AS ELITES INTELECTUALMENTE FALIDAS AMEAÇAM O NOSSO FUTURO, por MARTIN WOLF

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

As elites intelectualmente falidas ameaçam o nosso futuro

Martin Wolf

Finantial Times, 14 de Janeiro de 2014

Os nossos dirigentes ricamente recompensados pela sua mediocridade não podem merecer a nossa confiança quando as coisas vão mal

elites

©Ingram Pinn

Em 2014, os europeus comemoram o 10º aniversário do início da primeira guerra mundial. Esta calamidade atirou-nos para três décadas da ferocidade e da estupidez, destruindo a maioria do que de bom havia na civilização europeia do começo do século XX. No final, como Churchill previu em Junho de 1940, “o novo mundo, com todo o seu poder e vontade ”, teve que avançar “para resgatar e salvar o velho Mundo”

As elites políticas, económicas e intelectuais verdadeiramente falidas criaram o desastre que aconteceu aos seus povos entre 1914 e 1945. Foi a sua ignorância e os seus preconceitos que permitiram a catástrofe: as ideias falsas e os falsos valores estavam a fazer o seu trabalho. Estas ideias e estes valores incluíram a crença atávica, não apenas de que os impérios eram magnificentes e rentáveis, mas também que a guerra era gloriosa e controlável. Tudo se passava como os líderes das grandes nações tivessem sido apanhados e atraídos para uma vontade de suicídio colectivo.

As sociedades complexas confiam nas suas elites para obter as coisas, se não correctas, pelo menos não grotescamente erradas. Quando as elites falham, é provável que a ordem política se venha a desmoronar, como aconteceu às potências derrotadas depois da primeira guerra mundial. Os impérios russo, alemão e austríaco desapareceram, deixando que fracos sucessores tivessem sucesso pela via do despotismo. A primeira guerra mundial destruiu igualmente as bases da economia do século XIX: livre-troca e padrão ouro. As tentativas para a restaurar produziram mais incapacidades nas elites, nesta época tanto nos americanos como nos europeus . A Grande Depressão fez muito para criar as condições políticas que nos levassem à segunda guerra mundial. Seguiu-se-lhe a guerra fria, um conflito das democracias com uma ditadura que ela mesma um resultado das condições geradas pela primeira guerra mundial.

Os funestos resultados da falência das nossas elites não são de surpreender. Um acordo implícito existe entre as elites e os povos: as primeiras obtêm os privilégios e os emolumentos do poder e da propriedade; os últimos, por contrapartida, obtêm a segurança e, no tempos modernos, uma certa ideia de prosperidade. Se as elites falham, arriscam-se a serem substituídas. A substituição das falhadas elites económicas, burocráticas e intelectuais é sempre preocupante. Mas, em democracia, a substituição de elites políticas é, pelo menos, rápida e sem sangue. Num regime déspota , será geralmente lenta e quase sempre com sangue.

Isto não é apenas história. Permanece ainda hoje como verdade. Se olharmos para as lições directamente da primeira guerra mundial para o nosso mundo, nós vemos-las não na Europa contemporânea mas no Médio Oriente, nas fronteiras da Índia e do Paquistão e nas relações difíceis e tortuosas entre uma China a crescer fortemente e os seus vizinhos. As possibilidades de erros de cálculo mortíferos existem em todos estes casos, embora as ideologia do militarismo e do imperialismo estejam, felizmente, hoje menos dominantes do que há um século atrás. Hoje, os estados poderosos aceitam a ideia de que a paz é mais conducente à prosperidade do que as miragens ilusórias da guerra. Contudo isto não faz, significa que o Ocidente esteja imune às falhas das suas elites. Pelo contrário, está a viver com elas. Mas as suas falhas são falhas na gestão da situação de paz , não de guerra.

Há aqui três grandes e visíveis falências .

