* Com autorização expressa do autor.
Memória do Primeiro de Maio, poema de Casimiro de Brito
Um país iluminado por ruínas nunca repousadas
Em teus olhos cegos subitamente
Rasgados / um país distendido
Entre velhas colónias emancipadas
No ardor da guerra / um povo libertando-se
Do seu ovo de silêncio amor cifrado & usura –
Tubérculo apodrecido
D’onde foi banido
O dente cariado da ditadura.
O mar foi o mar na praça pública a luxuriante
Vegetação / a festa solar / a luz crua
Do exílio e da morte / o espectáculo
De um povo (águas
D’abril) a quem foi devolvido
O dom da fala / a mística
Da revolução. Ouve-se
Por toda a cidade
grande coral da liberdade …
(in Labyrinthus, Lisboa, 1981 e Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)
Memória do Primeiro de Maio
Recordo esse momento, esse
terrível entusiasmo. Eram
milhares, dezenas de milhar
e todos se esticavam, todos
tentavam ver os carros, sentiam
o solene momento, gritavam
da alegria mais pura. Era
um som de pólvora liberta,
uma explosão de esperança,
de loucura, de vida – sim,
por uma vez, a vida -. Lembro
esse gosto de pão, o corte
brusco na inércia, o fogo
da presença em oferenda,
a compressão da ira vinculada
agora a um caminho. Hoje
contemplo esta praça, estas ruas
que a tristeza semeou
de novo e espero a multidão
que uma vez aqui floresceu.
Confio em que virá. O vento
fala já nos seus passos, faz
da espera alimento; o ar
vai encher-se de vozes, vai
ver-nos todos juntos, livres,
respirando através das mãos
unidas, através do ardente
fluido de alegria que liberta
as raízes do canto estagnado.
Occasionally, some
—–


Até quando este fulgor ?Maria