Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Nota
Jean-Luc Gréau, é um nosso conhecido, primeiro pelos livros que escreveu, em particular La trahison des économistes e La Grande Récession (depuis 2005); a seguir, um amigo também, diremos mesmo assim, quando nos reencontrámos nestas andanças da crise do euro. Por tudo isto, é para nós um homem de referência, um autor de leitura obrigatória. Não pode ser acusado de ser um homem de esquerda, é, diremos, um gaullista de velha e nobre estirpe e é também um dos mais lúcidos economistas franceses nesta questão da crise.
Durante muito tempo foi o conselheiro económico do MEDEF, associação do patronato francês e essa ligação ao tecido industrial da França e da Europa sente-se neste seu pequeno texto, linha a linha.
Júlio Mota
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Jean-Luc Gréau :»um pacto de responsabilidade entre cegos»
“A decisão política parece agora subordinada à linguagem da comunicação. François Hollande lançou um ‘pacto de responsabilidade’, em parceria com os empregadores. Mas ter-se-á de esperar semanas ou meses antes de saber o conteúdo específico deste dispositivo para reduzir os encargos das empresas, com o compromisso dos seus beneficiários criarem postos de trabalho.
Este anúncio constitui, incontestavelmente, uma confissão de malogro da política de espera que tem consistido em projectar-se para a retoma económica, em conformidade com a convicção do presidente que, sendo a crise cíclica, bastava então esperar o momento do seu desenvolvimento. Em substância, Sarkozy responsável pela crise, nós, responsáveis pela retoma. Teríamos gostado de saber qual o diagnóstico presidencial que permita perceber porque é que a retoma não se verificou. Mas pode-se acusar a François Hollande que não fazer o diagnóstico ao qual se recusam 9 economistas em cada dez ? Teríamos gostado de saber, na altura, porque é que o crédito de imposto, competitividade e emprego (Cice) decidido em 2012, aplicado em 2013, para um custo de 20 mil milhões de euros, ficou sem efeito… Depois da supressão da taxa profissional e da redução do IVA sobre a restauração, de aplicação específica, o Cice representa a terceira operação destinada a encorajar a contratação pelas empresas. Para um resultado inexistente.
Uma ferida chamada euro
A explicação foi-nos fornecida pelo presidente da Associação das indústrias francesas de aeronáuticas e espaciais, Marwan Lahoud: “O crédito de imposto competitividade e emprego representa um impacto de 1 cêntimo de euro [em relação ao dólar] para as nossas empresas! Logo que o dólar se reduzir de um cêntimo esta vantagem é eliminada . ” Palavra de ouro, vindo de presidente do sector que mais exporta, por um montante de 51 mil milhões de euros sobre 427 no total em 2013. Palavra confirmada pelo sinal de alarme de presidente de Arianespace a propósito da sobreavaliação do euro que atingiu, de acordo com ele, “um ponto crítico”. Assim, o dedo foi posto sobre a ferida, esta ferida nomeada euro que nenhum dos nossos partidos parlamentares ousa olhar de frente. A sobre-avaliação do euro asfixia o motor central do crescimento representado pelas indústrias e pelos serviços exportadores.
Quanto ao custo dos 20 mil milhões deste contrato credito imposto competitividade emprego, Cice, trata-se de um nado-morto e representa 16 um lucro de 16 mil milhões de lucros “oferecidos” aos sectores não sujeitos a concorrência internacional, tais como as actividades de depósito bancário ou da distribuição, que naturalmente elogiam este tipo de acordo sobre o crédito de imposto. No entanto, estamos agora face a um novo projecto de redução dos custos das empresas, dependentes de um Estado objectivamente exangue, sob a forma de supressão das cotizações familiares e de simplificação do direito do trabalho, de contornos ainda não descritos.
Reinvindicações que não muito novas
Estes projectos datam com efeito respectivamente de quarenta e trinta anos. Na verdade, faz de facto quarenta anos que o patronato reclama a transferência sobre o Estado das contribuições familiares e faz já trinta anos que Yvon Gattaz – de quem Pierre é filho – imaginou Enca (empregos novos à constrangimentos aligeirados), e o Eliseu, vem agora tardiamente satisfazer os seus desejos. Ter-se-ia podido acreditar que estas reivindicações foram retomadas enquanto que o contexto francês e europeu está fortemente modificado : moeda única, globalização, aplicação das 35 horas, envelhecimento demográfico, sem esquecer o multiplicar da nossa dívida pública por 4 em trinta anos.
E poder-se-ia acreditar que alertado pelos seus membros, que o Presidente do Medef teria apresentado primeiro sobre a mesa a sua reivindicação sobre a questão do euro, principal problema da nossa indústria. Porque nós estamos agora entre ferros . A Nordeste, a Alemanha, super-competitiva devido a sua produtividade e aos seus baixos custos laborais, reduzidos de 15% em 2005, depois da iniciativa que consistia num regresso de 35 horas por semana para as 40 horas por semana ou mesmo mais. Ao Sul. Estão países afectados, como a Espanha e Portugal que se aproveitaram da tragédia grega para imponham reduções nos salários de 12-15%. A França não tem outra escolha senão a que consiste em normalizar a sua paridade monetária dentro de um intervalo entre 1,10 e 1,20 dólar, e se necessário por uma saída do euro ou redução de salários, à moda ibérico, com o risco de acentuar a queda na procura interna francesa e na área do euro.
Resignemo-nos a constatar com amargura a cegueira conjunta dos nossos dirigentes económicos e políticos que andam às apalpadelas em termos de curto prazo. O cego François Hollande apoia-se sobre o cego Pierre Gattaz para que este lhe guie os seus passos. Não os vemos fazer uma longa caminhada juntos. Todos os sinais luminosos dos nossos indicadores estão no vermelho ou no amarelo. O tanque presidencial, que segue por uma estrada de piso cada vez mais acidentado poderá cair na valeta sem ter que se passar muito tempo.”
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Ver:
http://forumdemocratique.fr/2014/02/13/jean-luc-greau-un-pacte-de-responsabilite-entre-aveugles/
