EDITORIAL  – PORTUGAL – DO MITO DO IMPÉRIO AO SONHO EUROPEU

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Em Le Monde Diplomatique deste mês, Serge Halimi resumiu muito bem o fim do sonho europeu. Tornou-se uma máquina de punir. E as forças políticas predominantes estão de acordo no essencial: “o rigor é necessário para recuperar a confiança” e a “disciplina orçamental é inevitável”. Duas frases, duas fórmulas que, fora do contexto em que têm sido utilizadas, reutilizadas e repisadas, mereceriam até um acordo generalizado, mas que no panorama actual têm um significado muito concreto, ligado às suas implicações imediatas: desemprego, corte de salários e prestações sociais, redução quando não a extinção dos serviços públicos essenciais ao bem-estar. Fenómenos mais próprios de um pesadelo, para utilizar imagens correntes.

Os sonhos assentam em mitos. Aquilo a que hoje chamam o sonho europeu amanhã será designado como o mito europeu. Ao longo da história encontramos outros mitos que têm servido aos governantes para fazerem sonhar os seus povos, e os conduzir pelos caminhos que, de uma maneira ou outra, lhes interessam. Portugal, durante séculos, viveu com o mito do império colonial, peça essencial no cultivo de sonhos e quimeras de grandeza. Com o 25 de Abril, o mito desabou, e então entrou o sonho europeu, à conta do qual nos inculcaram a ideia de que iríamos viver muito melhor, com um grande apoio dos outros países europeus.

A Europa supercivilizada, opulenta, de cultura refinada, finalmente livre das guerras mundiais desencadeadas pelas rivalidades entre as suas potências maiores, pareceu um instante ao alcance da nossa mão. Essa Europa, que também já há séculos que exerce uma atracção forte sobre muitos portugueses, parecia impor-se na nossa imaginação. Pelo menos na imaginação de muitos de nós.  Hoje parece desaparecer nas brumas da austeridade. Em vez disso sentimos cada vez mais uma grande capacidade repressiva, que, ainda por cima, para ser do agrado dos nossos governantes. Eles às vezes desmentem que a austeridade seja do seu agrado, mas não convencem toda a gente. E o sonho europeu bem que poderá passar a ser designado pelo mito europeu. Parece cada vez mais irrealizável.

1 Comment

  1. Europa supercivilizada, opulenta, de cultura refinada? – Nem sonho nem mito. Trata-se de mero argumento de vendas de banha da cobra!

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