Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
4. A Ucrânia dos não-ditos que interpelam
Quando a economia ignora os povos…
Roger Vetillard, Revista Metamag, 26/03/2014
O que está a acontecer na Ucrânia só pode desafiar o observador que tenta analisar objectivamente os acontecimentos apesar de apresentações unânimes da imprensa francesa e ocidental.
Unm governo não legitimado
Assistimos a um levantamento popular armado no centro de Kiev, que de alguma forma foi localizado preferencialmente na Praça Maidan, o centro nevrálgico da insurreição quase durante 4 meses. Este movimento tem a ver com a parte da população que reside principalmente nas regiões ocidentais ucranianas. As regiões de língua oriental russa mantiveram-se longe desta revolta. Os principais meios de comunicação ocidentais não quiseram deliberdamente informar que grupos neo-nazis, do partido l’Union Pan Ukrainienne Liberté Svoboda abertamente nacional-socialista conduzindo a contestação. Esta não é uma afirmação gratuita : vimos bandeiras com o símbolo da cruz suástica e o vice primeiro-ministro do governo insurrecional de Yatsenyuk, que actualmente preside aos destinos do país e é o Presidente deste partido. Este governo não tem de momento nenhuma legitimidade porque nenhuma eleição os veio consolidar com o risco que as próximas eleições – se estas se realizarem – possa ou não desmentir os acordos que a Europa negociou com eles.
Uma componente abertamente national-socialiste ou seja nazi
Fica-se surpreendido que os Europeus tão prontos habitualmente a denunciar o nazismo ou o fascismo que é susceptível de se esconder por detrás dos movimentos que frequentemente são apenas populistas ou “antisistema” se encontrem sem nenhum problema moral com pessoas que defendem uma ideologia racista e antissemita e que utilizam o movimento contestatário para desencadearem uma revolta sangrenta: não hesitaram a fazer fogo sobre as forças da ordem. Sabe-se que este motim em Kiev terá feito 500 vítimas entre os polícias 17 dos quais morreram e 150 foram feridos por balas?
Sabe-se que o responsável de Svoboda figura desde 2012 no Top 10 dos anti-semitas estabelecido pelo Centro Simon Wiesenthal? Que 25% dos deputados israelitas escreveram a Martin Schultz, Presidente do Parlamento Europeu, pedindo-lhe que Europa não se associe com um partido que tem como programa “suspender as actividades criminosas do judaísmo organizado”? E interrogamo-nos sobre o facto de que figuras como Laurent Fabius ou o inefável Bernard-Henri Lévy concordem em encetar negociações com tais pessoas. Há motivações que escapam aos media, aos comentadores políticos franceses e europeus, ao entendimento das pessoas normais, e que, portanto, não são facilmente perceptíveis. Enquanto a imprensa russa fala abertamente e que muitos observadores vê nessa deriva uma das razões pelas quais Putin e os russos mantêm para se oporem ao movimento.
Uma manipulação dos Estados Unidos
O intervencionismo americano igualmente manifestou-se aqui com uma insolência que não parece ter comovido os governos europeus. Sabe-se, e a imprensa na França comoveu-se muito resumidamente, que durante uma conversação telefónica registada em janeiro de 2014 entre Olivia Nuland, subsecretária de Estado americano para a Europa e Eurasia e o embaixador americano em Ucrânia Geoffrey Pyatt que a senhora Nuland utilizou palavras bastante grosseiras para dizer o que pensava da União Europeia atirando com a já famosa expressão “ Que se foda a EU-Fuck the UE” e sobretudo confirmando que os Estados Unidos efectivamente pilotaram o golpe de Estado em Kiev. E se ela se desculpou de ter insultado a Europa, de modo algum desmentiu a intervenção americana. As considerações geopolíticas americanas ignoram a vontade dos povos e desprezam a Europa. E a propaganda à obra nos nossos países faz de Putine e da Rússia das pessoas não frequentáveis.
Um país onde coabitam várias comunidades
A Ucrânia é um país onde convivem 3 grandes grupos humanos: para tornar simples a exposição diremos que a oeste residente essencialmente os ucranianos de língua ucraniana, enquanto que o russo é falado por pessoas que residem a Oriente. 75% dos habitantes são “Ucranianos”, 18% falam russo ou são mesmo russos. Os tártaros no sul são de origem otomana e falam russo. Os ucranianos são católicos, os tártaros são muçulmanos e os russos são ortodoxos. E essas comunidades que têm origens diferentes e que não falam a mesma língua, não têm a mesma religião e a mesma cultura, residem em regiões geograficamente diferentes. Eles têm dificuldades em imaginar que poderia haver entre elas uma comunidade de destino.
Interesses geopolíticos e económicos
Aparece como incontestável que os interesses geoestratégicos e comerciais estão em movimento e em acção para arrancar a Ucrânia à influência russa que aqui é multi-secular. Os Estados Unidos pediram à Europa que fizesse de modo a que a Ucrânia se venha a tornar membro da União Europeia para assim poder estar ligada à NATO sem sequer se colocar a questão de saber se a Europa quereria e sobretudo se poderia aceitar esta tarefa. O parecer dos povos europeus não foi lhes pedido, o interesse da Europa não é levado em conta. É necessário saber que sobre o plano económico, por exemplo, o PIB ucraniano é de 176 mil milhões de dólares ou seja de 3900 dólares per capita. A título de comparação, o rácio da França é de 44000 dólares e o da Índia é de 3200 dólares. Além disso, o salário médio na Ucrânia situa-se em 268 dólares (na França é de 3374 dólares, na China de 303 dólares).
Compreende-se melhor o interesse das multinacionais para com esta mão de obra barata e este mercado de 45 milhões de pessoas. Pouco importam os povos e as Nações, só o comércio é que conta. Os Estados Unidos comportam-se face à Europa como um suserano face aos seus vassalos.
Ver:



