A GUERRA COLONIAL EM MOÇAMBIQUE
“A Construção de um Pipeline Informativo como Contributo para a Paz – Novembro de 70 a Novembro de 73”
José Dias*
Texto escrito a partir das notas utilizadas pelo autor no testemunho que prestou na tertúlia do Não Apaguem a Memória, que teve lugar no Convento dos Dominicanos em Lisboa, a 22 de Fevereiro deste ano, intitulada “Os Católicos na Luta contra a Ditadura” que moderou
I. Secção Colonial

Apenas uma confirmação e talvez um acrescento.
Um grande amigo (infelizmente já falecido), dos tempos de liceu e catequese, que foi oficial miliciano nos Fuzileiros, narrou-me (e a outros amigos) histórias de “bilhetinhos” – portanto, muito afins das citadas -, passadas mesmo alguns anos antes do período a que o texto se refere. Falou-me de “recados” do género “tive-o em mira”, a que se seguiam palavras de apreço, isto de parte a parte, significando uma recusa de matar quem estava “do outro lado”. Pelo que depreendi das suas narrativas, esse “hábito” (eventualmente mais circunscrito geograficamente, no tempo da sua “comissão”) teria algo a ver com o reconhecimento, por parte de muitos dos guerrilheiros mais destacados, das óbvias posições políticas de alguns destes oficiais milicianos, bem como com um mútuo “respeito militar”.
Sei que isto é capaz de estar mal contado. A minha capacidade de expressão, em questões militares, é muito reduzida, o que não me permite recordar estas histórias com mais precisão. Há de tudo, entre os seres humanos e eu pertenço a uma espécie que só aceita a hierarquia cuja competência reconhece. Jamais, apesar de contrariar directivas (correctas, como se confirmou) da organização política a que pertencia, aceitaria integrar-me a sério nas Forças Armadas e ser mobilizado para a Guerra Colonial. Trata-se de um condicionamento (mais que de uma opção) puramente individual, que não implica menos respeito e consideração pelos numerosos anti-fascistas que nela participaram, nem por aqueles que, por essa mesma participação, foram ganhando consciência política.
Por sorte, aproveitando até ao limite as condições de “adiamento” do curso que frequentava, iniciei o curso de oficiais milicianos, em Mafra, em Outubro de 1973, diligenciei (através da simulação, com apoio especializado, de graves tendências depressivas, com episódios que seriam de descrição extensa e pouco aliciante) no sentido de me mostrar militarmente inepto e incómodo e “passei aos auxiliares”, após um processo demorado de “juntas médicas”, o que implicou não ser possível a minha colocação no “segundo ciclo de instrução” em Janeiro de 74, tendo reiniciado a “formação”, na EPAM, no início de Abril. No dia 25 desse mês, pela tardinha – quando, de uma janela do prédio fronteiro ao local do quartel onde estava destacado, um numeroso grupo de pessoas nos informou, entusiasticamente, da rendição no Quartel do Carmo -, curei-me miraculosamente!
Independentemente de ter amigos que são militares de profissão, um forte e especial apreço, desde os tempos de estudantes liceais, por um deles (o ex-Chefe do Estado Maior da Armada, Melo Gomes) e uma inequívoca admiração pela patriótica e corajosa acção dos militares de Abril e, naturalmente, pela maioria dos seus protagonistas (sem distinções de “quantidade” de protagonismo), não tenho a mínima vocação para integrar uma organização militar, onde a hierarquia prevalece sobre qualquer outra qualidade (inteligência, cultura, racionalidade, etc.). Digamos que nunca tive algumas características indispensáveis para tal.
Tenho a noção de que me coube o privilégio de pertencer a uma geração que integrou um significativo conjunto de militares de notáveis (nalguns casos, mesmo excepcionais) qualidades intelectuais, patrióticas, cívicas e democráticas. Compreendo que uma organização militar tem de se basear numa hierarquia e numa regulamentação com uma certa rigidez. Mas não sirvo para esse tipo de organização.
Todas as organizações e todas as profissões têm membros incompetentes. Nunca teria qualquer garantia de não deparar com um imbecil com divisas a quem seria obrigado a obedecer: aliás, logo em Mafra conheci um desses exemplares, particularmente dotado de estupidez e autoritarismo balofo. E não reside, decididamente, na minha herança genética, a faculdade de obedecer obrigatoriamente a um tonto qualquer que me calhasse em sorte, sem repontar, com as consequências que tal acarretaria – uma hipótese cuja ocorrência é sempre relevante. Daí a minha escassa aptidão para abordar questões de âmbito militar, com uma linguagem apropriada…
Muito interessante este artigo -Maria