Selecção, tradução e agradecimentos por Júlio Marques Mota
6. A Europa refém
A União Europeia não tem os meios, nem económicos nem políticos, para ajudar suficientemente à Ucrânia |
SAMI NAÏR , El Pais, 7 de Março de 2014
Os nossos agradecimentos a Sami Nair, pela seu apoio junto do jornal El País, para nos permitir a publicação deste seu artigo. Naturalmente, agradecemos ao jornal a autorização concedida, em particular a Carlos Yarnoz Garayoa e a José Manuel Calvo Roy.
Texto amavelmente cedido por El País
©Cedido por EDICIONES EL PAÍS S.L.
Deveríamos analisar o que passa na Ucrânia com serenidade e não, embora isso possa ser legítimo sob o efeito da emoção. O problema ucraniano é muito complexo: desde há 20 anos que este país está mergulhado nas convulsões do antigo império soviético, com uma classe política corrompida até à medula, um sistema económico e social desestruturado e e uma economia em perfeita falência. A União Europeia propôs-lhe que se integrasse de forma progressiva, fundamentalmente para poder alargar o seu mercado, melhorar a sua posição estratégica na Europa central e alargar de forma progressiva a influência da OTAN face à Rússia. A política de Víctor Yanukóvich, estúpida e selvaticamente brutal levou o país a uma guerra civil e a uma derrocada da sociedade (uma espécie de primaveras árabe).
Os pro-Maidan desejam integrar-se na União Europeia. E esta ajudou-os em conjunto com os EUA, incentivando a mobilização. O que se demonstra agora, é que a União Europeia não tem os meios, nem económicos nem políticos, para ajudar suficientemente à Ucrânia. Além disso, os Europeus não são de acordo sequer em definir sanções: a reunião do 6 de Março em Paris não deu em coisa nenhuma, no que diz respeito à restrição de vistos ou de depósitos nos bancos. Nem a Alemanha nem o Reino Unido querem tocar nas suas relações económicas. Os EUA dizem que vão vender mais gás à Ucrânia para que esta reduza a sua dependência relativamente à Rússia, de acordo, mas terá também que financiar a compra deste gás…
O Parlamento da Crimeia pediu, sob influência russa, a sua integração na Rússia. A lógica de secessão chegou ao seu termo: depois do referendo, numa semana, a Crimeia será uma república na Federação da Rússia. E trata-se de um problema em suspenso e para décadas futuras
Os meios de comunicação fizeram de Poutin uma espécie de Satanás, porque os media funcionam assim: branco-preto; bem- mal. É um erro. Este homem não tem importância. Neste conflito, trata-se de interesses estratégicos muito mais complexos e muito graves.
A Ucrânia saiu da órbita russa com a condição de se manter neutra, dado que era uma das principais bases de armamento nuclear do império soviético. A sua integração na zona de influência ocidental deveria saber-se que iria levantar reacções imediatas pelas Forças Armadas russas em torno da sua segurança. Porque é que a União Europeia não iniciou, desde o princípio, negociações tripartidas Ucrânia-EU- Rússia a fim de ter conta dos interesses cruzados de todos os intervenientes? A ideia que a Ucrânia tinha a possibilidade de escolher entre a Rússia e a Europa era moralmente admissível, mas não possível de um ponto de vista prático. Ao fim e ao cabo, é a Europa, desprovida de visão, que está refém da Ucrânia e da Rússia.
http://internacional.elpais.com/internacional/2014/03/07/actualidad/1394198970_798791.html

