SÃO AS INUNDAÇÕES DA GRÂ-BRETANHA O KATRINA DE DAVID CAMERON? por SIMON WREN-LEWIS – Introdução “A CULPA É SEMPRE DOS OUTROS” por JÚLIO MARQUES MOTA

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

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Introdução- A culpa é sempre dos outros

Um texto bem claro quanto à tragédia na Inglaterra onde as semelhanças com o Katrina dos tempos de George W.  Bush são evidentes.  Na época, a primeira potência mundial portou-se como um país do Terceiro Mundo, quer pelas razões que deram aso ao desastre de Nova Orleãs, a ausência de obras de reparação ou mesmo de renovação dos diques, quer na ajuda a prestar às populações atingidas. Hoje, com grande parte da Inglaterra alagada,  sabe-se  que as razões são as mesmas, cortou-se nos meios de protecção às populações, reduziu-se o número de efectivos na protecção civil . A culpa seria aqui da Agencia para o meio ambiente e não dos cortes feitos pelo actual governo. Mas a culpa nunca morre solteira, era preciso um parceiro e isto foi  fácil: o segundo culpado seria então o governo anterior.

O comportamento aqui assinalado não difere do comportamento de Passos Coelho mas, o mais curioso, também  não difere do de Putin! Como, perguntar-me-ão.

Em tempos, escrevi uma peça sobre a política  de cretinização da nossa juventude  tomando como referência a reforma do ensino superior, dita reforma de  Bolonha, feita ela também para economizar nos custos para o contribuinte e relacionava a situação do ensino em Portugal com a redução do papel do Estado, como na Rússia de Putin, com os fogos à porta de Moscovo, porque tinham reduzido drasticamente o corpo de bombeiros. A mesma temática com que se debate actualmente a Inglaterra, com as reduções drásticas de despesas mesmo na protecção contra os acidentes naturais, como as cheias que agora alagam a Inglaterra. Os paralelos são evidentes.

Coloquei então:

“ A especulação e a desregulação num quadro de crise económica e social

Neste texto, optámos por apresentar um exemplo tirado da economia americana para caracterizar e ilustrar a profundidade de conhecimentos que se deve exigir a um estudante de economia no mundo de hoje, o que é completamente o contrário do que é possível com a reforma de Bolonha. O exemplo escolhido foi a análise do mercado dos cereais e em particular o do trigo na principal Bolsa de mercadorias do mundo, o Chicago Mercantile Exchange. Não foi por acaso que escolhemos este exemplo e escolhemo-lo por uma série de razões, todas elas graves no contexto de crise presente, razões que passamos a expor:

1.      O trigo é um produto base na alimentação de muitos milhões de pessoas, cujos preços têm sido sujeitos a fortes oscilações e objecto de subida continuada durante um certo período de tempo, o que levou muitos milhões de pessoas à situação de fome.

2.      Trata-se de um mercado determinante no estabelecer do preço de um bem fundamental, o pão, preço esse que serve de referência para os agricultores de todo o mundo.

3.      Sobre o mercado do trigo, tomámos conhecimento de um documento de Junho de 2009 do Senado americano intitulado Excessive Speculation in the Wheat Market que é um claro exemplo do que deve ser um trabalho feito a nível governamental. Não conhecemos nada na Europa de equivalente. A análise em questão debruça-se em profundidade sobre o que são os produtos derivados nestes mercados e todos sabemos que aqueles foram elementos chaves na presente crise. Neste texto sublinham-se bem as diferenças entre as políticas da Administração Roosevelt e as políticas neoliberais das últimas décadas que desregularam completamente estes mercados.

4.      A partir do documento referido, podemos discutir, no limite do possível, a problemática dos efeitos da especulação sobre os mercados de matérias-primas e de produtos alimentares bem como a necessidade de que esta seja contida em certos limites, os limites de bona fide de que falaremos depois, e que pressupõem uma vigilância constante da especulação nestes mercados se queremos que eles cumpram os objectivos para que desde longa data foram criados.

