E O POVO MANIFESTOU-SE – por Clara Castilho

A ) TODOS OS RIOS VÃO DAR AO CARMO

todos os rios

As redes sociais convocaram uma concentração para o largo do Carmo, em Lisboa, para assinalar os 40 anos do 25 de Abril. A ideia era aliciante para aqueles que queriam manifestar o seu agradecimento aos Capitães de Abril e simultaneamente manifestar o seu desagrado pelas medidas do governo vigente numa descida descente dos direitos e melhorias de vida anteriormente alcançadas. Dizia-se na “convocatória”: Não é por acaso que queremos regressar a este sítio. Não só porque faz 40 anos que este largo se encheu de gente que não obedeceu às indicações de ficar em casa do Movimento das Forças Armadas, mas também porque queremos viver e reclamar o espaço público.”

Não sei se os organizadores ficaram satisfeitos com o resultado. Eu chamarei ao que vi: “O Carmo recordado na esplanada”. A presença da maior parte das pessoas provinha da curiosidade, de querer recordar o grande dia, de não querer ficar à parte de algo que poderia ser interessante. Encontraram-se alguns amigos, mas andou-se à deriva, sem uma “voz” comum, sem palavras de ordem.  Os quiosques e esplanadas abertas, a cerveja a correr… Uma festa? Antes a desilusão no rosto dos que há 40 viveram este acontecimento. De positivo os jovens que também quiseram celebrar este dia, cuja vida não seria a que é, se ele não tivesse existido.

B) A. 25 DE ABRIL – LARGO DO CARMO – 11 H.

carmo 11 h

Muitos. Quantos, não sei. O Largo cheio, assim como as ruas adjacentes. Uma união mais clara do que a da noite anterior, com cravos, cartazes com “Vamos acabar com o estado a que chegámos”. Uma força na voz. A homenagem a Salgueiro Maia, no local onde há 40 Anos, este forçara a rendição  de Marcelo Caetano. A partir de uma chaimite estacionada, Vasco Lourenco acusou Cavaco Silva de não só não demitir, com dar cobertura ao governo de Passos Coelho. Num discurso de acordo com a posição que tem vindo a tomar, falou do desrespeito pela Constituição,  do desemprego,  do regresso da emigração em massa e do medo, do desrespeito pela dignidade humana, da destruição do Estado social. Questionou se estaremos bem na União Europeia, indignando-se com o facto de sermos o lumpemproletariado da Europa. Apelou à mobilização para pôr cobro a uma situação que seria impensável há meia dúzia de anos. Presentes vários dos que poderiam ter estado na sessão da Assembleia da República, a que recusou a voz aos militares de Abril (Mário Soares, João Semedo, Marisa Matias) e António Costa, Edmundo Pedro e Fernando Rosas.

Na rua António Maria Cardoso, onde se situava a antiga sede da PIDE ,homenagearam-se os quatro mortos do 25 de Abril,  gritando-se “Não temos medo!”.

À Associação foi, ao fim da tarde, entregue a medalha da cidade pela Câmara Municipal de Lisboa.

C) MANIFESTAÇÃO – DO MARQUÊS DE POMBAL AO ROSSIO

manif.conj

Num movimento constante de idas ascendentes e descendentes, de um ao lado da avenida para o outro, não sei calcular quantos quiseram comparecer nesta homenagem ao acontecido no dia em que tudo mudou em Portugal. Empunhando cravos vermelhos, com mais força do que em anos anteriores, por se sentir mais na pele as medidas de austeridade impostas. Com mais veemência por se temer ainda um maior retrocesso.

“O Fascismo nunca mais”. “25 de Abril sempre!”

 

4 Comments

  1. “…o dia em que tudo mudou em Portugal”.
    Sí… Tudo mudou, mas por quanto tempo? E onde estava indo a mudança? E quem ocupou a posição daqueles que estavam na vanguarda da mudança? E onde estava quem realmente fez a mudança possível, ou seja, o povo? Pra onde olhava?

    1. Tens razão, Josep. Tudo mudou, para que tudo ficasse igual. O 25 de Abril foi um momento mágico, um triunfo do espírito de justiça sobre a repressão, uma vitória da luz sobre as trevas… tudo isso. Mas aí temos um colaborador da polícia política no Palácio de Belém, um herdeiro da ala liberal do partido único à frente do executivo e uma outra no Parlamento, negando aos militares de Abril o direito de falarem numa casa a que restituíram a dignidade. Em Abril de 74, quem venceu, quem perdeu?

  2. Certo, certo, certo….Limitei-me a fazer um “relato” do que vi acontecer. Não é imparcial, nunca pode ser. Basta ver a parte do discurso do Vasco Lourenço que inseri e a que exclui… A minha posição tem sido expressa em tudo o que tenho escrito neste blog.

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