IMAGENS DA REVOLUÇÃO – 4 – por Eduardo Gageiro*

* Com autorização expressa do autor.

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Memória do Primeiro de Maio, poema de Casimiro de Brito

Um país iluminado por ruínas nunca repousadas

Em teus olhos cegos subitamente

Rasgados / um país distendido

Entre velhas colónias emancipadas

No ardor da guerra / um povo libertando-se

Do seu ovo de silêncio amor cifrado & usura –

Tubérculo apodrecido

D’onde foi banido

O dente cariado da ditadura.

 

O mar foi o mar na praça pública a luxuriante

Vegetação / a festa solar / a luz crua

Do exílio e da morte / o espectáculo

De um povo (águas

D’abril) a quem foi devolvido

O dom da fala / a mística

Da revolução. Ouve-se

Por toda a cidade

grande coral da liberdade …

 

 

(in Labyrinthus, Lisboa, 1981 e Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 

 

Memória do Primeiro de Maio

 

 

 

Recordo esse momento, esse

terrível entusiasmo. Eram

milhares, dezenas de milhar

e todos se esticavam, todos

tentavam ver os carros, sentiam

o solene momento, gritavam

da alegria mais pura. Era

um som de pólvora liberta,

uma explosão de esperança,

de loucura, de vida – sim,

por uma vez, a vida -. Lembro

esse gosto de pão, o corte

brusco na inércia, o fogo

da presença em oferenda,

a compressão da ira vinculada

agora a um caminho. Hoje

contemplo esta praça, estas ruas

que a tristeza semeou

de novo e espero a multidão

que uma vez aqui floresceu.

Confio em que virá. O vento

fala já nos seus passos, faz

da espera alimento; o ar

vai encher-se de vozes, vai

ver-nos todos juntos, livres,

respirando através das mãos

unidas, através do ardente

fluido de alegria que liberta

as raízes do canto estagnado.

Occasionally, some

—–

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