SÃO AS INUNDAÇÕES DA GRÂ-BRETANHA O KATRINA DE DAVID CAMERON? por SIMON WREN-LEWIS – Introdução “A CULPA É SEMPRE DOS OUTROS” por JÚLIO MARQUES MOTA

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

mapa-reino-unido

São as inundações da Grâ-Bretanha o Katrina de David Cameron?

Simon Wren-Lewis

Há três razões pelas quais o governo deve estar muito preocupado com as consequências políticas resultantes dos níveis das inundações sem precedentes na Inglaterra.

cameron - I

1) Quando entraram nos seus gabinetes de trabalho, depois da tomada de posse do governo, uma das primeiras coisas que os ministros fizeram foi reduzir substancialmente o financiamento para a prevenção de inundações, quando nesta matéria havia uma clara necessidade de aumentar os gastos. Isso é um facto simples, que nenhuma grande capacidade de brincar às médias  das estatísticas  pode contornar. O Guardian relatou em Junho de 2012 “que 300 esquemas de protecção contra as inundações foram deixados por construir por toda a Inglaterra devido a cortes de orçamento determinados pelo actual governo”.

cameron - II Até 2010, as despesas com a  protecção contra as cheias tinham aumentado continuamente: entre 1997 e 2010, em que estas aumentaram 75% em termos reais. Existem boas razões porque é que as despesas devem aumentar. E tem sido assim porque as mudanças climáticas são cada vez mais susceptíveis de aumentar substancialmente as probabilidades de períodos de chuvas fortes. Os custos das inundações andam actualmente à volta de mil milhões de libras anuais em média, mas a Agência estimou que este valor pode subir para cerca de 27  mil milhões de libras até  2080.

Quando o governo actual chegou ao poder, decidiu fazer cortes de 20% em termos reais nas despesas com as questões do meio ambiente, conforme o afirma  o organismo Committee on Climate Change. As cheias havidas em 2012 levaram a que o governo tenha aumentado levemente as despesas nesta matéria – o que se mostra  a roxo no gráfico acima. Assim em vez da continuar a investir na protecção contra a ameaça crescente de grandes inundações, o governo fez marcha atrás reduzindo as despesas como fazendo parte do seu programa de austeridade.

O Guardian afirmava:

Centenas de protecções contra as cheias não foram realizadas devido aos cortes orçamentais

The Guardian,  14 July 2012

Hebden Bridge hit by floodwaters that surround its cinema and local shopsLegenda: Cheias em  Hebden Bridge no  Yorkshire. Photograph: John Giles/PA

2) A razão pela qual havia necessidade de aumentar os gastos na prevenção de inundação tem a ver com as mudanças climáticas. Isso foi bem compreendido pelos organismos públicos e departamentos ligados a estas questões, não sendo portanto  nenhuma surpresa que o Instituto de Meteorologia nos venha confirmar a ligação. Assim, a coligação no poder  está muito vulnerável sobre este grande problema porque muitos dos seus membros do Parlamento são cépticos activos sobre as questões climáticas,  incluindo o ministro responsável pelo respectivo departamento.

3) A filosofia do governo para o sector público é a de reduzir as despesas ou de privatizar. Sem dúvida, há algumas áreas onde isso faz sentido, mas noutras, está, sem dúvida, a provocar muita angústia e sofrimento. E é assim até porque os que são mais afectados geralmente têm pouca voz política e consequentemente  não são muito visíveis. Além disso, muitos membros do governo têm incentivado a ideia de que os destinatários do bem-estar são ou indignos ou vítimas de uma cultura de dependência. Em contraste, as vítimas das cheias são muito visíveis, e uma estratégia de culpar as vítimas aqui não funciona politicamente.

Assim, até agora as tentativas do governo para evitar as críticas têm sido extraordinariamente bem-sucedidas. A estratégia era clara – responsabilizar os organismos encarregadas das questões do meio ambiente. Não a culpar  aqueles que estão a trabalhar no terreno, que estavam obviamente a trabalhar no duro, mas sim a gestão pública encarregada destas matérias, em particular o seu Presidente, Chris Smith. A história foi a de que a organismo público responsável pelas questões do meio ambiente tinha dado ao governo um conjunto errado de sugestões.

