DE FARO, SOBRE UM OUTRO ABRIL DE CRAVOS MIL, SOBRE O MANIFESTO DOS 74: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

Parte IV
(continuação)

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Num plano oposto ao reino da mentira e da calúnia e num texto notável que bem poderia ter servido de suporte ao Manifesto dos 74, escrito em Agosto de 2013 e publicado no blog A Viagem dos Argonautas, escrevia o argonauta Domenico Mario Nuti, num elegante artigo que passamos a citar :

“1) Em 20 de Agosto o relatório mensal do Bundesbank confirmou o ponto de vista do seu presidente para quem ” as compras de títulos são problemáticas e podem levar a riscos para a estabilidade”. Ao mesmo tempo Jorg Asmussen, o outro representante alemão no órgão do BCE, de forma activa e de maneira bem evidente defende “a compra pelo BCE em termos ilimitados [de títulos das dívida pública]”, para que o BCE venha a tirar todas e quaisquer dúvidas entre os participantes do mercado quanto ao futuro do euro (Eurointelligence.com, 21 de agosto);

2) Os detalhes sobre a utilização do FEEF/MEE como um escudo anti-spread estão ainda em discussão, mas a proposta já foi aprovada por Angela Merkel repetidamente durante o mês passado, enquanto a má ideia de que limitar o spread a dados níveis seria accionar automaticamente a compra de títulos foi já negada pelo BCE;

3) A credibilidade da posição de Jens Weidman foi preventivamente minada pela revelação que, em 1975, o Bundesbank havia realmente violado os seus próprios princípios em termos de política de aquisição de títulos da dívida pública e, possivelmente, em termos dos seus próprios estatutos através da compra de títulos do governo alemão no equivalente a 1% do seu PIB na época. (consulte-se FT, 7 de Agosto e a excelente peça por Evelyn Harriman do BNP Paribas.

Na verdade, o Banco Central alemão a comprar títulos de dívida pública alemã não é a mesma coisa que o BCE a comprar dívida pública italiana e espanhola, mas se o BCE comprou títulos de dívida pública de todos os países membros da UEM, nas mesmas proporções em que tomam posição no BCE, a redistribuição não deve ser um problema. Como eu escrevi no meu post anterior em resposta a um comentário de um leitor:

“Suponha que o BCE comprou um pacote equilibrado de 100 mil milhões de títulos de dívida pública dos governos da UEM e nas mesmas proporções que os membros da UEM detêm acções no BCE.”

“Cerca de 30% das acções do BCE são detidas por 10 membros da UE que não são membros da UEM (com o Reino Unido a ter 14,5%), e o restante é dividido entre os membros da UEM: Alemanha com 18,9%, a França com 14,2%, a Itália com 12,5%,…, a Espanha com 8,3%, a Grécia com 2%, Portugal com 1,75%, a Irlanda com 1,11%,… e Malta com 0,06%. Portanto, o pacote de títulos comprado pelo BCE conteria 100/70 ou aproximadamente 1,43 vezes partes do que cada membro da EMU participa no capital do BCE, por exemplo, a Espanha com 11.869 mil milhões de euros.”

“Suponha que subsequentemente a Espanha entra em incumprimento e os seus títulos perdem 50% do seu valor. A Alemanha [como accionista do BCE] perde 0,189 * 0,5 * 11.869 mil milhões de euros, ou seja, 1,121,6205 milhões de milhões de euros. Uma quantidade correspondente de €18 mil milhões da dívida alemã comprada pelo BCE poderia ser cancelada, e assim por diante para todas as perdas correspondentes de outros membros da UEM.”

“Os accionistas não membros da UEM teriam que ser compensados pelo BCE pela perda de 30% da perda de valor dos títulos da dívida de Espanha, ou seja, teriam que ser pagos dividendos de 0,30 * 11.869 mil milhões de euros; todos os gastos do BCE vindos dos lucros do BCE [incluindoareceita da emissão de moeda (seigniorage) se assim for preciso, caso em que os não membros da EMU não podem ter direito a compensação…].”

“Em conclusão, os países que não são membros da UEM seriam compensados pela sua participação nos custos do incumprimento de Espanha com os dividendos enquanto os membros da UEM seriam compensados pela retirada do valor correspondente dos seus títulos (sem prejuízo pelo direito presente dos membros não pertencentes à UEM beneficiarem ou não dos direitos de seigniorage“.

Assim, não há nenhuma razão para que os países periféricos membros da zona euro (ou seja, de elevados spreads) entrem em pânico – POR AGORA. Havendo vontade, há solução. E os mercados financeiros acreditam no esforço de Draghi para congregar forças.”

Por outras palavras, contra a calúnia como defesa dos seus pontos de vista, o que faz Durão Barroso, Passos Coelhos e outros, a análise serena de Nuti entre a de tantos outros, serve e bem para mostrar que a resolução da crise, não se faz com o desejo e com as políticas para a aprofundar como o tem feito a Troika, mas sim com a vontade política de a resolver e os meios, mesmos os mais simples, como Nuti demonstra, esses existem!

