Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
2.Um país em extremas dificuldades financeiras e não só
A Ucrânia desesperadamente precisa de US $ 35 mil milhões
Piotr Smolar, LE MONDE, 04.03.2014
Kiev, enviado especial
Nada de pânico! Esta é a mensagem expressa unanimemente pelas novas autoridades políticas em Kiev, pelas organizações do sector bancário e do crédito. A economia ucraniana está certamente numa situação perigosa, mas sob o controle do governo, agora dirigido por Arsenii Yatsenyuk.
Final de Dezembro de 2013, a moeda nacional, a hryvnia, era negociada a 8.2 ao dólar; Hoje, o dólar vale um pouco mais de 10 hryvnias. Esta desvalorização da moeda nacional pode continuar, porque as autoridades decidiram deixar de artificialmente apoiarem a sua moeda. As reservas em moeda estrangeira caíram para 15 mil milhões de dólares (10,9 mil mbilhões de euros).
A prioridade é agora a de travar a fuga de capitais, garantir os depósitos dos indivíduos e tranquilizar os credores. O Banco Nacional introduziu uma limitação de 15 000 hryvnia (1.090 euros) por dia para qualquer levantamento em dinheiro estrangeiro nos balcões dos bancos ou nas máquinas. A semana sangrenta de 17-23 fevereiro provocou uma onda de pânico, difícil de travar. “Soube que há pessoas que retiraram milhões de dólares das suas contas. Não se trata de simples ucranianos, mas de pessoas com fortes ligações ao antigo regime”, disse. Iatseniouk
MEDIDAS MUITO IMPOPULARES.
O director do Banco Nacional também lançou um alerta para os proprietários dos bancos e membros de conselhos de administração, quanto á especulação sobre a taxa de câmbio. O Presidente do Centro para a reforma do mercado na Ucrânia, Vladimir Lanovoi, pediu que o Banco Central seja proibido de refinanciar os bancos em dificuldade: “é um puro esquema de corrupção. Eles só refinanciam os bancos que os subornam, isso sempre aconteceu assim. »
Por enquanto, as novas autoridades em Kiev culpam o regime de Yanukovych por todas as derivas. Eles traçam o horizonte Europeu como um objectivo prioritário e prometem “medidas muito impopulares” para restabelecerem as contas públicas e estabilizar a situação. Iatseniouk lembrou ao Parlamento que o défice final de 2013 se elevou a US $ 6,5 mil milhões de dólares.
A dívida externa total é em 2013 de US $ 140 mil milhões, o que representa quase 80% do produto interno bruto (PIB), dos quais 65 mil milhões são dívidas de curto prazo. De acordo com o novo governo, a Ucrânia vai precisar de US $ 35 mil milhões em 2014 e 2015 para cumprir os seus compromissos. Em particular deve 1,5 mil milhões de dólares para a Gazprom.
LIBERALIZAR A ECONOMIA
Oficialmente, a linha adoptada por Kiev, face ao desastre das contas públicas, é a de obrigar a uma cura dolorosa. Para obter uma estabilização do sistema financeiro e orçamental e para tranquilizar os investidores, o Estado vai-se colocar em dieta: revisão das vantagens fiscais, subsídios, medidas impopulares sobre preços e tarifas. As privatizações começam já a ser consideradas, como a da Naftogaz. Mas será isto possível quando está no ar uma ameaça de guerra?
O governo também quer liberalizar a economia. Ao contrário do passado, sob Yulia Timoshenko, os novos líderes não fazem um discurso de fachada contra os oligarcas . Estes oligarcas são os aliados temporários do poder face à ameaça russa, em particular em Donetsk, Dnipropetrovsk e Kharkiv, as principais bacias industriais.
Em última análise, os interesses de alguns poderiam ser atingidos , incluindo os do poderoso Rinat Akhmetov ou do intermediário Dmitro Firtash, ambos muito perto do regime de Yanukovych. Mas em tempos de crise histórica, como é que se pode desprezar os homens mais ricos do país?
PRUDÊNCIA do FMI
Pronto para ajudar a Ucrânia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) é cauteloso ao mesmo tempo. Solicitado para desbloquear uma ajuda de emergência, o FMI é escaldado pelas suas experiências passadas com líderes ucranianos, de todos os quadrantes. Uma missão começa a trabalhar em Kiev.
“Esperamos que as autoridades irão evitar avançar com todos os tipos de gráficos e números que não têm nenhum sentido até que sejam estudados na devida forma,” avisou Christine Lagarde depois de uma reunião com o ministro alemão das relações exteriores, Frank-Walter Steinmeier.
Segunda-feira, na véspera do início da missão, Iatseniouk ainda lançou um valor “catastrófico”, reflectindo a gravidade da situação: os próximos cortes de orçamento poderiam incidir sobre 65 a 80 mil milhões de hryvnis.



Desejo sinceramente que os ucranianos e o seu governo se inspirem no bem sucedido caso da recuperação finlandesa e não no descalabro das intervenções FMI/BCE/UE.