OS MEUS DOMINGOS – SECOS E MOLHADOS – por ANDRÉ BRUN

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1881 - 1926
1881 – 1926

 

I

Uma destas noites, regressando a casa um tanto ou quanto depois das zero, deparei na rua com o comovente espectáculo de um gentleman querendo à viva força levar consigo um candeeiro de iluminação, apagado – escusado será dizê-lo – como todo o bom candeeiro lisboeta que se presa.

– Anda daí, Leonardo, – dizia o gentleman, deitando um braço carinhoso ao tronco esguio do candeeiro. – Olha que pode passar gente e estás a fazer má figura. Aqui para nós, estás muito grosso…

E, perdendo de súbito a paciência e o equilíbrio, trocando as pernas e tendo que se encostar à parede próxima para não cair, o gentleman concluiu:

– Ora quem me mandaria a mim meter-me com gente bêbeda?…

Eu tinha várias coisas a fazer com certa urgência nessa noite e uma delas era deitar-me. Quando não, teria conversado um instante com aquele cavalheiro. Quando a embriaguez se mantem no diapasão das discussões pitorescas e serenas, considero-a um dos estados de espírito em que o homem é mais simpático. Nessa altura despe todas as pretensões e na sua boca, à míngua de bom hálito, floresce sempre a Verdade. Na alma de um borracho lê-se como num livro aberto e, quando não se pretende rachar a cabeça do próximo e se limita a querer levar os candeeiros para casa, confesso que prefiro cavaquear com um piteireiro a tratar com uma pessoa em seu juízo, isto é: armada contra mim de todas as hipocrisias e fingimentos de que uma pessoa séria é capaz.

Quando o pai Noé tomou a primeira camoeca abriu à humanidade uma série de horas inefáveis, em que se esquecem os males da hora presente, em que o futuro é cor de rosa e o passado uma trapalhada confusa da qual se não saca outra preocupação, senão a de saber em que algibeira está a chave do trinco.

Mas, não sei porquê, o ser piteireiro é mal visto na sociedade onde a gente se aborrece. Entre as múltiplas e várias convenções estúpidas figura a da embriaguez ser um vício, quando afinal é o simples resultado fisiológico da absorção de um alimento líquido. Não fica mal a ninguém comer seis quilos de queijo flamengo, embora depois diga hipocritamente falsidades de todo o tamanho. Mas, se ao cabo de ter bebido meia dúzia de copos, começar a dizer verdades como punhos e a mostrar-se tal qual é, toda a gente reparará e é possível que o caso acabe na esquadra da polícia. Não percebo lá muito bem porquê; mas enfim…

21 de Janeiro de 1923

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