Introdução
Ventos gelados vêm de Leste e estão a complicar ainda mais o nosso futuro
Dedico este meu texto e todo o caderno anexo aos estudantes Flávio Nunes que hoje faz anos e à ucraniana de nome Viktória que nunca mais vi. |
Júlio Marques Mota
Ventos gelados vêm-nos de Leste gerados por um terramoto cujo epicentro estará em Bruxelas e alimentado pela ganância de todos aqueles que a partir desta capital pretendem dominar o mundo por mão própria ou a soldo de outros interesses ainda mais obscuros. A Ucrânia aí está a mostrar os efeitos dessa ganância. A Crimeia também está agora aí a mostrar essa mesma realidade, como sendo o seu reflexo mais imediato mas outros tantos Estados destruídos a Leste pelo tsunami brutal criado por Bruxelas e Washington estarão brevemente a aparecer. Olhe-se já para alguns deles, em especial para a Sérvia, mas há já outros na calha… e não serão poucos.
Aos nossos leitores, e para já, tomo a liberdade de lhes sugerir dois filmes hoje compráveis, dois documentários brutais, um de Ulrich Seidl, Import-Export, e o outro legendado em português, que tem como título A morte do homem trabalhador– 5 Trabalhos do Século XXI, de Michael Glawogger que tem um capítulo sobre uma zona da Ucrânia que dentro em breve irá encher as páginas dos jornais, a região de Donbass. Sintomático já da política suicida do novo governo de Kiev e dos seus mandantes de Bruxelas e dos falcões de Washington: são já retirados os subsídios às minas de carvão e esta zona de influência russa, já de uma miséria extrema poderá então explodir. E irão querer entrar então para a zona de influência russa. Mais um foco que se quer então acendera partir de Kiev! Na linha de tudo isto e face à urgência de dinheiro perspectivam-se os programas de austeridade concebidos pelo BCE e pelo FMI. Estamos face a um país completamente endividado. A dívida externa total é em 2013 de US $ 140 mil milhões, o que representa quase 80% do produto interno bruto (PIB), dos quais 65 mil milhões são dívidas de curto prazo. De acordo com o novo governo, a Ucrânia vai precisar de US $ 35 mil milhões em 2014 e 2015 para cumprir os seus compromissos. Em particular deve 1,5 mil milhões de dólares para a Gazprom. A austeridade está então na ordem do dia e nos moldes pelos portugueses já bem conhecidos, infelizmente. Os discursos do chefe do governo da Ucrânia, Arsenii Yatsenyuk, não são muito diferentes dos de Passos Coelho quando fala de cortes, de privatizações, e estamos a falar de um dos países mais pobres de toda a Europa!
Sobre o filme Import-Export deixem-me contar uma pequena história. Fiz parte de uma equipa que durante anos e com fracos recursos montou um Ciclo temático de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC. Viveu-se com o apoio da Caixa Geral dos Depósitos, da FCT, da Gulbenkian e da Fundação Luso-Americana. À medida que o Ciclo decorria e se afirmava com as suas características próprias e em que grandes especialistas vieram a Portugal nesse mesmo âmbito colaborar connosco, o Ciclo ia perdendo apoios financeiros. Naturalmente assim, primeiro a Fundação Luso-Americana, depois a Gulbenkian, depois a Caixa e por fim a última, à FCT, deixamos de pedir apoio e extinguimos a Iniciativa. Simples o motivo: é possível trabalhar com muito pouco, é impossível trabalhar sem nada. E cada sessão destas consumia-nos centenas de horas a todos nós que as organizávamos, por missão quase, diríamos.
Vem tudo isto a propósito da Ucrânia e do filme Import-Export. Para o Ciclo escolhia-se anualmente um tema geral, escolhiam-se depois os temas por cada sessão e procuravam-se depois um filme que se ajustasse ao pretendido. Neste caso, o tema geral era A Economia Global e os Muros da Repartição do Rendimento, curiosamente hoje tema central da crise na Europa e o tema específico da sessão em que o filme era projectado, tinha com o tema:
Economia Global, Muros da Repartição e as Fronteiras Internas e Externas na Europa.
