Ele sempre sonhara ser engenheiro, mas desistiu na quarta classe, porque os pais não tinham qualquer hipótese de o mandarem estudar. Eram catorze irmãos, e o único que chegou a alguma posição de jeito foi um dos do meio, que foi para padre. O pároco da freguesia engraçara com ele e enfiou-o num seminário do Porto. O pior foi quando rebentou essa merda da pedofilia, ele engraçara com um catraio, meteu-o na sacristia…e não vale a pena desenvolver a temática. Foi um enorme desgosto para a mãe que pouco tempo depois morreu.
Esta conversa era entre ele, o que sonhara ser engenheiro, e um amigo que vivia num quarto alugado, isto é, num quarto alugado pela Segurança Social, na mesma rua onde se situava o café onde esta conversa se desenrolava. O da Segurança Social estava em fase de recuperação, uma espécie de mestrado da sua longa carreira de marginal.
O que sonhara ser engenheiro e desistira na quarta classe estava bêbado que nem um cacho. Tinha uma gabardine à detective, tipo Colombo, e uma prisca ao canto da boca. E dizia, em sentido figurado e um tanto filosófico, que, ultimamente, era cada bebedeira, cada chumbo, cada carraspana, que quando se atirava para cima da cama, não adormecia…não adormecia…desmaiava!
O amigo que vivia no quarto alugado pela Segurança Social e que parecia não ter ponta de vinho, muito provavelmente por falta de guita e não de apetite, dava ares de quem não percebia patavina do que se estava a passar, e insistia no grande fenómeno que é, hoje em dia, a tatuage. A tatuage é uma expressão de liberdade, uma forma de intervir numa sociedade adormecida, trazendo à superfície de cada corpo a sua própria identidade e individualidade, os seus afectos, os seus sonhos, as suas desilusões, as suas memórias, aquilo que está preso dentro de cada um pelas grilhetas da sociedade. E mostrava o braço direito que mais perecia um sarcófago egípcio.
O seu interlocutor, se calhar ainda embevecido com as sonhadas linhas programáticas, mais positivas e concretas da engenharia, na cabeça, mas sobretudo com adequados níveis de tintol, dizia qua a tatuage era uma cagada. Só cabeças ôcas escrevem nos braços, nas pernas, nas costas, a merda que lhes vai lá dentro. Ninguém de bom senso desenha na pele o que quer que seja. Precisavam era de uns copos, a grande vitamina da vida, para entenderem o mundo e a realidade. Nada melhor do que uns copos para estimular a criatividade, abrir a janela da liberdade e elevar a frustração ao nível do altar.
A conversa já ia longa, suficientemente longa para quase resvalar para um diálogo de conflito. Palavra puxa palavra, a tua filosofia é de esfregão, a tua é uma filosofia de carambola, o que te vale é eu ser um homem da dialéctica, o que te vale é eu ser um homem de princípios, o que te vale é eu ser um homem para quem a cultura não é um amontoado de peidos mais ou menos sonoros, o que te vale é eu ser um homem que chama a vida pelo nome, o que te vale é eu ser um homem que agarra a vida pelos cornos e pensa com a cabeça bem apoiada, ainda que seja nas pedras da rua. De outra forma já te tinha partido o focinho.
Ai sim? Anda lá para fora que eu te explico, disse o sub-aluga da Segurança Social. E fez o gesto de sair para a rua. Se tu não entendes puto dos fenómenos da vida, se não entendes a arte da tatuage como manifestação de massas, fenómeno universal traduzindo a mais popular das expressões artísticas da actulidade contemporânea, o máximo impulso da fuga da prisão do ser humano, é porque és burro. E contra burros não pode haver argumentos.
Valeu como vacina contra a agressiva evolução da conversa, a potente manápula de um dos utentes do café, velho cliente de quase dois metros de altura, sempre afável e pacífico, que agarrou um e outro pela gola do casaco e os sentou, como meninos, direitinhos, na mesa. Nem mais um pio. Pensamos que, a seguir, não houve, propriamente, acordo quanto à filosofia de cada um. O que houve foi uma abordagem, pelos dois, cremos que paga pelo engenheiro, ao sentido comunitário da vida, através de uma bebedeira comum que obrigou o amigo Zé a pô-los, muito diplomaticamente no passeio, às duas da matina.