EDITORIAL – O problema é nosso.

Imagem2Os poderes que regem a nossa República emanam da vontade popular expressa no voto livre em eleições livres e democráticas. Presidente da República, presidente da Assembleia da República e chefe do Executivo governamental, são credores do respeito   que a dignidade das suas funções exige. Mas será que eles respeitam essa dignidade?

 Num desassombrado comentário ao editorial de ontem, o argonauta Paulo Rato colocava o que designou por «questões literário-científicas», perguntando de que manicómio ou instituição beneficente se evadiu o Secretário de Estado da Cultura e como conseguiu atingir o grau de idiotia e sabujice evidenciado na intervenção de atribuição de um prémio literário? Pergunta cuja pertinência se mantém se a aplicarmos à presidente da Assembleia da República e à sua frase «o problema é deles, resposta à posição dos «militares de Abril»-

Diz-se que Assunção Esteves se reformou por enfermidade do foro psiquiátrico. Se é verdade, estranha-se que a incapacidade que a impossibilitou de prosseguir a sua carreira profissional, não a tenha impedido de exercer a segunda magistratura mais importante na hierarquia do Estado. Também é verdade que quem exerce a primeira tem evidenciado um desfasamento moral e um défice cultural que o deveriam incapacitar para exercer essas funções. Para não falar nas relações que segundo tudo indica manteve com a polícia política da ditadura. Falando do «terceiro poder», o Executivo, está também entregue a alguém que exerce o cargo da forma que sabemos e que sentimos – equilibrando o OE com um princípio a que poderíamos chamar «a inversa de Robin Hood».

De onde saem estes exemplares? Todos da mesma toca, na lisbonense rua de Buenos Aires. Ali se alaparam os órfãos da União Nacional. Mas Assunção Esteves acaba por ter razão – «o problema é deles!», dos militares que restituíram a democracia à Nação e dos eleitores que, ao exercerem livre e democraticamente o seu direito de voto, elegem inimigos do poder democrático. O problema é nosso.

E que problema!

2 Comments

  1. O Dr. António Vitorino e os demais juízes reformados do Tribunal Constitucional esclarecem que, ao contrário do que se diz e escreve, a Presidente da AR não se reformou por qualquer incapacidade, mas apenas por ter direito à reforma após 12 anos de serviço no TC (não esquecendo que já tinha sido professora universitária e deputada, o que não vem para o caso da reforma, mas não se perde em esclarecer). O Dr. António Vitorino e os demais juízes reformados do Tribunal Constitucional, reformados ao abrigo de uma lei que se mantém em vigor, declaram que a Presidente da AR só tem culpa numa coisa: estar a aturar piras e hordas quando, pelo mesmo dinheiro, podia estar sossegadinha em casa a ganhar o mesmo. Está a prestar um serviço ao país sem qualquer compensação suplementar. O Dr. António Vitorino e os demais juízes reformados do TC só têm a dizer que não têm paciência para pessoas mal agradecidas. Por isso, nunca estariam no lugar da Presidente da AR. Consultorias e comentários dão muito mais dinheiro e causam muito menos ruído na opinião pública.

    1. É um comentário, de origem confusa. Porém, vamos responder sem levar em conta se o remetente é, de facto, o Dr. António Vitorino, em nome dos juízes reformados do TC, ou de alguém que lhe usurpou a identidade. Agradecemos o esclarecimento e comprovada a sua veracidade, no espaço onde foi aventada a informação eventualmente errada apresentaremos a rectificação,
      Somos de facto pessoas mal agradecidas. Começamos por não agradecer ao Dr, António Vitorino (ou ao usurpador do seu nome) e aos demais juízes reformados do TC, a segunda parte do comentário. A nossa ingratidão não é de agora – nunca agradecemos ao Professor Salazar o ter deixado Coimbra. Podia lá ter ficado muito sossegadinho dando as suas aulas, mas sacrificou-se durante mais de três décadas a querer transformar Portugal numa réplica aumentada da sua aldeia e nós, pessoas mal agradecidas, não manifestámos a nossa gratidão. E, para cúmulo, estamos gratos aos militares que nos libertaram de uma ditadura e que deviam ter ficado sossegadinhos. E queríamos que eles pudessem falar num parlamento a que devolveram a dignidade. Esquecemo-nos de que, ao permitirmos que as supremas magistraturas da Nação fossem assumidas por pessoas como a Drª. Assunção Esteves, sancionámos uma lógica em que a democracia é substituída por uma oligarquia em que alguns ficam sossegadinhos a tratar das suas vidas e vendo crescer as contas bancárias e outros se sacrificam por pessoas mal agradecidas. E depois trocam. Não concordamos? O problema é nosso.

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