Essa estratégia tem sido notavelmente bem sucedida em grande parte porque a BBC tem desempenhado ao longo deste período o papel que lhe estava planeado. À primeira vista tudo parece, como o afirmou Simon Jenkins, ter-se permitido « ao ramo de  Somerset do  NFU  escrever os seus noticiários.»[1] Quando se trata de cortes, ou se fala das formas diferentes da terra ou então não se fala de coisa nenhuma. Ao vir de carro para casa, hoje, ouvi o noticiário do rádio 4 para as 5 pm que levou 20 minutos a falar sobre as ramificações políticas das inundações e quanto aos cortes nas despesas públicas não se falou uma só vez!

No entanto como a chuva continua e as inundações a aumentarem, essa estratégia de diversificação perderá a sua força e sobretudo à medida que os factos se tornarem mais amplamente conhecidos. O Financial Times relata hoje que “o organismo público tem estado a suportar sucessivos e massivos cortes ” no seu orçamento desde que o governo de Cameron chegou ao poder, apesar dos avisos, que isso afectaria a sua capacidade de defender o país contra as inundações, disse o presidente deste organismo público na segunda-feira.” Há um mês o Daily Telegraph relatou ” os funcionários que trabalham na gestão de risco de inundações vão ser demitidos na agência do ambiente porque tem de reduzir aproximadamente 15 por cento da mão-de-obra para poupar nas despesas, colocando potencialmente a capacidade de protecção contra as inundações em risco”. Os cortes a esta escala são difíceis de passar como “ganhos de eficiência’ em aldeias e regiões que estão agora isoladas pelas inundações.

Como observou Alex Andreou, a prevenção de danos provocados por enchentes e a resposta a situações de emergência “exige uma resposta firme e bem coordenada a todos os escalões e com as despesas feitas a partir das receitas fiscais para aliviar os graves problemas provocados, com base na estrita necessidade, ao invés de o ser pelo merecimento. Ao mesmo tempo, todas as fibras ideológicas na alma de um neoliberal devem estar bem rebeldes.” Ainda, como Rick sublinha, muito do perigo das inundações vêm dos esgotos e das sargetas bloqueadas, entupidas, e tudo isto é da responsabilidade das empresas privadas de abastecimento da água. Esses monopólios têm recebido o seu bom quinhão de críticas por não fazerem o suficiente enquanto vão continuando a ter grandes lucros

Os cortes na prevenção das inundações são uma pequena parte da austeridade, mas há aqui paralelos próximos com a situação macroeconómica. Da mesma forma que os ministros alimentaram a secreta esperança que uma boa situação climática não revelaria a loucura de se andar a cortar na prevenção contra as cheias, os mesmos ministros também esperavam que a recuperação económica que começou em 2010 iria continuar e não ia descarrilar por causa de acontecimentos como a crise do Euro. Em ambos os casos não tiveram sorte. Da mesma forma que alguns ministros do actual executivo nunca acreditaram nesse discurso das mudanças climáticas, outros ou até os mesmos também acharam que esta ideia keynesiana de que a austeridade pode ser uma má ideia quando se está já no limite inferior das taxas de juro zero era uma ideia do domínio da fantasia e era, portanto, de rejeitar. (Alguns, como George Osborne, o Gaspar português mas intelectualmente mais indigente ainda, parecem ter pensado muito em cada uma destas ideias neoliberais). Quando estes erros se tornaram evidentes, como com as inundações, então a culpa é da Agência do meio ambiente e do último governo, que era trabalhista, enquanto com a recessão a culpa não é do governo mas é ela também culpa dos malditos europeus e, claro, também do último governo. Por outro lado, poder-se-á ainda pensar que as ligações entre a austeridade e recessão prolongada possam parecer misteriosas para muitos, mas as ligações entre a falta de meios de prevenção das enchentes e as grandes inundações são agora muito óbvias. E o verdadeiro perigo para o governo é que, talvez, outros possam começar a ver estes paralelos.

Simon Wren-Lewis, Are the UK floods Cameron’s Katrina?  Texto disponível no blog   Mainly Macro, cujo endereço é:

http://mainlymacro.blogspot.co.uk/2014/02/are-uk-floods-camerons-katrina.html

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[1] NFU- National Farmers’ Union

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Para ler a Introdução de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

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