EDITORIAL – PORTUGAL, HÁ CEM ANOS E AGORA

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Recorda-se hoje o desastre de La Lys, que, como já alguém disse, foi um novo Alcácer Quibir. Portugal em 1916 participou na I Guerra Mundial, com o objectivo de marcar presença na cena internacional, demarcar-se da posição neutralista do reino espanhol, e procurar consolidar o regime republicano, e também para salvaguardar a posse das colónias. Objectivos discutíveis, evidentemente. A chegada ao poder de Sidónio Pais, contrário à entrada de Portugal na guerra, alterou a situação, mas não a melhorou, antes a agravou. Uma dos aspectos mais sérios foi o do estado de abandono a que chegou o CEP – Corpo Expedicionário Português na Flandres, sem abastecimentos, com grandes atrasos na rendição das tropas, chegando os soldados a serem abandonados por oficiais que iam de licença e procuravam não regressar. A agitação política em Portugal terá sido a explicação de muita coisa, mas não de tudo. A sobranceria dos nossos “aliados” manteve-se, com consequências mesmo directamente no terreno, como se pode inferir da análise da situação das tropas na frente de combate, e da evolução dos acontecimentos no próprio dia da batalha. Mas, hoje em dia, o que conviria aprofundar seriam as opções que tornaram possível que um importante contingente de tropas portuguesas estivesse no sítio mais quente de uma guerra mundial, tão mal equipado e tão pouco preparado, ao que tudo indica. A bravura de alguns não chega (não chegaria nunca) para colmatar os falhanços de muitos, a começar pelos falhanços dos que tinham maiores responsabilidades. Não se devem procurar arranjar desculpas, nem fazer ajustes de contas com a história. Há sim que procurar compreender como tantos portugueses foram encaminhados para serem a tal “carne para canhão”.

Actualmente estamos perante outra situação em que os portugueses estão a ser tratados como carne para canhão, em sentido figurado, por enquanto. Fomos considerados todos como responsáveis pela chamada crise financeira que na realidade está a servir para recuperar a banca e prepará-la para a integração europeia, à moda das classes dirigentes e do sistema financeiro internacional. Claro que as violências a que temos estado sujeitos não são do mesmo teor das que suportaram os nossos soldados na Flandres, em África, ou, muito particularmente, em La Lys. Mas têm pelo menos um ponto comum. É o de uma minoria, muito minoria, mas que se julga com direito a dispor da vida dos outros, tomar decisões que procura fazer crer que são do interesse geral, sem medir adequadamente as consequências, sobrevalorizando as suas próprias capacidades e desprezando os problemas que advêm para as pessoas em geral. Actualmente já nem se admiram quando os portugueses emigram em massa. Pelo contrário, até sugerem que o devemos fazer.  Esperemos que não nos queiram meter noutra guerra mundial.

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