Hoje são pois as fronteiras da Europa que estão no centro da turbulência que percorre todo o espaço europeu, mas são não só as fronteiras externas como as fronteiras internas que estarão incluídas nessa turbulência, como de resto o estavam naquele colóquio-debate e tanto assim que mais tarde convidámos Domenico Mário Nuti para nos falar desse mesmo problema, que agora e por estupidez, ignorância e avidez de Bruxelas e dos seus aliados está lamentavelmente na ordem do dia. Pois bem, foram e são estas fronteiras o tema deste conjunto de textos agora propostos para o blog A viagem dos Argonautas sobre um dos aspectos da crise na Europa, a da Ucrânia, porque a questão a Leste, surge do problema a Oeste, disso não haja dúvida e disso nos fala o texto infantilismos já publicado no nosso blog. Disso nos fala também, num texto recente e ainda não publicado nosso blog, Domenico Mario Nuti a propósito das políticas absurdas impostas aos povos europeus e tomando como centro da sua análise apenas as convenções de contabilidade afirma:
“A popularidade de contabilidade “caixa” pertence a um passado em que o controlo da oferta de dinheiro a fim de controlar a inflação era uma preocupação fundamental a todo o custo, mesmo se a acumulação dos juros da Administração Pública para com as empresas pudesse envolver o colapso da economia real.
Esta convenção contabilística já provocou imensos danos no decorrer da transição pós-socialista no início de 1990, quando o Fundo Monetário Internacional concedia mensalmente empréstimos à Rússia sob a condição de respeitar os limites de caixa para os défices do orçamento de Estado, incentivando assim a explosão dos pagamentos em atraso devidos às empresas ou de responsabilidades para com os funcionários públicos ou mesmo para com os pensionistas. Como os russos costumavam dizer, “Pay As You Go”, o que significa: primeiro paga, depois pode-se ir embora, os italianos chamados “esodati”, cujo direito à pensão era adquirido a partir da entrada na situação de reforma antecipada e que foi neutralizado pelo súbito aumento da idade da reforma decretada pela indefensável e não escrupulosa ministra do Trabalho Elsa Fornero do governo Monti, poderiam escolher a frase Pay As You Go” como seu lema.
Uma tal política tão obtusa e sem-sentido promovida pelo FMI na Rússia no começo dos anos de 1990, que adicionalmente impunha uma taxa de juro positiva e elevada em termos reais até aos níveis da usura, e uma taxa de câmbio sobreavaliada que lhe estava associada, conduziu ao desemprego massivo e à acumulação paralela de fortes dívidas entre empresas na ordem de 40% do volume de negócios da indústria transformadora. Esta desmonetarização da economia foi um dos mais importantes factores na transformação recessiva da Rússia nos anos de 1990 e que levou à destruição de mais de um terço do PIB russo. Na mesma linha, o acumular dos pagamentos em atraso é um dos factores que levaram a que a recessão italiana actual esteja acima da média europeia e da média do Eurogrupo.”
Os efeitos terríveis que as políticas impostas a Leste geraram são claramente mostrados no filme Import-Export e no capítulo do filme A morte do homem trabalhador- 5 Trabalhos do Século XXI, vê-se que até nisso são igualmente arrepiantes. Imagine-se o que poderá acontecer agora com os novos programas de cortes e mais cortes, para não falar igualmente de tudo isso num cenário de guerra. A significar então um longuíssimo calvário para a Ucrânia. .
Do filme Import-Export projectado em 2009 e sobre desse tema publicámos então uma brochura que o blog colocará em lugar disponível e garantidamente merece uma passagem de olhos. Passam-se por lá e descrevem-se por lá situações que afinal são equivalentes às que estamos a passar hoje e agora, aqui mesmo, em Portugal, em Espanha, na Itália, onde quiserem afinal nesta Europa vilipendiada pelos tecnocratas de Bruxelas. Naturalmente assim: os homens no poder são os mesmos, o modelo em que se apoiam é exactamente o mesmo, e naturalmente assim, os resultados obtidos terão inexoravelmente os mesmos. Nisto, como em tudo aliás, não há adivinhos, há sequências lógicas, há causas e há efeitos correspondentes.