A acabar esta crónica sobre Abril e cravos mil, dirijo-me ao meu café habitual. É 25 de Abril, o sol brilha por todos os sítios possíveis e espera-me a jovem empregada habitual. Muita bonita hoje, mais ainda do que sempre, digo sorridente. É o grande dia de Abril, dia de folhas mil, responde.

Sinto qualquer coisa de estranho no ar, indelével mas constante. Vem o café. A rapariga reparo agora, a primeira vez que a vejo assim, vem de T-shirt branca, de grande e largo decote. Do lado esquerdo, sobre o peito e acima do coração vê-se a parte de cima de uma tatuagem, uma flor, a representar talvez um cravo de Abril. Serve-me o café, baixa-se um pouco a poisá-lo sobre a mesa, o decote abre-se, instintivamente olho (…) e vejo a tatuagem quase que completa sobre o seio, uma criança a pegar num cravo, talvez com os pés descalços desenhados quase que a partir do próprio mamilo, talvez assim, penso eu. Pressinto que assim seja. Desvio o olhar dos seus seios, levanto a cara, olho-a face a face e recebo um sorriso enorme até naqueles olhos ali bem abertos, bem grandes. Como, consegui dizer, a interrogar-me a mim mesmo em voz alta e a ela também?

É Abril, é hoje dia de cravos mil, quis homenagear o meu avô, capitão de Abril, já falecido, a minha mãe, sua filha, a viver das lembranças da revolução e a minar-se com a raiva de ser agora apenas uma professora de 55 anos, desempregada e profissionalmente desqualificada, quis homenagear Eugène Delacroix e a Revolução Francesa, quis homenagear todos aqueles que se bateram pela liberdade, ontem, hoje, amanhã, colocando sobre o meu seio esquerdo a partir do seu centro o ícone central do 25 de Abril, a rapariga, o cravo e em vez da espingarda, a disponibilidade para o amor até ao infinito. Não estamos nós, económica e socialmente, ao nível da Revolução Francesa? Dirão: patetice. Talvez seja, mas é o que penso.

Olho-a bem e que vejo eu, que penso eu face a estas afirmações? Penso que não há por aqui nenhum Delacroix português que fizesse daquela tatuagem um símbolo para Portugal, como Delacroix o fez para a Revolução francesa. Vejo que a rapariga, pela sua cara, pela sua postura, pelo seu discurso, pela sua frontalidade, talvez seja a filha da senhora que encontrei a comer um simples jantar de Domingo de Ramos na tasca dos frangos. Será mesmo ela?

Senti-me tonto, incomodado até. E a rapariga continuou: professor, na sua vida terá ajudado a florir muitas das cravos mil de muitos meses de Abril, com a sua arma favorita, a caneta, o giz no quadro, a sua exigência do raciocínio teórico e de crítica à corja que nos manipula. Terá sido assim, penso, pelo que me deram a ler de si.. Desculpe-me, corto eu ainda mais confuso. Professor eu, como sabe? Simples. Não foi à dias comprar batatas fritas a uma casa de frangos? Não esteve a conversar sobre política muito tempo com uma senhora na casa dos 50 anos? Não se enganou quando pensou que ela estava a defender os ideais do Governo? A partir daí, a minha mãe ouviu o seu nome e foi saber pela Internet quem seria. Ficou a saber e também acabou por ler as suas crónicas de Faro e com elas a perceber melhor a vida na nossa cidade. Também eu as li. Sei pois quem é, quis vir hoje assim e apenas esta manhã, sabendo que vinha aqui como vem diariamente, para lhe mostrar quem sou ou antes…como politicamente sou!

Salve-se a Europa, salve-se Portugal, do jugo destes tiranos e enquanto não é tarde demais, penso eu. Aqui lembro-me de um texto sobre a crise e a gestão da crise gerida pela União Europeia. Trata-se de um texto escrito por Fritz W. Scharpf; Monetary Union, Fiscal crisis and the Preemption of Democracy. Desse texto, um excerto:

“A União Monetária europeia (UEM) (…) retirou para fora do controlo dos governos democraticamente eleitos os instrumentos fundamentais da gestão macroeconómica. Pior ainda, tem sido a causa sistemática dos desestabilizantes desequilíbrios macroeconómicos que os Estados-membros consideram difícil ou até mesmo impossível neutralizarem com os seus restantes instrumentos da política económica. E mesmo que a crise financeira internacional tenha tido as suas origens fora de Europa, a União Monetária aumentou extremamente a vulnerabilidade de alguns Estados-membros às suas repercussões. Os seus efeitos minaram a viabilidade económica e orçamental de alguns Estados-membros da UEM, e frustraram os desejos e as expectativas políticas a uma tal dimensão que a crise económica pode ainda vir a transformar-se numa crise da legalidade democrática. Além disso, os esforços actuais dos governos da UEM “para salvar o Euro” terão muito pouco efeito sobre a desejada correcção dos desequilíbrios e das vulnerabilidades económicas, mas provavelmente irão aprofundar os problemas económicos e a alienação política em ambos, nos países resgatados e nos países que os resgatam. (…)

(continua)

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Para ler a Parte III deste texto de Júlio Marques Mota, publicada há meia hora em A Viagem dos Argonautas, vá a:

DE FARO, SOBRE UM OUTRO ABRIL DE CRAVOS MIL, SOBRE O MANIFESTO DOS 74: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

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