CONTOS & CRÓNICAS – “Lembrando Maria Rosa Colaço”- por Carlos Loures

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2004 foi um ano terrível para a poesia. Fez dez anos em Janeiro que Eduardo Guerra Carneiro morreu. Em 2 de julho de 2004, morreu Sophia de Mello Breyner, grande poetisa, com a qual não tive grande convívio, apesar de com ela ter partilhado uma colecção da Salamandra e de gentilmente ter colaborado em antologias que, com o Manuel Simões, organizei. Em Outubro passam dez anos sobre a morte de Maria Rosa Colaço, Uma excelente escritora, uma grande amiga. Nestes dias em que lamentamos a perda de Sílvio Castro, decido que as restantes  crónicas de Maio não serão, como disse, sobre poetas que morreram. Celebremos a Primavera – basta de tristeza!  Mas hoje vou recordar Maria Rosa Colaço.

Foi-me apresentada pelo escritor Romeu Correia, seu vizinho em Almada. Foi uma amizade instantânea que começou,Imagem2 ainda nos anos 50, numa tarde de Inverno, no primeiro andar do café Avis nos Restauradores. Era uma rapariga bonita, inteligente, bondosa, calma, com a sabedoria alentejana do seu Torrão natal a cintilar-lhe nos olhos. Sobre a nossa amizade,  em O Amor Tem Tantos Nomes, livro que, com Carlos Pires Lopes publicou em 1998, descreve um incidente curioso e do qual já não me recordava Uma noite,  alta madrugada, fomos cantar sob as janelas do Aljube, acordando prisioneiros e pondo os carcereiros em movimentações nervosas. Terminado o «recital» corremos até Santa Luzia. Tivemos sorte em não passarmos de cantores a presidiários. Maria Rosa conclui que «os tiranos não se removem com canções nem falsos heroísmos, mas isso eu não, sabia porque aos dezoito anos só sabemos coisas importantes e únicas…», diz. Pediu-me que fizesse a apresentação deste livro, o que fiz com muito prazer em Oeiras, na livraria e galeria municipal Verney (fotografia acima).

 Esse final de tarde de 23 de Abril de 1998, foi a penúltima vez que estivemos juntos. Falávamos muito pelo telefone. No Verão do ano seguinte sofri um acidente de automóvel que quatro operações cirúrgicas depois, um ano quase fora do mundo e os seguintes de lenta recuperação, me deixou vivo. Pelo telefone, fui relatando a minha situação e segui a doença do marido, a excelente pessoa que o Malaquias de Lemos era, e depois a sua, dizendo que estava maluca quando me afirmava que morreria em breve. Ríamo-nos até às lágrimas quando dávamos conta de que estávamos só a falar de doenças. Ainda ouço as gargalhadas da Maria Rosa.

Depois, já eu andava por aí com canadianas, almoçámos uma vez num restaurante italiano junto ao meu escritório, para lhe apresentar o meu editor e avaliar das possibilidades de ele lhe publicar a obra completa. Poucos tempo antes de morrer telefonou-me a despedir-se, como quem parte de viagem. Voltei a chamar-lhe louca, que era coisa que ela não era. Era sim, uma excelente escritora e uma das melhores amigas que jamais tive.

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