Como é evidente, tudo isto pressupõe um profundo conhecimento destes mercados, e mesmo para lá deles, tanto quanto hoje estes se enquadram e são determinantes na economia global. Conhecimento profundo, é esta pois a tónica do exemplo escolhido, por contraponto, uma vez que o tema fundamental é a análise da reforma de Bolonha e os seus efeitos na qualidade no ensino superior.

O hábito, a incapacidade ou a intenção de uma leitura redutora e simplificadora sobre a realidade, como aconteceu com a destes mercados, levaram a que se tenha feito silêncio total ao nível dos media, e sobretudo no meios académicos, sobre o facto de nada se ter feito para que a especulação ficasse condicionada a parâmetros que tecnicamente se considerem aceitáveis e tanto mais quando estamos num contexto que necessariamente exigiria posições reguladoras firmes, dada a situação de crise actual e de crise alimentar eminente. Nada, absolutamente nada foi feito. Tudo se passa como se nada tenha acontecido. Portanto, a partir deste contexto, é natural que à mínima oportunidade, a especulação viesse galopante à procura de lucros fabulosos. Produz-se a instabilidade, produz-se a volatilidade dos preços, que de seguida haverá necessidade de cobertura, de tomada de posições contra o risco, garantindo-se de novo muitos milhões para os especuladores e traders. É afinal o que se tem estado a passar. Cria-se artificialmente a instabilidade, cria-se um mercado de coberturas múltiplas para o risco criado, constroem-se visões simplificadas da realidade, vende-se essa visão da realidade à sociedade e de tal modo que a aceitam sem a questionar! No mundo assim recriado, os bancos renovam os seus ganhos mirabolantes, os hedge funds encontram de novo um novo produto e um novo mercado para especular, centrando aí as suas atenções, os traders continuam a receber bónus numa escala de valores que fazem “morrer de inveja” os desportistas mais bem pagos, ao mesmo tempo que se continuam a pressionar os Estados para conter as suas despesas e não aumentar os impostos sobre o capital.

No caso dos cereais e no momento presente, os fogos na Rússia constituíram a faísca que acendeu o rastilho. Os industriais e, em particular, os especuladores  passaram a efectuar compras sem limites, na expectativa da subida dos preços, e estes dispararam — o trigo aumentou 70% num mês, passando de 130 euros a tonelada no início de Julho para 224 euros no final de Agosto[1]. E tudo isto enquanto os organismos internacionais ligados a estes produtos continuaram a garantir que não havia problema de ruptura de stocks.

Vale a pena referir que o aparecimento destes incêndios na Rússia está ligado ao mesmo modelo, o neoliberalismo, assente na minimização do papel do Estado e nas privatizações de tudo o que é possível em quadros de desregulação. Foi o que se passou com as florestas na Rússia. Com efeito, em muitas cidades os quartéis de bombeiros deixaram de ter financiamento ou foram mesmo encerrados e reduziram-se os efectivos de bombeiros. As privatizações forçadas agravaram ainda a situação. Para além disto, a legislação sobre as florestas regionalizou a gestão de cerca de 800 milhões de hectares de florestas do país para grande proveito dos oligarcas russos da madeira e do papel. Abolindo os serviços centrais, suprimiram-se 70.000 postos de guardas florestais, quadros importantes na conservação da floresta, importantes na gestão e na prevenção dos incêndios. Lá, afinal, como noutros sítios reduzem-se “recursos” quando mais se pode precisar deles e com argumentos semelhantes: reduzir as despesas imediatas do Estado, do contribuinte, numa visão curta e de muito curto prazo do próprio Estado, numa visão característica dos mercados financeiros!

Regressando ao mercado de cereais, o que é que nos dizem os traders destes mercados? Vale a pena citar um dos seus sites (Forex.fr):

Os preços das matérias-primas agrícolas explodiram no espaço de alguns meses. Que seja a cevada, o trigo ou ainda o café, as matérias-primas conhecem uma subida vertiginosa e os media atribuem-na frequentemente, o que é errado, aos incêndios devastadores que se verificaram na Rússia que levaram o país a instalar um embargo às exportações.