Primeiramente, as elites económicas, financeiras, intelectuais e políticas na sua maior parte compreenderam muito mal as consequências de terem dado prioridade absoluta à liberalização financeira. Tranquilizados pela fantasia dos mercados financeiros auto-regulados, auto-estabilizados, não somente permitirem como também encorajaram uma dolorosa aposta, e altamente lucrativa para o sector financeiro, na expansão da dívida. A elite política falhou ou seja não soube avaliar os riscos decorrentes dessa mesma aposta e, sobretudo, nos riscos de uma crise sistémica. Quando esta apareceu, os resultados dessa crise sistémica eram desastrosos em diversas dimensões: as economias desmoronaram; o desemprego disparou; a dívida pública explodiu.A elite política foi desacreditada por sua falência em não ser capaz de impedir o desastre. A elite financeira foi desacreditada ao ter necessidade de ser resgatada. A elite política foi desacreditada pela sua grande vontade em financiar o resgate da finança. A elite intelectual – economistas – foi desacreditada por sua incapacidade em ser capaz de antecipar uma crise ou em estarem de acordo sobre o que fazer depois da crise ter rebentado . O salvamento era necessário. Mas a opinião que os contribuintes foram sacrificados a favor dos interesses poderosos dos culpados mostrou-se estar correcta.

Em segundo, nestas três últimas décadas nós vimos aparecer uma elite económica e financeira globalizada . Os seus membros tornaram-se sempre mais desligados dos paíse sem que foram criados. No processo, a cola que liga toda e qualquer democracia – a noção da cidadania – enfraqueceu-se. A apertada distribuição dos ganhos do crescimento económico dinamiza ainda mais esta evolução, este desenvolvimento. Isto, então, é cada vez mais uma plutocracia. Um grau de plutocracia é inevitável nas democracias construída, tanto quanto estas e devem ser economias de mercado. Mas é sempre uma questão de grau.

 Se a maioria das pessoas vê as elites económicas a serem recompensadas ricamente pelo seu desempenho medíocre e interessadas somente nos seus próprios interesses, a esperarem serem resgatadas financeiramente, contudo, quando as coisas vão mal, as ligações em que assenta a democracia rompem-se. Nós podemos estar apenas no início desta deterioração que se irá verificar plenamente a longo prazo.

Em terceiro lugar, ao criarem o euro, os europeus assumiram o seu projecto para além do que seria prático em qualquer coisa muito mais importante para as pessoas: o destino do seu dinheiro. Nada era mais provável do que a criação de fricções entre os europeus sobre a forma como o seu dinheiro deveria ser gerido ou mal gerido . A crise financeira provavelmente inevitável tem levado á criação de infinitas dificuldades que ainda hoje estão por resolver. As dificuldades económicas das economias afectadas pela crise são evidentes: fortíssima recessão, desemprego extraordinariamente elevado, emigração massiva e enormes dívidas de difícil liquidação. Tudo isto é conhecido. Contudo é a desordem constitucional da zona euro que devemos sobretudo sublinhar . Dentro da zona euro, o poder está agora concentrado nas mãos dos governos dos países credores, principalmente a Alemanha e3 num trio de burocracias não eleitos – a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. As pessoas dos países adversamente afectados não têm nenhuma influência sobre estas Instituições, sobre as personagens que as dirigem. Os políticos que face a estas mesmas pessoas são consideradas responsáveis não têm nenhum poder. Este divórcio entre a responsabilidade e o poder está no centro de toda a noção da governança democrática. A crise da zona euro não é apenas económica. É igualmente constitucional.

Nenhuma destas falhas tem qualquer equivalente na loucura de 1914. Mas estas são suficientemente grandes para causar dúvidas sobre as nossas elites. O resultado é o nascimento do populismo agressivo a Ocidente, na sua maior parte um populismo xenófobo de direita. A característica dos populistas de direita é a de que nos fazem regredir económica e socialmente. Se as elites continuam a falhar, nós iremos assistir a um crescendo dos populismos agressivos. As elites precisam de fazer bem melhor do que o que têm feito. Se o não fizerem, a fúria das populações pode esmagar-nos a todos.

http://www.ft.com/intl/cms/s/0/cfc1eb1c-76d8-11e3-807e-00144feabdc0.html#axzz2wvyLPu9k

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