QUANDO A FORÇA VEM DOS FRACOS por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

“Que força é essa amigo

que te põe de bem com outros e de mal contigo” José Mário Branco.

Estar mal comigo por não conseguir lutar pelo que acredito. Estar de bem com os outros porque tenho medo. Medo de quê? Não sei, tenho medo.

Quando se conquistam Direitos pensamos que estão adquiridos, porque são justos. Depois da Revolução dos Cravos e da nova Constituição da República Portuguesa, pensei, pensámos todos, que Direitos adquiridos em Democracia eram para ficar. Mas enganei-me e enganamo-nos todos…

Em 40 anos tanto que foi conquistado relativamente aos Direitos Humanos, no que diz respeito às Mulheres, às Crianças, às minorias étnicas, às diferenças de género, aos gays e às lésbicas, aos jovens, à Educação, à Saúde, à DIGNIDADE HUMANA.

Documentários passados recentemente na televisão, mostram os portugueses comuns vestidos de cinzento, como se a cor os pudesse despertar para o vermelho, para o verde…, e sabe-se lá o que poderia acontecer, as caras marcadas por sofrimento de mal estar físico e psicológico, bocas que se riem sem dentes porque caíram antes do tempo. Descalços. Tristes. Cabisbaixos. Sem auto estima. Os fracos.

Violência doméstica. Silêncio! Os direitos das mulheres eram serem maltratadas em casa, no trabalho e na cama.

Davam à luz muitas vezes nos campos ou nos locais de trabalho e continuavam a trabalhar. Os fracos.

Mas quando as mulheres, após o 25 de Abril, passaram a reclamar os seus direitos, maior atenção passou a ser dada à fraqueza que se fazia força. A sociedade foi-se sensibilizando e a não aceitar, eticamente, que se mal trate uma Mulher. Mas o que faz? Comenta à boca fechada “ele lá sabe porque lhe bateu”, “não trabalha e não faz nada em casa”, ” um homem também não é de ferro.”

Começam a aparecer nos meios de comunicação casos de violência sobre as mulheres que chocam a sociedade. Figuras públicas “perdem a vergonha” e dão os seus testemunhos de maus tratos.

Criam-se associações para a defesa da dignidade da Mulher.

A sociedade indigna-se, apela a leis protectoras do fraco que se tornou forte.

As minorias étnicas eram tidas como um problema que se tornava em racismo, após o 25 de Abril, a sociedade foi sendo educada (nas escolas) para a aceitação da diferença e a defender os direitos de qualquer cidadão. Os fracos

Os homossexuais eram tidos como doentes, como pessoas a marginalizar. Os fracos. Após o 25 de Abril já podem casar e adoptar crianças.

A taxa de analfabetismo era muito elevada, pois a escola era só para alguns. Acreditava-se (dava jeito) no determinismo cultural. Filho de médico, médico, filho de sapateiro, sapateiro. Os fracos.

Após o 25 de Abril a escolarização tornou-se obrigatória e tendencionalmente gratuita, para todos. Muitos, muitos jovens tiveram acesso à Universidade, ao intercâmbio estudantil (Erasmo). Há mais jovens qualificados com licenciaturas, mestrados e doutoramentos. Os seus méritos académicos são reconhecidos fora de Portugal.

Quem não se lembra da famosa, por más razões, “Caixa”. O povo era atendido sem respeito. Os médicos da “Caixa” eram olhados com desconfiança “ Será bom?”. Os fracos

Após o 25 de Abril, 40 anos depois, o nosso serviço nacional de saúde é estudado por outros países, como exemplo de uma boa prática.

Mas os mais fracos dos fracos são as crianças e, por isso, recordo e faço a minha homenagem às crianças que em 1910, há 104 anos, não há 40 anos, se revoltaram e fizeram greve por melhores salários, pois ganhavam menos do que os adultos.

Não ganharam a guerra, mas ganharam uma batalha.

Não havia os Direitos da Criança, mas havia o Direito à Dignidade que nascia dentro de cada um.

Ao longo da História quantos fracos se tornaram fortes? Não vale a pena contar. É preciso e urgente mais força. Há que conquistar a cana de pesca e não aceitar o peixe, ainda por cima, envenenado.

Leave a Reply