risca um fósforo e acende um cigarro. Fixa-se na mulher, no movimento ágil dos dedos a manobrarem as agulhas. Há uma certa angústia na brasa do cigarro, no silêncio da casa cortado pelo som do televisor que serve para tornar o seu mundo interior menos penoso. Que outra coisa poderia ele ter sido senão aquilo mesmo? Um homem de números, conhecendo-os como os dedos das mãos, tratando-os sem segredos. Aos vinte e cinco anos podia ter-se abalançado a montar loja ficando por detrás de um balcão a esticar fazenda. Recusou-se. Tais aventuras eram para gente de cabedais ou sem temor do risco e ele fora sempre indivíduo de hábitos modestos. Viu companheiros triunfarem enquanto se mantinha fiel à repartição.

         Daniel gosta de ver algumas séries televisivas. Conhece-lhes os truques e as fórmulas, todavia o seu tempo é escasso e não pode desperdiçá-lo com heróis e aventureiros. A vida para quem a tem de abrir como um arado abre a terra é um testemunho exigente. A partir de um momento definha como todas as coisas pelo que vai perdendo o reservatório criador de esperança na felicidade. A esperança morre e o desencanto triunfa.

         Sua existência obedeceu a dois mandamentos: obediência e regularidade. Assim estabeleceu uma linha horizontal sem interrupções, nem uma cigana que um dia lhe leu a sina se atreveu a apontar sequer uma viagem por mar. Os homens como ele constituíam o fundo cinzento da história.

         Muita coisa apresentava-se numa atmosfera nebulosa que se esforçava por interpretar. Vivia-se um ritmo novo de solicitações inesperadas. A velocidade modificava de raiz comportamentos das pessoas. Via pelos filhos cuja conduta reflectia esta nova época. Muitas vezes surpreendera nos seus olhos a dificuldade em compreenderem o destino baço dos pais. Mão era compaixão nem reprovação por aquela vida prisioneira de um ciclo de conformismos. Era antes obstinada negativa em aceitarem tais fados e a firme exigência de obter outras respostas. Aliás, a juventude quer-se inconformista. Ele procurava compreendê-la mas confessava a si próprio ser um esforço cada vez mais difícil. Tudo avançava em turbilhão e os valores sociais substituíam-se num processo alucinante. A vida sendo cada vez mais longa também o era cada vez mais curta. Ele sentia-se a ficar para trás, pequeno e só, na incapacidade em se adaptar a um novo mundo.

         A série termina. Laura desliga o televisor e ele pede-lhe um café. A mulher tem sono. Daniel retoma o trabalho com a lentidão que a fadiga impõe. O serão progride devagar. A noite progride devagar. Ele gosta de adivinhar a noite: o silêncio do tempo, a viuvez dos passos, a solidão do pensamento.

         Sobre o tanpo da mesa Laura coloca o café deitando-lhe duas colheres de açúcar. Daniel espreguiça-se. Laura dá-lhe um beijo.

         – Boa noite!

         – Boa noite.

         Daniel fica só com os olhos parados na jarra com flores de plástico, a chávena junto aos lábios e o café a correr em goles pela garganta. Repousa o seu tempo sobre os móveis sem outro desejo que não seja deixar os selados prontos.

         Era assim do dia um ao dia trinta de cada mês, todos os meses de todos os anos.

        

Algueirão

Maio de 1973

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