Os doze anos que se seguem, são vividos intensamente, com uma grande actividade – no plano político, no jornalístico, no campo associativo e social, na poesia, na música. Em 1912 colabora no Correio Português, de New Bedford. No ano seguinte, escreve para a Tribuna, da Brava, editada por João José Nunes. Em 1914, compõe e publica uma Canção Republicana dedicada à recém-proclamada República. Em 1915, publica na Praia os opúsculos que designa por Cartas Caboverdeanas. Em 1916 sai a público o livro Amor Que Salva (Santificação do Beijo); neste mesmo ano é editado Mal de Amor: Coroa de Espinhos. Em 1922, regressando à Brava definitivamente, ao seio da família e dos seus conterrâneos, depois de várias idas e vindas à Praia, ao Mindelo, no quadro da sua actividade política. Esperam-no agora tempos tranquilos, embora precise de continuar a escrever para ganhar a vida. Com o seu grupo de amigos, funda a Troupe Musical Bravense. Por outro lado, com a ajuda de Hermano de Pina e de outros companheiros, impulsiona a criação da Escola Guedes Vaz, estabelecimento de ensino que vem preencher uma grave lacuna no sistema de educação da juventude da ilha. Exerce o professorado e, apesar de toda a sua actividade profissional, ainda guarda tempo para cuidar das flores do seu jardim. São tempos felizes.
Em 1927, o governador Guedes Vaz realiza uma visita de cortesia à Brava. Em nome do Governo, apresenta a Eugénio Tavares um formal pedido de desculpa pelo infortúnio e sofrimento causados por uma acusação injusta da Administração Central. Convida-o a visitar São Vicente. É uma viagem triunfal, pois Eugénio é recebido no Mindelo por uma multidão de admiradores que o conduz em ombros até à Câmara Municipal, onde o espera uma sessão solene e a consagração como figura cimeira da cultura cabo-verdiana.
«E CONTINUEI A SONHAR, A AMAR E A CANTAR.»
Eugénio com 62 anos (última foto). Três anos depois, agora com 62 anos, Eugénio está precocemente envelhecido, embora o seu espírito permaneça jovem e actuante. Escreve e compõe. Deste período datam duas das suas melhores composições – as mornas Bidjiça e Nha Santana. A primeira, segundo tudo o indica, é inspirada pela paixão serôdia que sente por uma muito jovem rapariga com a qual inicia um namoro que faz sorrir os seus amigos e conterrâneos. Bidjiça alcança uma grande popularidade, Nela se diz que sol de entardecer de idade, /sol brando é el, sol de sodade… Porém, a jovem abandona-o, partindo para os Estados Unidos com a família. Despeitado por essa decisão da amada, Eugénio cai numa mágoa profunda, refugia-se no isolamento. Passado tempo, a rapariga faz-lhe saber que está disposta a voltar para ele. Mas Eugénio, num arroubo de orgulho ferido, recusa aceitá-la de volta. Pega na guitarra e compõe Nha Santana. Outro grande êxito popular.
No dia 1 de Junho de 1930, cerca das 11 horas da manhã, Eugénio Tavares está sentado numa cadeira de baloiço da sua casa de Nova Sintra. Recebe amigos e familiares. Discutem a política da Colónia, os fait- divers que se relatam nos jornais da Metrópole. A propósito, um deles, conta uma história engraçada. Estoira uma enorme gargalhada geral. Eugénio Tavares acompanha os amigos na risada. Depois, inclina-se e tomba, mortalmente fulminado por uma angina de peito.
Diz Eugénio na sua Autobiografia: «Os aspectos exteriores que emolduraram a minha infância, o sonambulismo taciturno das montanhas em cujos socalcos sonhei os meus primeiros voos, solidões misteriosas e enevoadas, semearam no meu espírito sentimentos que em breve não cabiam na estreiteza do meio em que vivia. Mais tarde um outro factor preponderou: a formosura das filhas dos crioulos, minhas irmãs, seu caminhar harmonioso, erectas e plácidas na linha das paisagens perpendiculares, suas vozes argentinas ou veladas elevando-se nas toadas tristíssimas, suas frontes trigueiras e puras, romperam-me na alma a intuição melodiosa do idílio e continuei sonhando, amando e cantando – com a fronte em sangue, com a alma em luz. No declinar da Primavera, açoutado de maus ventos, alanhado de injustiças odiosas, a poesia religiosa envolveu-me numa plúmbea atmosfera de paz e de saudade. E continuei a sonhar, a amar e a cantar.»
CONCLUSÃO – VÁRIAS OPINIÕES SOBRE EUGÉNIO TAVARES.