Este embargo inegavelmente, contribuiu para levar os preços à alta. Todavia, a tendência já existia e desde há muito tempo: o mercado das matérias-primas agrícolas, depois de anos de escassez, enfrenta um reajustamento brutal desde há alguns meses.

Evidentemente, que os especuladores, que foram acusados desde 2008 pela opinião pública e pelo poder político, esfregam as mãos e ganham com a tendência, acentuando-a inevitavelmente. Todavia, eles não têm o poder, na situação actual, de influenciar de modo decisivo as cotações.

Desde meados de Junho, a cotação da cevada subiu mais de 130% enquanto no mês passado o preço do trigo subiu cerca de 70%. Um movimento similar deu-se com o café arábica que atingiu recentemente o seu nível mais elevado desde 1997, em Nova Iorque. Esta subida explica-se por um movimento técnico que é a resultante:

— de um reajustamento dos preços em função da oferta e procura;

— de uma degradação das colheitas ao nível mundial e de uma inquietação relativamente à fragilidade das colheitas em face da multiplicação de acontecimentos climáticos devastadores;

— de uma desorganização dos circuitos de abastecimento dos mercados;

— e, por fim, de uma má regulação do mercado.

Os especuladores estão longe de ser os principais responsáveis desta crise. Contudo, a resposta a esta crise do mercado tem que estar ligada à oferta e à procura, um grande clássico da análise económica, e à incerteza quanto à capacidade dos homens enfrentarem as catástrofes naturais, cada vez mais frequentes e devastadoras.

Este excerto exemplifica bem o que é que os traders pensam de tudo isto. Não há nada a fazer, pois as variações dos preços estão já inscritas nas tendências da economia e nas suas velhas leis! E o nosso exemplo tem assim  uma dimensão que já esperávamos desde há meses, é certo, mas não a este nível e não com esta rapidez, também. E, aqui de novo, a questão do conhecimento sobre a realidade a ser posta em evidência, a necessidade de se ir para além do que aparece como certo, os dados do mercados, de novo a necessidade também de uma capacidade crítica a tornar-se inquestionável até mesmo ao nível das teorias sobre a formação ou determinação de preços . Capacidade crítica necessária e cada vez mais urgente, sublinhe-se. Falamos de uma capacidade crítica bem patente no texto do Congresso americano, a que nos voltaremos a referir mais à frente, sobre a evolução dos preços dos cereais e que era bom ser parte da bagagem intelectual dos nossos estudantes. Impossível com Bolonha.

Nada foi até agora realizado, como nada foi realizado também antes, em 2007-2008, porque se trata e tratava de preços revelados pelos mercados e, sendo assim, as consequências sociais da sua evolução nada têm a ver com as bolsas. Como assinalou um diplomata a Phillipe Chalmin, “a questão da fome no mundo foi posta de lado pela crise financeira e pelas questões climáticas …A subalimentação torna-se um assunto da maior relevância quando rebentarem as novas marchas contra a fome”. As revoltas da fome de 2008 ainda permanecem na memória de muita gente. Todos os ingredientes que tinham conduzido a esta situação estão de novo activos. Os preços dos bens agrícolas continuaram a aumentar e a conhecerem fortes flutuações, e a especulação sobre o petróleo agora como na altura ajudará à tragédia. Até esta voltar a acontecer, a dinâmica da especulação refará o caminho já anteriormente percorrido.”

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2014

Júlio Marques Mota

(continua)

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[1] Imagine-se então quanto terão ganho os homens de Glencore, grande empresa de negócio, líder mundial, sediada num paraíso fiscal, em Zoug, na Suiça. Os seus homens convenceram Putin que face aos fogos o melhor seria proibir as exportações de trigo. Entretanto terão comprado milhões de toneladas de trigo nos mercados a prazo, nos mercados de futuros. E os preços dispararam. No final dos contratos , fizeram a compensação: compraram por exemplo  a 2 euros Kg  de trigo e no mercado na data de vencimento do contrato o preço estava, por exemplo, a 3 euros o Kg. Ganharam, sem nada fazer, um euro por Kg.  E entretanto fazem-se teorias a justificar a não regulação dos mercados!

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