Um das conclusões, e que não será das menos importantes, que resulta do rescaldo do que genericamente se pode designar de Crise da Ucrânia, foi o da necessidade de se avaliar o que é realmente a União Europeia (UE), e qual o papel que desempenha na conjuntura internacional. Não escapou a muita gente, apesar dos esforços em contrário dos mentores da grande comunicação social, que o papel da UE no assunto, apesar dos esforços de alguns dos seus dirigentes, foi secundário. Os registos de alguns telefonemas entre diplomatas e políticos apenas o vieram confirmar.
Muitos portugueses discordarão da ideia do papel secundário da UE na cena internacional , apontando os vexames a que o nosso país tem estado sujeito, desde que entrou para a então Comunidade Europeia. A constatação do falhanço das mirabolantes promessas que na altura foram feitas, e a participação entusiástica de Bruxelas e do BCE na troika, contribuirá para que se conclua que a União Europeia existe de facto, mas que a nossa integração não nos beneficiou, pelo contrário. Há boas razões para se pensar assim, mas é necessário ir mais longe na análise. O nosso futuro depende de muitos factores, e a compreensão dos que têm origem no exterior é imprescindível. A chamada integração europeia vai avançando, não da melhor maneira, mas questões como por exemplo a união bancária, poderão ter efeitos para os portugueses ainda mais complexos do que a integração na zona euro. Obviamente que a UE não existe apenas no papel, mas nunca será demais chamar a atenção para o papel dominante da Alemanha no seu interior, e para o endeusamento dos mercados, visível em todos os planos da vida pública e pessoal.
A própria designação – UE – é perfeitamente discutível. Está à vista de todos que quem tem beneficiado da política desenvolvida a seguir à Segunda Guerra Mundial, na Europa, foram a Alemanha e os Estados Unidos. A primeira, com enormes responsabilidades nas guerras mundiais do século XX (únicas verdadeiramente mundiais na história da humanidade), conseguiu emergir da derrota sofrida, reunificar-se, e parece querer voltar a ser uma potência de primeiro plano da cena mundial. Os segundos, têm toda a sua estratégia internacional centrada na detestável ambição de se conservarem como uma superpotência, e continuarem com o papel de polícia do mundo, que ninguém, para além das suas classes dirigentes, lhes outorgou. Tiveram um papel decisivo na criação da UE, o que determinou a tomada de posição dos países europeus no conflito leste-oeste, complementando a NATO. Hoje, os Estados Unidos ambicionam celebrar com ela um tratado de livre comércio, que levará, se for posto em prática, à extinção da União Europeia.
A União Europeia não existe na plena acepção da palavra. A discussão tem de continuar no sentido de se vale a pena criar uma nova.


[image: Imagem intercalada 1]Maria