Muitos críticos vêm Eugénio Tavares como um mero compositor de mornas. Na realidade, a sua obra literária é reduzida e as suas mornas tiveram grande êxito e, por certo, qualidade musical, pois levaram Fernando Lopes Graça a procurar fixar o fio melódico das composições.
Não se pode nem deve esquecer, no entanto, a sua intensa actividade como jornalista e como político, lutando em prol da justiça, do fim das desigualdades sociais no arquipélago, pelo apagamento das discriminações étnicas. Mas, fixando-nos apenas na sua faceta literária, ele é um dos próceres da literatura cabo-verdiana em língua portuguesa e, simultaneamente, pugna pelo reconhecimento do crioulo como válido instrumento de cultura. É verdade que escreveu mornas que ainda hoje são cantadas. No entanto, classificá-lo como «criador de mornas» é redutor e injusto, pois significa esquecer a dimensão intelectual e humana da sua luta pela dignidade do povo de Cabo Verde, pela exaltação da beleza das suas gentes e paisagens… Eugénio Tavares criou o conceito de caboverdianidade e terá sido um dos primeiros escritores a sentir e a conceber o arquipélago como entidade cultural autónoma, embora sempre se tenha considerado como português e patriota. Em carta endereçada da Brava, em Novembro de 1928, a José Osório de Oliveira, poeta e ensaísta português (1900-1964) afirma: «Amo a minha Pátria» (…) «Leia a Carta Caboverdeana para um jornal da América. Ela dirá do meu amor à Pátria. Faça o meu amigo reproduzir esses meus sentimentos, aí, onde parentes de meu pai, verão que o patriotismo de Francisco de Paula Tavares, frutificou em África».[1] Porém, ouçamos o que a seu respeito (e sobre a literatura de Cabo Verde) alguns mestres e estudiosos disseram:
«Em Cabo Verde, após a introdução do prelo em 1842, e a publicação do romance cabo-verdiano de José Evaristo d’Almeida, O Escravo (1856)» (…) «segue-se um longo período (ainda hoje mal conhecido no que respeita ao século XIX), até à publicação do livro de poemas Arquipélago (1935) de Jorge Barbosa, e da revista Claridade (1936), fundada por Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, entre outros, em que se destacam José Lopes, Eugénio Tavares e Pedro Cardoso».[2] «Cabo Verde merece consideração à parte. Apesar de circunstâncias também desfavoráveis, como as de nível de vida e a distância a que o português literário se encontra do crioulo falado, a maior proximidade da cultura metropolitana (e sobretudo da brasileira) e certos fermentos mais antigos da vida literária possibilitaram um surto de escritores em torno das revistas Claridade (…) e Certeza», dizem Óscar Lopes e António José Saraiva numa das primeiras edições da sua História da Literatura Portuguesa, destacando depois nomes como os de Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Eugénio Tavares, que designam por «o poeta do crioulo».[3] Manuel Ferreira, sem dúvida um dos maiores especialistas portugueses em literatura africana, particularmente na de Cabo Verde, considera Eugénia Tavares, sobretudo um poeta e um jornalista «de excelente qualidade», quer exprimindo-se em português, quer em crioulo. Quanto à sua ficção, aliás escassa, classifica-a de «inferior qualidade artística».[4] O Tenente-Coronel Joaquim Duarte Silva, um dos mais antigos estudiosos da sua obra, é da opinião que o primeiro texto escrito em crioulo é da autoria de Eugénio Tavares. Refere-se a uma «transposição» para crioulo do famoso texto de Camões, Endechas a Bárbara Escrava (Aquela cativa/Que me tem cativo…), feita por Eugénio. Diz a versão crioula – Bárbara, bonita escraba… João Augusto Martins em Madeira, Cabo Verde e Guiné, Carlos Parreira[5] e outros autores, consideram-no o maior poeta lírico de Cabo Verde.
[1] – FERREIRA, Manuel, Cartas Inéditas de Jorge Barbosa, João Lopes e Eugénio Tavares a José Osório de Oliveira, Colóquio Letras, n.º 110/111, Lisboa, Julho de 1989.
[2] PIRES LARANJEIRA, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Universidade Aberta, Lisboa 1995.
[3] – LOPES, Óscar e SARAIVA, António José, História da Literatura Portuguesa, 3ª ed. Porto Editora, Porto (s/d).
[4] – FERREIRA, Manuel, texto citado.
[5] – PARREIRA, Carlos, Eugénio Tavares, Poeta Crioulo, in Mundo Português, nº 78, Lisboa, 1940