Do filme recordo-me do antes da projecção. Não conhecíamos o filme, tínhamos apenas lido sobre ele muitas e boas referências mas a imagem da capa quando recebemos o filme estarreceu-nos: tinha a fotografia de uma ucraniana muito bonita e nua numa posição que dava a indicação de estar a fazer sexo oral com…um puff vermelho no chão! Ficámos aterrados. Passar um filme destes numa sala de cinema para jovens de 20 anos era complicado para não dizer politica e pedagogicamente arriscado. Ainda por cima, uma projecção inserida nos métodos de avaliação de uma disciplina como Economia Internacional. Pessoalmente, estaríamos apoiados nas múltiplas críticas sobre o filme que iam desde a do New York Times à do Le Monde mas…mesmo assim. Convidámos dois especialistas, figuras de grande cultura e representativas da Universidade em Portugal, Luís Reis Torgal e Isabel Pires de Lima, explicarem e comentarem o filme. Culturalmente, com eles estaríamos protegidos! O filme era espantoso de qualidade, ninguém errou, o filme era igualmente terrível pelo frio humano que percorria todo o filme e tão violentamente que parecia percorrer o próprio Gil Vicente. Os estudantes aguentaram o primeiro embate das imagens, a ucraniana Viktória ainda se quis levantar, mas um seu colega, o Flávio, disse-lhe que se os docentes de Internacional tinham escolhido este filme é porque merecia ser visto. No fim do filme, esta nossa aluna terá percebido que o filme era de um enorme respeito pelo seu povo e de oposição frontal à miséria em que este tinha sido colocado. O filme era economicamente violento pela realidade existente antes da queda do Muro de Berlim e pela realidade que a Europa transpunha para Leste a partir daí. No filme, da Europa exportavam-se máquinas de jogo e importavam-se mulheres bonitas de que mais cedo ou mais tarde o sistema europeu faria delas umas putas, para este grande bordel em que se está a transformar a Europa e que num futuro próximo irá ter o seu ponto de referência, como mega bordel, situado nos arredores de Madrid, pelas mãos de Las Vegas Sand Corporation. Neste caso tratava-se de exportar enfermeiras para a Áustria, uma vez que com o seu sistema nacional de saúde completamente estourado, precisavam de outros rendimentos. Curiosamente, o filme mostrava que a Europa rica não tinha quadros médios, como agora afinal, e que o digam as centenas de enfermeiros que tratam das maleitas dos velhos e dos doentes dos países ditos ricos. Agora são os nossos enfermeiros e enfermeiras que fazem esse percurso, para a Inglaterra e algures mais. Dito de forma mais directa, pelos vistos querem fazer dos países ditos periféricos como Portugal, Espanha, Chipre, Malta, Grécia, espaços económicos semelhantes à Ucrânia de então, uma vez que agora esta é lançada na descida aos infernos.
Simples, o filme Import-Export falava-nos do Ocidente, falava-nos do Oriente, de um Ocidente que conseguia o que o pai do liberalismo, Adam Smith, considerava impensável, a possibilidade de se transformar as pessoas em coisas e nessa qualidade exportáveis de um país em queda livre, a Ucrânia, para um país suposta rico e humanamente pobre, a Áustria. Um filme excepcional, e os meus calafrios pessoais, passaram.
Do segundo filme A morte do homem trabalhador-5 trabalhos do Século XXI, um dos 5 capítulos refere-se exactamente à Ucrânia. Vale a pena comprá-lo, vale a pena vê-lo, vale a pena discuti-lo. E vale a pena reflectir sobre o que dessa realidade também pode sair. Entretanto, dêem uma leitura, nem que seja de passagem, pela brochura criada na altura em que se projectou o filme Import-Export e que fica disponível no blog A viagem dos Argonautas.
Simples a leitura de tudo isto, mais uma vez, e é desta simplicidade que nos falam os textos que aqui vos proponho, sobre a Ucrânia, sobre a Crimeia, sobre a Rússia e sobre a Europa de ontem e de hoje. Mas uma coisa é certa aqui nestes mesmos textos: fala-se de centros de decisão, Bruxelas, Berlim e Washington, onde a inteligência parece estar a ser substituída pela burrice, onde o saber pela ignorância, a dádiva pela ganância, onde a Democracia é pelo apoio dado a nazis no poder, onde o poder ganho na rua assume a legitimidade e onde o que é legítimo, concorde-se ou discorde-se sobre o que decide, passa a ser considerado ilegítimo. Depois dos relatos das conversas de Ashton com o ministro da Letónia, e da alta-funcionária da Administração americana com o embaixador em Kiev, talvez Paul Craig Roberts tenha razão quando afirma que somos governados por putas e mentirosos.
E é tudo.
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Nota da coordenação de A Viagem dos Argonautas
Começa hoje esta nova série a propósito da questão da Ucrânia, sob a orientação de Júlio Marques Mota. Amanhã excepcionalmente, será interrompida, devido à celebração do Dia Mundial do Teatro. Continuará normalmente a partir de sexta-feira, dia 28 de Março.
