CRÓNICAS & CONTOS -“O 25 de abrile o cavaquismo”* – por Carlos de Matos Gomes

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*(O título estava para ser: Os encantados do sub-regime)

O cavaquismo é o exemplo mais evidente em Portugal da corrupção democrática pela via da tomada do poder por um grupo de jovens rafeiros dispostos a tudo. Os rafeiros do cavaquismo organizaram-se para o efeito após a fase de implantação da democracia prêt-à-porter, conduzida por Mário Soares, que decorreu do pós 25 de novembro de 75 até à adesão à CEE.

O trabalho difícil e que exigiu alguns riscos estava feito. Chegara a hora de atacar.

O que resultou da actividade dessa alcateia onde os predadores se reconhecem pela falta de escrúpulos foi um sub-regime que, além da defesa de interesses, criou uma cultura igual à dos corvos: tudo o que brilha é para meter o bico! Boa parte da classe que está no poder é fruto desse caldo que teveCavaco Silva como chef. Um redil onde cabem velhos manhosos como Catroga e jovens imbecis como Maçaes, velhos patetas e senis como Machete e jovens deslumbrados como Lomba, facilitadores como Relvas e homens sombra como Marco António Costa, empregados da família Espirito Santo e advogados das PPP dos senhores Mello, pimbas do gangue do BPN e o pedante recém-falecido Graça Moura. O sub-regime do cavaquismo é um pronto a comer, sem cultura, nem história. Um formigueiro de quissondes, as formigas carnívoras, vindo de um interstício do nada, mas com infinita ambição e determinação.

Essa classe média de parvenus,desenvolveu-se, engordou e expandiu-se com a avalancha dos fundos europeus como uma colónia de varejeiras sobre excrementos. Os Fundos Estruturais, de Coesão, os FEDER, os PRODEP, foram o seu 25 de abrillibertador da apagada e vil tristeza em que haviam nascido e em que,por falta de mérito, viveriam. Cavaco Silva foi a Junta de Salvação Nacional da mediocridade.

O cavaquismo é, ainda hoje,o regime de um grupo que subiu ao poder trepando por uma rede de assalto. Num certo sentido há um 25 de abril de poder popular representado pelos que ascenderem de faca nos dentes ao topo da administração do Estado – Cavaco Silva, Dias Loureiro, Duarte Lima e tantos outros são exemplificativos desses “piratas da Lapa”, desses patoléus, que se “anobrezaram” como os seus antecessores novecentistas do foge cão que te fazem barão com os negócios escuros, as comissões, as facilitações.

Em Portugal a história do assalto ao poder é antiga e tem longínquos antecedentes na crise de 1385, comos bastardos e filhos segundos reunidos atrás de João Mestre de Avis na Batalha de Aljubarrota. Também já foi assim no constitucionalismo vintista. Na actualidade, Miguel Relvas é tão só o mais recente e mais glosado exemplo dos encantados do 25 de abril de Cavaco Silva. Um outro Relvas, o Alexandre, representa a versão refinada do mesmo produto.Veja-se a fotografia dos agraciados pelo casal Cavaco no dia 26 de abril. Um retrato de família do cavaquismo para emoldurar e pendurar ao lado do quadro da Última Ceia em relevo e do póster do Toni Carreira a cores.

Esse grupo de predadores cavaquistas, de crias e adultos que desceram esfomeados das fragas e subiram dos lameirostem contornos difusos, não são um exclusivo PSD, nem são o PSD, englobam exemplares do PS como Jorge Coelho, ou Vara. O PSD é só o camarote de honra de uma União Nacional furta-cores, em que os adeptos são praticantes. O que os une não é a pertença a um partido, mas os benefícios que podem retirar dessa pertença. Constituem uma praga, como os peixes achigãs. Abocanham o que puderem. Navegam em todas as águas e a todas as profundidades.

Para o que que é sociologicamente o cavaquismo, a CEE do dinheiro fácil transformou-se num santo milagreiro que distribuía benesses. Até Passos Coelho foi contemplado com a sua Tecnoforma que formava técnicos para pistas de aviação inexistentes. Técnicos virtuais e pouco virtuosos.Bastava pedir que acontecia. Não havia que pagar os milagres. Cavaco Silva era simultaneamente o santo padroeiro e o mordomo da confraria. Jorge Coelho faria no PS o mesmo, se tivesse oportunidade.

O cravo que se instituiu como símbolo desse ato nobre de distribuir fundos europeus foi, para eles, transformado em BMW topo de gama, moradias em Vilamoura, conta offshore. Alguns até aprenderam a jogar golfe ea comer de boca fechada!

Esta nova classe vive feliz. Não sofre de depressões porque não conhece História. Age em matilha, corre, ladra e deita o dente a tudo o que mexe. A corrupção, o cancro mais profundo da nossa sociedade, é para eles um inocente instrumento de ascensão social. Metem a mão no bolso alheio como as beatas nas pias de água benta! Santificam-se com o que roubam.

A anulação de valores, de referências morais que o cavaquismo promoveu, fez recair sobre duas instituições as responsabilidades de viabilizar a nova Pátria: a educação e a justiça. Sem valores, isto é, com os valores dos novos barões, a escola e os tribunais colapsaram. Era o resultado pretendido. Crato e Teixeira da Cruz, coadjuvados pelos sindicatos das respectivas corporações fazem o que se espera deles: uma massa acríticaconduzida por uma elite impune. O cavaquismo em ponto de rebuçado!

O desencanto e a amargura dos que vagueiam fora deste sub-regimeé, em parte, o resultado da desestruturação da sociedade que ele promoveu: uma sociedade precária, de bairros de arquitectura e construção precárias, de gente vinda dos campos para a precariedade da cidade, de trabalhadores precários, de funcionários precários, de leis precárias, de regras precárias. Uma sociedade à deriva, onde não pode haver futuro, porque não existe a estabilidade para o preparar. Uma sociedade sem lei, de onde fogem para a emigração os que podem e os que não podem são votados ao ostracismo da miséria de salários e pensões.

Todos temos culpas no cartório: deixámos que a nova matilha fizesse de Portugal uma sociedade concessionada. É assim com a saúde, os transportes, a energia, a segurança, a água e até o lixo. A matilha lambe os beiços com as rendas.

A concessão e a privatização do lixo constituem o brasão do cavaquismo, a par da obra mater que foi o BPN, a gruta que incubou os vampiros que nos sugam.

Carlos Matos Gomes

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